"O conhecimento é o mais potente dos afetos: somente ele é capaz de induzir o ser humano a modificar sua realidade." Friedrich Nietzsche (1844?1900).
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O legado deixado pelo século XIX à contemporaneidade pode ser resumido por três das mais bizarras criaturas que nasceram da literatura e tendo caído no gosto popular dos séculos seguintes, ganharam notoriedade através do cinema. A saber: o monstro do Doutor Frankenstein[1], Drácula[2] e o Quasímodo.
 
Subtraindo o pendor de Byron[3] que circunda o famoso vampiro e, também o monstro do doutor, há  um charme e o Quasímodo que era o sineiro feio, corcunda e surdo, sendo uma das mais interessantes personagens criadas por Victor Hugo.
 
Ao abordar os monstros, quem são, nos remetemos a uma definição além de histórica, é profundamente cultural, assim cada cultura cria seus monstros e cada época, segundo aludiu Foucault privilegia certa espécie de monstro.
 
Aliás, Quasímodo além da monstruosidade presenciou o comentário das pessoas que afirmava: É um aborto de macaco, é um milagre. Um verdadeiro monstro de abominação, é um animal, um bicho, uma coisa enfim que não é cristão e que se deve atirar ao fogo.
 
A origem da palavra monstro é latina, e tanto pode vir de monstra que significa mostrar, apresentar, quanto advir de monstrum, com significado de aquele que revela, aquele que adverte, ou mesmo de monstrare que possui a noção de ensinar um comportamento, prescrever a via a seguir.
 

O romance de Victor Hugo também nos oferece uma interessante concepção de monstro, como observaremos na seguinte passagem:
 

Depois de todas as faces pentagonais, hexagonais e heteróclitas, que se haviam sucedido nesse óculo sem realizar o ideal de grotesco construído nas imaginações exaltadas pela orgia, faltava esse esgar sublime que enchia as assembleias de um deslumbramento...
 
Ao vê-lo com a sua vestia, metade vermelha, metade violeta, [...] em toda a perfeição da sua fealdade, a população reconheceu-o imediatamente, e exclamou a uma voz: – É Quasímodo, o sineiro! É Quasímodo, o corcunda de Notre Dame!
 
Nesse mesmo século, em 1832, o zoologista francês Geoffrey Saint-Hilaire cria a “teratologia”, a ciência que estuda as deformidades do corpo.
 
Para se diferenciar dos tratados sobre monstros e prodígios de até então, que misturavam as explicações orgânicas com as mágicas e espirituais, o autor abandona a raiz latina e deriva o nome desse novo ramo da medicina do grego terato, significando ainda “monstruosidade, anomalia”, e originado de terás, “o sinal enviado pelos deuses, uma coisa monstruosa”. Cria-se uma outra nomenclatura, mas seu significado continua o mesmo: o deformado físico é um monstro.
 
A monstruosidade moral de Frollo pode ser analisada a partir de importantes considerações feitas por M. Foucault a respeito da figura do monstro. No século XIX, surge uma figura que vai assombrar o imaginário social e desestabilizar os padrões normativos, o indivíduo anormal. O anormal, diz Foucault é um monstro cotidiano, um monstro banalizado.
 
Assim para Foucault, a noção de monstruosidade que começa a ser elaborada neste período, é a ideia de irregularidade. Distanciando-se do caráter jurídico-natural passa a concernir os desvios da conduta de um indivíduo. Surge então a figura do monstro moral.
 
A monstruosidade moral de Frollo pode ser analisada a partir de importantes considerações feitas por M. Foucault a respeito da figura do monstro.
 
Assim para Foucault, a noção de monstruosidade que começa a ser elaborada neste período, é a ideia de irregularidade. Distanciando-se do caráter jurídico-natural passa a concernir os desvios da conduta de um indivíduo. Surge então a figura do monstro moral,
 
Há na obra traz uma complexa teia de interesses e paixões envolvendo Phoebus, Claude, Gringoire e Quasímodo e, todos, se rendem ao amor à cigana e dançarina Esmeralda. Toda a trama encerra como convém ao gosto romântico numa tempestuosa morte e sob as diferentes versões sobre o amor.
 
Há vestígios do Quasímodo na literatura brasileira como em Bocatorta, personagem de conto homônimo, da coletânea Urupês de Monteiro Lobato[4].
 
Sua deformidade e tendência a necrofilia a tornaram uma figura tão obscura quando o sineiro de Victor Hugo, mas nada nos garante não existir péssimas intenções, quando ao final, desenterra a virgem para beijá-la. A sua morte é o resultante desse amor, bem como no caso do corcunda,
 
O  narrador descrevendo o dia que se seguiu a tragédia, sugere cera singeleza e pureza ímpares, pois nada mais recordava a tragédia noturna, nem denunciava o túmulo do lodo açaimador da boca hedionda (...)
 
A descrição de Bocatorta realizada pela personagem Vargas a Eduardo, na sua simplicidade de homem campesino,  é dos mais ricos exemplos de manifestação grotesca em nossa literatura onde há a junção osmótica perfeita entre o obscuro, o bizarro e o cômico.
 
