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Terapia
Vim aqui para falar
Falar de mim, das minhas coisas, meus gostos, jeitos e gestos. Fonemas rompem a barreira do som e do espaço E se esforçam para verbalizar tudo O verbo irá nos redimir das culpas, das mágoas, das cicatrizes que teimam ainda em sangrar. O verbo irá nos libertar de nossa história E será então, tudo estória Um relato humano repleto de reticências e incertezas. Um relato de flagelos de alma que gemem dentro da gente Vim aqui para falar E, de repente se instaura uma mudez absurda A palavra me foge. As expressões parecem todas inexatas, débeis e torpes Em nada dimensionam o que sinto. Esse momento de terapia É de extrema fragilidade Expusemos nossas dores dependuradas no varal do consultório. São ruidosas, Maldosas e maléficas. De repente, esse niilismo Me toma de assalto Meus olhos exoftálmicos Tentam saltar, suicidas que são... Meu espírito é um pingente que irá saltar na próxima estação. Estamos no outono. Sobreviver as folhas mortas que caem. A primavera que passou e deixou na lembrança O perfume inverossímil das hortênsias Sobreviver definitivamente é pouco. Vim aqui para falar Tenho enorme dificuldade de falar de mim mesma Embora escreva. Escreva muito compulsivamente Escrevo bilhetes para mim mesma E, os leio com a atenção dos profetas O papel me encara com doçura O terapeuta me olha com interrogações crassas e absurdas anotadas no caderninho que utiliza durante as sessões. Olho o relógio de relance Na esperança de que a expiração tenha fim. A pausa reticente de um suspiro ou de um adeus. Hoje falei pouco ou quase nada Mas ainda estou me acostumando a sua presença, aos seus ouvidos atentos e decifradores Ainda estou a me acostumar com a esfinge que irá me decifrar ou me devorar. Gostei de um enfeite de sua estante Pareceu-me simpaticamente mudo. Tomara que eu também tenha assim parecido.
GiseleLeite
Enviado por GiseleLeite em 05/04/2008
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