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Contos de fadas e sujeito infante.
Contos de fadas e sujeito infante.
Um estudo sobre os contos de fadas e sua importância na constituição subjetiva da criança ainda sob a leitura feita pela psicanálise. Os contos de fadas provindos diretamente da tradição oral onde inicialmente se visava aos adultos como meio de transmitir para as crianças os valores essenciais e relevantes para vida sendo essenciais para a formação da subjetividade infantil e tendo grande reflexo no inconsciente. Historicamente até a Idade Média , a sociedade enxergava a criança como sendo um adulto em miniatura, tanto que participava de atividades do mundo social, participava de jogos, brincadeiras, profissões, artesanatos, uso de armamento, assistia enforcamento e decapitações e até mesmo de práticas sexuais de adultos. De fato, o sentimento de infância não existia na era medieval. Se uma criança não podia participar do mundo adulto, ela simplesmente não existia. Tanto que uma criança muito pequena poderia até desaparecer sem despertar a preocupação nos adultos, as condições precárias de higiene também favoreciam em muito o aparecimento de doenças, o que justificava o elevado índica de mortalidade infantil da época. Quando a criança sobrevivia à primeira idade, deveria se dispor a defender os interesses da casa, deveria também ser útil, não apenas à sua família como também à sociedade. E, aos sete anos caso fosse de família de posses, poderia ser colocada na condição de aprendiz em casa de outras pessoas e também saber servir para ser servido, eis a premissa da época. Em se tratando de crianças pobres, depois dos quatorze anos, continuavam servindo nas casas dos senhores, além de ser aprendiz poderia prover-lhe o conhecimento para o futuro. Um sentimento novo e inexorável apareceu quando a presença da criança passou a provocar determinado prazer, seja para cuidá-las, amá-las, fosse por sua ingenuidade, gentileza ou graça, assim constituía fonte de distração e relaxamento. A maneira como a criança é vista atualmente começou a surgir a partir do século XVII, quando procurou-se preservar a inocência infantil e educação passou ser a primaz preocupação das famílias, educadores e mesmo da Lei. Quando então as crianças começaram a ser agrupadas por idade, tomando a condição de alunos e, foi a multiplicação de escolas e universidades onde surgiu a preocupação em separá-las por faixa etária, disciplinas e nível de instrução. Um processo que começou pelas camadas mais pobres, constituindo uma única oportunidade de promover-se socialmente. No século XVIII, a preocupação com a higiene e a saúde física se tornou importante, não tanto pelo objetivo de manter um corpo saudável, mas sim por uma questão moral, por se acreditava que um corpo não saudável conduzia aos maus hábitos como os vícios, a preguiça, a moleza e concupiscência. A Igreja passou a se preocupar com a moralidade, procurando preservar a criança afastando-a da sordidez da vida e especialmente da sexualidade dos adultos. Esse grande movimento moralista, promovido pelos reformadores católicos ou protestantes ligados à Igreja e ao Estado, contava com a cumplicidade sentimental da família, com o moralismo ocupando o lugar da afeição. Foi no século XVIII que o pensamento iluminista veio inspirar toda a educação até o século XX. E, Rousseau foi um dos representantes dessa época e defendeu a natureza pura e inocente da criança, desprovida de toda sexualidade, originalmente, ela tinha maneiras de pensar e agir próprias de sua faixa etária. O que requeria uma educação apropriada à sua idade, priorizando o desenvolvimento de suas potencialidades, cujas regras foram feitas por Rousseau num manual para educadores e deveria ser seguido para que se formasse bons adultos. E, tal manual foi bem aceito pelos pedagogos da Europa que fora fundamental para a mudança da mentalidade da época. O ano de 1789 representou um marco para nova sociedade que então priorizou a aprendizagem tida como rito de passagem pois a era o nascimento da criança-indivíduo. Porém, ainda se reconhecia esse indivíduo como ser capaz de fazer trabalho útil. A escola teria substituído a aprendizagem tradicional e se tornado principal meio de educação de modo que a criança não mais estaria misturada à vida e rotina dos adultos. Na Idade Média , a criança era sepultada sob suas roupas, seu corpo aprisionado. Somente no século XIX a criança se distinguiu, a expressão na arte fugiu às convenções, mostrando