"O conhecimento é o mais potente dos afetos: somente ele é capaz de induzir o ser humano a modificar sua realidade." Friedrich Nietzsche (1844?1900).
 

Professora Gisele Leite

Diálogos jurídicos & poéticos

Textos


Estória triste

Quando eu ouvi a estória, fiquei estarrecida. Era uma mãe de um bom aluno. Com boas notas e bom comportamento. Ela estava chorosa, com olhos inchados. Desfigurada de dor. Recebera a notícia que seu marido há duas décadas desejava o divórcio. E, o motivo era que o filho mais velho, agora com dezoito anos, confessou-se ser homossexual. O pai ficou perplexo e indignado. Então, conversando com a esposa, falou-lhe: - A culpa é sua. Sempre fez todas as vontades dele... deu nisso, ele é "viado". Eu não aceito. Então, o que tenho a lhe dizer, é o seguinte: se você concordar com essa aberração, quero o divórcio. Mas, se você me apoiar, recusar-se a aceitar, procuraremos tratamento, terapia, o que for preciso para ele recobrar a normalidade. Então, é simples: ou você me apoia ou, apoia a aberração humana. A mulher não acreditava em que ouvia... Tinha que escolher entre o filho e o marido. Procurou o padre da Igreja que frequentava... Procurou pai de santo da umbanda, até um pastor da Igreja Universal e ninguém lhe dava uma orientação. Então, ela me procurou como ultima ratio... pois me achava, sensata e inteligente. E, questionou-me: Homossexualidade é uma doença? Eu disse, já foi considerada no passado. Mas, em verdade, não é doença. A Organização Mundial da Saúde (OMS) retirou oficialmente a homossexualidade da Classificação Internacional de Doenças (CID) no dia 17 de maio de 1990, data que hoje marca o Dia Internacional contra a Homofobia, Bifobia e Transfobia. Depois, do fato, o marido afirmou que passaria uns meses no interior de São Paulo, resolvendo coisas pela empresa da família. E, ainda afirmou, que não permaneceria na casa ao lado de uma aberração. O filho, coitado, ficou rejeitado e preocupado que sua opção sexual decretasse o fim do casamento dos pais... Ela, a seu turno, não poderia expulsar o filho e renegar o seu apoio. Não era algo que desejava. Pois, ele como ser humano, permanecia sendo seu filho. Desde então, comunicava-se por escrito com o marido por whatsapp. Tudo que consegui falar, foi que ela aguardasse algum tempo, para enfim, o pai pudesse aceitar os fatos, num tom menos dramático. Ela chorou ao me abraçar. E, perguntou-me: Se fosse com você, o que faria... Eu rispidamente respondi: Jamais renegaria um filho, por causa de chantagem marital. De repente, o casamento já acabou, só que se percebeu tardiamente. Ademais, apontar-lhe culpa, isso foi cruel e indigno. Você não tem culpa de nada. Quem precisa de terapia e remédio psiquiátrico é o seu marido, desculpe-me a sinceridade. Quando eu morrer vai ser preciso um caixão para o corpo e, outro para língua.

GiseleLeite
Enviado por GiseleLeite em 21/09/2026
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