"O conhecimento é o mais potente dos afetos: somente ele é capaz de induzir o ser humano a modificar sua realidade." Friedrich Nietzsche (1844?1900).
Textos

A carta


Eu devia lhe escrever
Assim tão copiosamente
Tal qual quando choro

Em que o tempo sorve as
lágrimas em labaredas,
A queimar meu rosto em sofrimento


Eu devia lhe contar a sua estória,
sua origem,
Como nasceu, como cresceu
E, pior como você efetivamente
Veio a morrer em plena convivência
de nossos dias.
Morte contemporânea
e errante.

Choro em pensar na carta,
Na letra calígrafa contornando
a agonia como uma dançarina de sete véus

E, ao abandonar o sétimo véu
Num devaneio dúbio e cruel
Suspeito da poesia,
Desconfio da rima e da prosa

E ainda brigo com a vírgula
Pois é quer sintonizar a parábola
perdida de um dia infeliz.

Quer modular a metáfora,
Quer ser metafísica
Enquanto eu, só quero
lhe escrever uma carta,
Um telegrama ou um sms

Para torpedear sua alma de culpa
E conseguir lhe ver novamente
Em meus umbrais de esquecimento.

A carta que não escrevi
A palavra que não pronunciei
A culpa que não causei
Tramaram juntas a solidão fecunda
E agora que estou em silêncio de
monastério...

Rezo para que seja feliz
Sem minha mensagem e permaneça com
a boa e velha dúvida:
Valeu a pena?
Gisele Leite
Enviado por Gisele Leite em 27/01/2012
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