Por sinal, a relação existente entre Cristina e Bocatorta é a mais obscura que parece à prima vista, e renderia interessante análise pelo viés psicológico e psicanalítico. Inicialmente há  a repulsa e o medo desde a infância, a doença misteriosa que a moça parece ter contraído ao simplesmente constatar o definhamento da criatura de forma silenciosa até a morte, e o clímax que é formado pelo beijo bizarro.
 
Peri, do romance “O Guarani”, do autor José Alencar[5] por sua beleza exótica pode ser comparado à feiura de Quasímodo de Hugo.
 
No campo das deformidades, no âmbito do grotesco, presume-se que a voz, é o que há de mais feio na Arte. O que é falso. Aliás, Victor Hugo propôs um certo diálogo, pois já reivindicara que as manifestações grotescas deveriam estar no mesmo patamar de valor que as obras apolíneas.

Assim, o beijo da Bocatorta em Cristina, une o sublime ao bizarro simultaneamente ao mesmo tempo, que choca mais que a própria criatura em si.

 
Percebe-se que o grotesco não rejeita o belo. E, se funde a este, para mostrar sua falibilidade e, como um riso de escárnio em face à intenção humana de buscar a perfeição a qualquer custo.
 
Porém nada pode ser tão perfeito, ao ponto de ser intocável, por algum momento da história e ganhar o vistoso rótulo de grotesco.
 
Observemos a Vênus de Milo atualmente sem seus braços e já corroída pelo anos, perdeu parte de sua exuberância, ganhando uma deformação que a aproximaria até do próprio Quasímodo.
 
E, reside a beleza lá, incrustrada no tempo e na história que se encarrega de apontar o quão esta é falível e passível da  mais fina transição.
 
O romance intitulado "Notre-Dame de Paris" publicado em 1831 passa-se realmente no ano de 1482 e a trama transita em volta de duas pilastras principais, a saber; a própria catedral e o sineiro.
 
Enfim, pode-se afirmar que é a Notre- Dame a principal personagem enquanto que o Quasímodo é apenas um de seus órgãos, talvez, um braço, um olho ou uma garganta, uma vez que os sinos só dobram em suas mãos.
 
Estabelece-se uma relação de ganhos e perdas, pois os sinos deixaram o Quasímodo surdo e, a catedral possui uma chance gritar pelo vigor do corcunda. A catedral paradoxalmente é mãe e protetora e com sua fachada exuberante traz o rosto sublime de quem é carente de afeto e atenção.
 

O livro intitulado "Os Anormais" consiste na transcrição de onze aulas do curso ministrado por Foucault em 1975. Nessa obra realiza-se uma reconstrução genealógica do conceito de anormal erigido durante o século XIX, que inicialmente ocorreu em meio o confronto de saberes jurídicos e penais, até se dirigir para a psiquiatrização do desejo e da sexualidade, já no final do século XIX.
 
Foucault discorreu sobre o monstro humano de forma detalhada e abordou as diferentes nuances da anormalidade até o advento da figura onanista, este não dedicou a mesma atenção ao indivíduo a corrigir.
 
Após o desenvolvimento da noção de degeneração por Morel, todo tipo de anormalidades é atribuído a uma fonte orgânica e difusa que perturba constitutivamente as funções mentais e/ou físicas de certos indivíduos e, de modo cada vez mais grave, de seus herdeiros biológicos.
 
Afinal, a teoria da degeneração é a mãe de quase todas as teorias eugênicas que irão evoluir no período vitoriano, principalmente nos debates entre os evolucionistas spencerianos que apoiavam Darwin para identificar estigmas físicos da anormalidade como os indicativos de criminalidade, como é o caso da escola italiana de Lombroso e seus adeptos.
 
Recorrendo a mais uma comparação simplista, enquanto se pode afirmar que o Romantismo europeu tem um pendor natural a partir de uma semente, o mesmo não se dá aqui no Brasil, onde parece ser mais uma planta de enxerto e onde todo movimento ruma em busca de emoção e sentimento supostamente perdidos e nos chego como forma importada, trazida por alguns jovens intelectuais que, antes de conhecer a terra natal, conheceram intimamente a boemia da Europa.
 
Assim o Romantismo[6] nos oferece uma nova resposta aos velhos problemas existenciais, que continuaram mesmo depois da independência do Brasil. E, a tão apregoada liberdade romântica extensível aos negros e indígenas, foram apenas deferida no final do século XIX.
 
Assim, concluímos que o romantismo na terra brasilis chegou quase tão deformado e até feio como o Quasímodo. Nossos olhos míopes pela europeização trazida pelos letrados, parece ter sido criado por seres grotescos a semelhança do sineiro francês.

