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![]() Ricardo III de Shakespeare e a política modernaRicardo III de Shakespeare e a política moderna
A peça aborda uma intrincada e complexa rede de temas pertencentes à teoria política, passando por intrigas, conspirações, comportamentos, conflitos de poder, diálogos, retórica, persuasão e convencimento político. Há um oceano de coalizões, violência, astúcia e dissimulações.
A inevitabilidade do Acaso, as qualidades, virtudes (virtú) e os vícios do princípe, a potência do agir, audácia, enfim, trata-se da configuração da tragédia política moderna. A peça tem no seu conteúdo dramático as formas nas quais se revelam as práticas coletivas dos meandros do poder e das ações sociais, um jogo posto em cena a fim de mostrar os jogos da sociedade.
A peça Ricardo III integra os chamados Dramas Históricos que são nove e constitui a tetralogia da Guerra das Duas Rosas. Há uma das célebres frases da peça e, foi proferida por Ricardo III. "Um cavalo. um cavalo, meu reino por um cavalo!" Vide: ato cinco, cena 4, linha 13.
Outras obras de drama histórico que compartilham o tom político, a ambição implacável e o foco em figuras reais ou conflitos de poder como Ricardo III incluem: Outras Peças de William Shakespeare Henrique V: Foca na jornada do jovem monarca inglês rumo à famosa Batalha de Azincourt, misturando o peso da liderança política com dilemas morais e discursos marcantes. Júlio César: Um clássico drama político sobre conspiração, assassinato e a luta pelo poder em Roma após a morte de César, destacando a manipulação e a retórica. Macbeth: Embora classificada como tragédia, funciona como um espelho psicológico e político da ascensão e queda de um tirano consumido pela ambição, muito próximo de Ricardo III.
Outros Dramas Históricos de Shakespeare: Henrique VI (Partes 1, 2 e 3): A trilogia que antecede diretamente Ricardo III, mostrando a sangrenta Guerra das Rosas e a decadência da Inglaterra sob o fraco governo de Henrique VI. Ricardo II: O drama sobre a queda mística e trágica de um rei que perde o trono para seu primo Henrique Bolingbroke (futuro Henrique IV), explorando a legitimidade do poder. Henrique IV (Partes 1 e 2): Foca nas rebeliões contra o trono usurpado por Henrique IV e no famoso conflito interno do príncipe herdeiro (Hal). Macbeth: Embora classificado puramente como tragédia e ambientado na Escócia medieval, compartilha com Ricardo III o tema central da ambição desmedida, da culpa psicológica e da ascensão de um tirano sanguinário através do crime
É dita durante a batalha de Bosworth Field quando o cavalo do Rei foi morto e ele continua a luta de pé e desesperado contra as forças do Conde de Richmond(futuro Henrique VII) antes de ser morto em combate. Trata-se de uma criação do Bardo para realçar o caráter aguerrido e a ruína do vilão trágico. Outra fase é "Agora é o inverno do nosso descontentamento".
O dramaturgo inglês acaba por conceber uma visão política ao teatro. Antes dele, a ação dramática tinha como tema central o relacionamento dos homens com o divino (principalmente os gregos) e, num segundo plano, com a sociedade e com o Estado. Ele inverte o tema de secundário para central.
A dimensão trágica da/na política está presente na maioria das peças de Shakespeare, nas quais o bardo, chamado de "Cisne de Avon" por Victor Hugo, expressa as tensões e os paradoxos que atravessam a esfera do poder político; o potencial com que a Política pode contribuir ou impedir a melhoria da condição humana. "O político não desaparece, ele muda de forma; ele não desaparece porque ele é indissociável do trágico sempre presente, em todos os momentos e em todas as sociedades".
O que está se configurando na modernidade é um novo conceito de ordem, não mais uma ordem estática estabelecida a partir de hierarquia prefixada, mas a ordem mundana das relações sociais, ordem construída pelo homem. Mais ainda, essa ordem racional deve ser projeto do Estado.
Caracterizar, portanto, a política moderna é entendê-la como jogo de forças opostas resultantes dos inconciliáveis desejos humanos. A política, como atividade tipicamente humana, é marcada a partir da modernidade, tanto nas peças de Shakespeare, como nos escritos de Maquiavel, como a inevitabilidade do conflito. Tal "choque de interesses" é inerente ao jogo político e evidencia o caráter trágico ao revelar as contradições e os paradoxos deste.
A política, em Shakespeare, nos mostra as (des) ordenadas crises (ciclos de poder - alternância de enfraquecimento e fortalecimento da autoridade) em que o grupo de indivíduos se depara e a busca de soluções por parte destes homens que atuam no círculo (reino) da política.
Shakespeare ampliou e realizou uma leitura de política se remontando a um período específico, ao criar artisticamente (peças teatrais), num contexto histórico marcado por profundas mudanças, em que o novo ainda não havia surgido e o velho ainda não havia morrido, nesse sentido, num processo de instauração da modernidade.
Ricardo III é uma peça carregada de signos, significados, valores pertencentes ao Renascimento, período histórico que rompe com o mundo medieval - sociedade agrária, estamental, teocrática e fundiária - mas que contém em seus desdobramentos, elementos políticos fundamentais (como os citados no princípio deste artigo e em negrito) e ainda mais, tão contemporâneos, a ponto de termos (possíveis) parâmetros de análise para entender os impasses e as rupturas do pensamento político atual.