as diferenças, quando surgiram novos valores: os meninos usavam cabelos compridos e as meninas usavam cabelos presos, vestidos e aventais. A sexualidade começou a despontar como item de identidade. Os valores individuais galgaram maior importância, a burguesia revelou novas ideias, a ascensão do capitalismo produziu nova forma de vida, um novo olhar sobre a criança, esta então se transformou numa força de produção, um investimento lucrativo para o Estado em longo prazo. Um novo modelo pedagógico tratou de prepará-la no sentido de assegurar um homem bom e produtivo que sustentasse o futuro da civilização, principalmente, por meio de novas escolas e a responsabilidade de que as famílias começara a manifestar, não apenas na moralização, como também a higiene e a saúde física. A criança, neste momento, já ocupava um lugar central na família. No século XIX, uma característica marcante foi o angelismo, um movimento em que a criança se sobressaiu numa posição frágil, como evocasse uma origem divina do homem fazendo-o recordar a pureza primitiva como o aspecto mais nobre e carismático da condição humana. E, nesse momento, a criança se tornou vítima da sociedade e trouxe a dramatização da infelicidade. Uma certa ambivalência se notabilizou colocando a bondade da criança em questão, afinal ela se adaptava com maior facilidade em situações em que está em perigo, revelava esperteza, seus dons de imitações, seus vícios, simulações, eram astutos e capazes de vencer a violência social e, muitas vezes se mostravam amorais. Tal nova visão naturalista intentou mostrar a criança como exatamente era, em carne e osso, nem boa, nem má, apenas um ser vivo em desenvolvimento. A criança poderia ser vítima, mas não resignada e passiva, a insurreição da juventude teve seus primeiros saltos durante a trágica utopia da Comuna na França . A ciência, a pedagogia e a pediatria e demais especializações em torno da criança passaram a se preocupar com sua formação, normatização o que acabava em desqualificar a família na condução da educação, por falta de observância dos ditames de um conhecimento científico. Na primeira infância, o complexo de Édipo se revela como central fenômeno do período sexual e, Freud diz que esse complexo ofereceu às crianças duas possibilidades de satisfação, uma ativa e outra passiva, ocupando o lugar do pai e (ter relações com a mãe) ou da mãe (e ser amada pelo pai). Na verdade, a criança tem meras vagas noções quanto o que seja uma relação erótica satisfatória. O conflito que ocorre nas crianças é o medo da castração como forma de punição ao Édipo. Lacan ampliou a importância do sentido dado desde a família ao complexo de castração, a relação do bebê com a mãe, do homem e da natureza, da cultura e do animal humano. Assim, o acesso à linguagem se dá por meio de perda, amputação e de alienação no Outro genérico. Por isso, a psicanálise mostra a importância da transmissão dos valores da família como potencialidades estruturais exercendo um lugar fundamental nessa constituição. Os Contos de Fadas surgem historicamente por volta do século XIV e perduram até a contemporaneidade. Essas estórias contadas hoje são resultado de diversas reelaborações da sociedade europeia do século XVIII e XIX, muitas vezes condensadas ou confundidas umas com as outras, ou mesmo modificadas conforme os problemas especiais de cada época. Para Corso (2006), contos de fadas podem evoluir, identificando-se com situações modernas, buscando novas formas que a fantasia encontrou de se conjugar, representando famílias, crianças, pessoas de nosso tempo. Velhas tramas vestindo novos trajes. Bettelheim (2007) elucida as diferenças entre os Contos de Fadas e os mitos populares, ainda que inicialmente ambos representem as experiências cumulativas de determinadas sociedades, eles discordam entre si por suas características próprias. O mito é majestoso, transmite força espiritual mediante da figura divina e heroica, muitas vezes, sobre-humana. O conto de fadas é apresentado de uma maneira simplificada e despretensiosa, nenhuma solicitação é feita ao ouvinte; a esperança para o futuro oferece a promessa de um final feliz. Tradicionalmente, os Contos de Fadas foram transmitidos para as crianças de forma oral, foram contadas e recontadas inúmeras vezes, e exigiam da criança todo um complexo de organização que a levava a imaginar cada cena de forma única e subjetiva. A linguagem contemporânea conta com diversos recursos, e a imagem representa o “carro-chefe” na