Referências
COLETTI, Vagner. Peri, o nosso Quasímodo. Disponível em: http://www.unifafibe.com.br/revistasonline/arquivos/revistafafibeonline/sumario/10/19042010094702.pdf Acesso em 29.9.2018.
DE ALMEIDA, Francis Moraes. Os anormais. Resenha. Foucault, Michel. São Paulo: Martins Fontes, 2001. Disponível em: http://www.seer.ufrgs.br/index.php/sociologias/article/view/5615/3226 Acesso em 28.9.2018.
FOUCAULT, Michel. O sujeito e o poder. In: DREYFUS, Hubert L. e RABINOW,
Paul. Michel Foucault: uma Trajetória Filosófica. Para Além do Estruturalismo e da Hermenêutica. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995.
_____________. Em Defesa da Sociedade. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
 
 
 

[1] Ou Prometeu Moderno é um romance de terror gótico com inspirações do movimento romântico, de autoria de Mary Shelley, escritora britânica. É considerada como a primeira obra de ficção científica da história. E, o romance relata a história de Victor Frankenstein, um estudante de ciências naturais que constrói um monstro em seu laboratório.
A autora escreveu a obra quando tinha somente dezenove anos e, entre o ano de 1816 a 1817, e fora primeiramente publicada em 1818, sem crédito para a autora em sua primeira edição.
[2] Dracula é um romance de ficção gótica lançado em 1897, de autoria do irlandês Bram Stoker, tendo como protagonista o vampiro Conde Drácula. Tornou-se a mais famosa história de vampiros da literatura.
O aclamado autor de literatura de terror de Stephen King considerou Drácula um dos três grandes clássicos do gênero, ao lado de Frankstein e Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde. Cabe lembrar que a obra está em domínio público e pode ser baixada gratuitamente na sua íntegra na língua inglesa.
[3] George Gordon Byron, o sexto barão Byron (1788-1824) foi poeta britânico e uma das figuras mais influentes do romantismo. Entre seus trabalhos mais conhecidos estão os extensos poemas narrativos como Don Juan, A Peregrinação da Childe Harold e o curto poema lírico She Walks in Beauty
No fim da vida, Byron juntou-se à Guerra de independência da Grécia contra o Império Otomano, motivo pelo qual muitos gregos  reverenciam-no como um herói nacional. Morreu aos trinta e seis anos de idade de uma febre contraída em Missolonghi. 
Muitas vezes descrito como o mais extravagante e notório dos maiores poetas românticos, Byron foi tanto festejado  quanto criticado em sua vida pelos excessos aristocráticos, incluindo altas dívidas, numerosos casos amorosos com  homens e mulheres (como, por exemplo, com a meia-irmã da escritora Mary Shelley, Claire Clairmont), além de boatos de  uma relação escandalosa com sua meia-irmã, autoexílio e bissexualidade sendo também um dos primeiros escritores  a descrever os efeitos da maconha.
[4] Sublinhou o filósofo Noël Carroll uma das principais características dos monstros das narrativas de horror, é, por serem fisicamente repulsivos, a capacidade de provocar náuseas nas personagens que as descobrem, como podemos comprovar no trecho do conto de Lobato, in litteris: “Vargas interveio, cuspilhando com cara de asco: - Se o doutorzinho o visse!... É a coisa mais nojenta deste mundo.”
[5] O Guarany é romance escrito por José de Alencar, em 1857 foi publicado o capítulo inicial do romance no Diário do rio de Janeiro, para no fim desse mesmo ano, ser publicado como livro, feitas alterações mínimas em relação ao que fora publicado em folhetim. Peri, índio da tribo dos Goitacás, tinha um amor devoto e fiel por Ceci. Após salvar a moça,  o índio foi viver com a família Mariz, passando a fazer todas as vontades da amada.
[6] As gerações românticas no Brasil foram três, a saber: a primeira geração, era a geração nacionalista e indianista foi marcada pela exaltação da natureza, volta ao passado histórico, medievalismo, criação do herói nacional na figura do indígena, de onde surgiu a denominação de geração indianista. O sentimentalismo exacerbado e a religiosidade são também outras características presentes. Entre os principais autores estão Gonçalves Dias, Gonçalves Magalhães e Araújo Porto Alegre.
A segunda geração foi chamada de mal do século, muito influenciada pela poesia de Lord Byron e Musset, também é chamada de geração byroniana. Era impregnada de egocentrismo, negativismo boêmio, pessimismo, dúvida, desilusão adolescente e o tédio constante. Os ultrarromânticos, o verdadeiro mal do século, seu tema preferido é a fuga da realidade, com expressiva idealização da infância, nas viagens sonhadas e na exaltação da morte. Os principais poetas foram Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Junqueira Freire e Fagundes Varela.
A terceira geração é a chamada geração condoreira. Foi caracterizada pela poesia social e libertária e refletiu as lutas internas da segunda metade do reinado do Dom Pedro II. Essa geração sofreu intensamente a influência de Victor Hugo e de sua poesia político-social, daí ser também conhecida como a geração hugoana. O termo condoreirismo é pelo fato de o símbolo da liberdade adotado pelos jovens românticos, ser o condor, uma água que habita o alto da Cordilheira dos Andes. Seu principal representante foi Castre Alves, Tobias Barreto e Sousândrade.
Gisele Leite
Enviado por Gisele Leite em 29/09/2018
Alterado em 30/09/2018
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