Apesar das ambiguidades e incertezas (a auto-eternizante incerteza) da vida pós-moderna, Shakespeare produziu uma peça histórica renascentista, mas que segundo Ben Jonson pertence a todas as épocas, representando de modo peculiar o imanente significado real da política.
Aspectos jurídicos e históricos da Guerra das Duas Rosas, na Inglaterra
A Guerra das Duas Rosas (1455–1487) foi uma série de guerras civis dinásticas pelo trono da Inglaterra, travada entre as casas de Lancaster (rosa vermelha) e York (rosa branca). Embora seja frequentemente lembrada por suas batalhas sangrentas, o conflito foi profundamente moldado por crises jurídicas, disputas de legitimidade constitucional e transformações nas estruturas de poder inglesas.
Aspectos Históricos
O conflito não surgiu do nada; foi o resultado de décadas de instabilidade política, econômica e militar na Inglaterra medieval.
Crise Dinástica e Psicológica: O gatilho central foi a fraqueza do rei Henrique VI (Lancaster). Ele sofria de severos surtos de doença mental e era visto como um governante incapaz, o que abriu espaço para que Ricardo, Duque de York, reivindicasse a regência e, eventualmente, a coroa.
Fim da Guerra dos Cem Anos (1453): A derrota da Inglaterra para a França deixou o país inundado de soldados profissionais desempregados e nobres insatisfeitos, que canalizaram sua violência para as disputas internas.
Bastard Feudalism (Feudalismo Bastardo): O sistema feudal tradicional havia mudado. Em vez de terras, os grandes nobres usavam dinheiro para reter exércitos privados de mercenários e cavaleiros, que deviam lealdade ao bolso do senhor feudal (e não à Coroa).
Resolução com a Dinastia Tudor: A guerra terminou na Batalha de Bosworth Field (1485), quando Henrique Tudor (um herdeiro Lancaster) derrotou Ricardo III (York). Henrique casou-se com Isabel de York, unificando as duas casas e dando início à Dinastia Tudor, que centralizou o poder e modernizou o Estado inglês.
Aspectos Jurídicos
Do ponto de vista legal, a Guerra das Duas Rosas foi um laboratório de disputas sobre o direito sucessório, o papel do Parlamento e o uso do direito penal como arma política.
A Disputa pela Legitimidade Sucessória
O cerne jurídico era determinar quem tinha o direito legítimo de governar, baseado em dois princípios de herança: A posição de Lancaster: Henrique VI baseava seu direito na linha masculina de sucessão e no fato de que seu avô (Henrique IV) havia sido reconhecido pelo Parlamento após depor Ricardo II em 1399. Havia o argumento de que três gerações de reis Lancaster legitimavam o direito de governar por prescrição jurídica.
A posição de York: Ricardo de York alegava um direito de sangue superior por meio da linha cognática (feminina), descendendo do segundo filho de Eduardo III, enquanto os Lancaster descendiam do terceiro filho. Legalmente, os York argumentavam que a usurpação de 1399 era um ato ilegal de origem, que nenhum lapso de tempo poderia sanar.
O Ato de Acordo (Act of Accord, 1460). Como solução jurídica para evitar mais derramamento de sangue, o Parlamento aprovou o Act of Accord. Este documento legal determinou um compromisso constitucional inédito: Henrique VI continuaria como rei até a morte, mas a sucessão passaria para Ricardo de York e seus herdeiros, deserdando o próprio filho do rei. Este ato demonstrou o poder do Parlamento em alterar a linha de sucessão por meio de leis estatutárias.
O Uso de Bills of Attainder (Leis de Proscrição)A principal arma jurídica utilizada por ambos os lados foi o Bill of Attainder. Tratava-se de um ato legislativo do Parlamento que declarava uma pessoa (ou grupo) culpada de alta traição sem a necessidade de um julgamento no tribunal.
Consequências civis: Quem sofria o attainder perdia todos os direitos civis (corruption of blood), seus bens e terras confiscados pela Coroa, e seus herdeiros perdiam o direito de herdar qualquer título ou propriedade.
Ciclo de vingança jurídica: Quando os Lancaster ganhavam, passavam attainders contra os York; quando os York assumiam o poder, revogavam as leis anteriores e emitiam novos attainders contra os Lancaster. Isso transformou o direito penal em um instrumento puramente político.
Manutenção da Continuidade Legal Apesar do caos e das mudanças violentas de monarcas (Henrique VI, Eduardo IV, Henrique VI novamente, Eduardo IV de novo, Ricardo III, Henrique VII), as cortes de jurisprudência (Common Law) continuaram funcionando.
Os juízes ingleses mantiveram a aplicação das leis cotidianas para a população comum. A disputa jurídica ficava restrita ao topo da pirâmide (a soberania e a alta nobreza), enquanto a estrutura jurídica básica do reino provou ser surpreendentemente resiliente.
Adaptações e Obras Contemporâneas
The Hollow Crown (A Coroa Vazia): Série de televisão da BBC que adapta os dramas históricos de Shakespeare, incluindo uma espetacular imersão na Guerra das Rosas e em Ricardo III (estrelada por Benedict Cumberbatch). A Branca de Neve e os Canteiros da História / The White Queen e The White Princess: Séries de época baseadas nos romances de Philippa Gregory que abordam exatamente a mesma era da Guerra das Rosas e a ascensão dos Tudor a partir da perspectiva dos derrotados e da realeza da época.
GiseleLeite
Enviado por GiseleLeite em 07/10/2026
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