"O conhecimento é o mais potente dos afetos: somente ele é capaz de induzir o ser humano a modificar sua realidade." Friedrich Nietzsche (1844?1900).
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Queria perdoar. Dar-me o livramento d'alma, tirar o peso enorme dos questionamentos que jamais foram respondidos. Somente o eco acompanhou minhas dúvidas que ficavam martelando em cima num mesmo desafeto.

Sinceramente perdoar deve ter aprendizado. Talvez exija maturidade, sobriedade e, principalmente, grandeza. Mas, tudo dentro de mim era miúdo, picado e destroçado no meio da constatação bizarra de não ser desejada, de não ser amada e, pior, não ter a chance de sê-lo algum dia.

O tempo passou e, o dia do perdão aponta gritantemente para uma deficiência humana. A natureza humana que reside na cicatriz, na ferida aberta ou fechada e nas dores lancinantes  Lateja o pobre espírito que por falta de compreensão, escolheu apontar a culpa, a responsabilidade e constrói o ódio lentamente.

Pautado na necessidade de ser amado. De ser um(a) filho(a), um(a) amigo(a), um amante, um(a) irmã(o) ou, pelo menos, um ser humano respeitado.  Nem sempre consegui perdoar. Gostaria muitíssimo. Algumas bagagens deixei na estrada da vida. Outras carreguei até a exaustão. Mas, esquecer não é perdoar.

Perdoar é entender as razões, a conspiração virulenta da genética e da história. Não vencemos tudo e nem perdemos sempre. Mas, existem lutas que não escolhemos travar. Lutas que nos elegeram. Num voto secreto e suspeito.

Existem batalhas cotidianas, silenciosas e comprimidas no tórax que anseia e aguarda por um gesto simpático ou por mera acolhida. Talvez um abraço.

Talvez um breve aceno. Ainda me lembro de nossa última refeição: frango assado e batatas.  Será que você ainda se lembra? Lembro-me os fonemas carcomidos em nossas conversas peripatéticas. Que orbitavam feitos anéis de Saturno. Ora confusas e ora concêntricas.

A via Lactea é imensa. E observo que nosso planeta Terra é quase todo água... e alma, precisa do perdão para simplesmente respirar e conhecer a eternidade. Assim que eu puder, a primeira coisa mais avançada e sofisticada que farei será lhe perdoar para todo o sempre. Perdoar plenamente.

Então o infinito se encurtará. O azul do céu me trará maior oxigênio e, apnéia cessará. Bem como o ressentimento pungente de quem esperava muito mais do conto de fadas. 
Gisele Leite
Enviado por Gisele Leite em 19/09/2018
Alterado em 06/12/2018
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