vida infantil. Não podemos dizer que as crianças perdem elementos essenciais para a imaginação, mas podemos dizer que elas perdem um recurso essencial: o Contador das histórias . Contar histórias às crianças não é apenas um jeito de dar prazer a elas, mas também é um modo de ampará-las em suas angústias, ajudá-las a nomear o que não podia ser dito, ampliar o espaço da fantasia e do pensamento. A ficção acaba representando uma saída para que certas verdades se imponham. Sem contar ainda com o espaço dos pais junto a seus filhos, diga-se de passagem, um lugar que hoje os adultos relutam em ocupar no afã de se conservar eternamente adolescentes. As narrativas são uma maneira de dizer coisas significativas aos filhos, dia após dia, até perceber que eles estão deixando de lhes dar ouvidos, o que significa que o poder sobre eles acabou – mas o amor continua (CORSO, 2006). Para Chauí (1984), os adultos ficam chocados com essa violência apresentada pelos contos de fadas, e ficam surpresos com o fato de que não a percebiam quando eram crianças, comprazendo-se nela – pois se apoiavam na certeza do tradicional “e foram felizes para sempre” cumpridos no final dos contos. O temor do adulto está relacionado ao seu medo inconsciente de que a criança o identifique com o “mau”, porém, a criança contrabalança sua identificação com o “bom”, discriminando, por meio da fantasia, momentos que lhe seriam difíceis sem o material imaginário. As versões mais famosas deste Conto clássico são as de Charles Perrault e dos Irmãos Grimm . Desde Perrault, essa história vem sendo suavizada. Na primeira versão escrita de que temos notícia, datada de 1697, Perrault concede à Chapeuzinho um final nada feliz. Esse diálogo mundialmente famoso acima citado é escutado há incontáveis gerações e faz parte do clímax de Chapeuzinho Vermelho. A criança, ao ouvir a estória, fica eletrizada, ansiosa com o destino da menina que será devorada, capaz de prever cada frase, pois já sabe de cor e quer ouvi-la todas as vezes sem nenhuma modificação. Nesta versão, que começa como todas as outras, a estória adquire um caráter de fábula moral, ensina que quem transgride as regras se expõe ao perigo, é punido e fim de estória. Chapeuzinho é devorada pelo lobo. Perrault traz um poema expondo a moral a ser extraída da estória, alertando as meninas ingênuas sobre os perigos dos lobos de fala mansa . A mãe de Chapeuzinho lhe dá a tarefa de levar guloseimas para a avó que está doente, mas não a alerta sobre os perigos da floresta. A menina encontra o lobo no caminho e lhe diz que vai à casa da avó. O lobo corre para lá, consegue entrar na casa fingindo ser Chapeuzinho e devora a avó. Em sua casa, Chapeuzinho está segura, encontra-se protegida pelos pais, é a criança sem preocupações que é perfeitamente apta a enfrentar as situações, o que não ocorre na casa da avó, onde ela se encontra fragilizada e incapacitada em decorrência de seu encontro com o lobo. Em seu lar, há fartura de alimentos, e Chapeuzinho irá partilhar sua fartura com a avó. Eis que podemos dizer que ela já havia ultrapassado a fase da angústia oral. O mundo externo não lhe parece nada ameaçador, ela conhece o caminho para a casa da avó e sua mãe lhe previne que dele ela não se afaste. Chapeuzinho sai de sua casa voluntariamente – coisa que não acontece com João e Maria , que foram “empurrados para o mundo”; não teme o mundo externo, pelo contrário, vê nele sua beleza e aí reside o perigo: um mundo demasiado atraente poderá atrair Chapeuzinho a ter um comportamento regido pelo Princípio do Prazer, em lugar do Princípio de Realidade que sua mãe presume ter ensinado para a menina. Se Chapeuzinho se deixar levar pelo Princípio do Prazer , eventos destrutivos podem ocorrer. Nesta versão do Conto, este dilema entre o Princípio do Prazer e o Princípio de Realidade é explicitado na seguinte fala do lobo: “Veja como são belas as flores ao seu redor. Por que não dá uma olhada por aí? Acho que nem ouve como os passarinhos cantam bonito. Caminha atenta e concentrada como se fosse para a escola, enquanto aqui na floresta tudo é alegria”. Essa passagem representa o conflito entre fazer o que se gosta de fazer e o que se deve fazer, a respeito do qual a mãe de Chapeuzinho a avisara, ao aconselhá-la a não sair da estrada para a casa da avó. Dessa forma, a mãe está ciente das tendências de Chapeuzinho se desviar do caminho e olhar pelos cantos a fim de tentar descobrir os segredos dos adultos. A estória de Chapeuzinho Vermelho alerta para os perigos que as crianças correm em razão de sua ingenuidade, diante da maldade de lobos perversos, ilustra também que as crianças podem se expor em demasia, em função de sua curiosidade sexual e dos desejos eróticos que se encontram confusos em seu interior. No conto, Chapeuzinho tem a atitude de dar confiança a um estranho, demonstrando não só aspectos de sua ingenuidade, como também uma clara conotação erótica. Perante a sexualidade velada no amor familiar, a criança pequena é ingênua como Chapeuzinho, mas é ousada como ela. Logo pode não saber que jogo está sendo jogado, mas é claro o seu interesse em participar Chapeuzinho Vermelho exterioriza os processos interiores da criança púbere, em que o lobo é a exteriorização da maldade que a criança sente quando contraria os conselhos maternos, e permite ser seduzida. Ao desviar-se do caminho traçado pela mãe, depara-se com a maldade e teme que esta venha a lhe engolir Na figura do caçador, temos a importância de um ego fortalecido, diferentemente de Chapeuzinho que cede às tentações do Id, traindo a mãe e a avó. O caçador ao encontrar o lobo, não permite que suas emoções o dominem, apesar de num primeiro momento desejar atirar no lobo, mas seu ego (razão) se afirmar, e ele controla sua raiva (provinda do Id), percebendo que é mais importante tentar salvar a avó e a menina. É em razão de salvar os bons e punir os maus que faz com que ele seja uma figura atraente, tanto para as meninas, quanto aos meninos, já que a maior dificuldade das crianças aqui representada no conto está em obedecer ao princípio da realidade, na dificuldade de perceber seus conflitos. A violência existente na ação do caçador em abrir a barriga do lobo é justificada pelo propósito elevado de salvar a avó e a menina; esta ‘cesariana’ insinua uma ideia de gravidez e nascimento, em que a mãe “engole” algo (como o lobo), e como a criança renasce simbolicamente, após dominar a transição da sua sexualidade. Crianças devem ser capazes de acreditar que, se dominarem as fases de desenvolvimento, poderão alcançar uma forma de existência mais elevada. É possível mostrar para as crianças que essas transformações interiores são possíveis Chapeuzinho Vermelho é um conto clássico, e seu valor para a criança está em dizer simbolicamente a ela que, ao deparar-se com seu Complexo de Édipo , vai ter dificuldades para realizar suas escolhas; as interpretações possíveis que partem da história são uma alusão ao potencial de sedução contido nas relações com os adultos, que muitas vezes revelam seu lado obscuro, mostrando sua face “selvagem” no lugar de sua face “doméstica”; as crianças correm riscos por sua ingenuidade, pois existe a maldade de alguns lobos perversos à solta por aí... Mas, não lhe é negada a verdade de que sua curiosidade e seus desejos eróticos confusos representam um perigo ainda maior. Os contos de fadas são importantes pelo valor das representações simbólicas, as crianças os aceitam e os compreendem intuitivamente, enquanto adultos tendem a tomar as coisas literalmente. Referências ARAÚJO, Francielle Mayumi Sakamoto Claro; AMARI, Fabio Nader; DE OLIVEIRA, Ana Maria Moreno. A função dos Contos de Fadas na Constituição do Sujeito Psicanalítico: uma análise a partir do Conto de Chapeuzinho Vermelho. Akrópolis, Umuarama, v.19, n.3, p. 187-202, julho/setembro 2011. ÁRIES, Philippe. História social da criança e da família. 2. ed. Rio de Janeiro: LTC, 1981. BETTELHEIM, B. A psicanálise dos contos de fadas. 21. ed. Tradução Arlene Caetano. São Paulo: Paz e Terra, 2007 CHAUÍ, M. Repressão sexual: essa nossa (des) conhecida. São Paulo: Brasiliense, 1984. CORSO, D. L.; CORSO, M. Fadas no divã: psicanálise nas histórias infantis. Porto Alegre: Artmed, 2006. FREUD, S. Tratamento psíquico (ou anímico). Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: Edição Standart Brasileira. Rio de Janeiro. Imago: 1996. v. 7. ______. Além do princípio do prazer. Obras psicológicas completas de Sigmund Fred: Edição Standart Brasileira. Rio de Janeiro. Imago: 1996. v. 18. ______. A ocorrência, em sonhos, de material oriundo de contos de fadas. Obras psicológicas completas de Sigmund Fred: Edição Standart Brasileira. Rio de Janeiro. Imago: 1996. v. GRIMM, J.; GRIMM, W. Contos Maravilhosos Infantis e Domésticos. 5ª ed. São Paulo: Cosac Naify, 2014. PERRAULT, C. O Chapeuzinho Vermelho. Porto Alegre, Quarup, 1993
GiseleLeite
Enviado por GiseleLeite em 21/09/2026
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