![]() |
|
![]() RessentimentoO ressentimento é uma emoção dolorosa que surge de injustiças percebidas, tendo como origem a repetição mental de uma ofensa passada, significado como o ato de revirar a mágoa e cura baseada no perdão e na aceitação. Sua origem pauta-se na experiência de injustiça: Nasce quando sofremos uma ofensa, rejeição ou tratamento considerado injusto. Expectativas frustradas: Ocorre ao notar que a realidade ou as ações dos outros não corresponderam ao que planejamos. Fixação psíquica: A mente se prende ao evento traumático ou à frustração de não ter mudado o passado Significado: Sentir de novo: A palavra vem do latim re-(novamente) mais sentire (sentir), indicando reviver a dor original de forma contínua. Estado de amargura: Mistura raiva, decepção e indignação mantidas acesas ao longo do tempo. Posição de vítima: Pode funcionar como uma defesa do ego ou busca inconsciente por validação e superioridade moral. Cura: Parar de reviver: Reconhecer que remoer a história não altera o que já aconteceu. Praticar o perdão: Liberar o peso emocional e o desejo de retaliação, focando na própria paz interior. Autocompaixão e escrita: Escrever sobre os sentimentos ou ressignificar a dor ajuda o cérebro a regular as emoções e seguir em frente. O ressentimento é a grande raiz de todos os nossos problemas de relacionamento. Ele é o maior responsável pela quebra de nossas relações mais preciosas. Se é tão pernicioso, como ele aparece? Como nasce o ressentimento? Ele surge em nosso coração quando alguma coisa fugiu do nosso controle, quando algo não aconteceu conforme tínhamos previsto ou quando alguma coisa indesejada por nós acabou acontecendo. Quanto mais diferente do previsto, maior será o grau do ressentimento. Tanto faz se quem não cumpriu nossa previsão seja alguém importante ou não. Mesmo que tenha sido Deus. Se não fez como achávamos que deveria fazer, se não disse o que prevíamos que deveria dizer, se não agiu conforme tínhamos programado, nosso coração se ressente, fecha-se e começa a nos corroer. O que caracteriza [o ressentimento] é que, frente ao desamparo inerente à própria condição da humanidade, que não pode se fiar no seu instinto, como os outros animais, não há outra alternativa senão se alienar no outro, ou no desejo do outro que lhe acolhe no mundo da linguagem, via pela qual ele tenta sanar o prejuízo. Nesse famoso exemplo somos convidados a imaginar duas classes aristocráticas, os "sacerdotes" e os "guerreiros", competindo pela superioridade política. Os guerreiros mais fortes conquistam inicialmente o controle, despertando o ressentimento dos sacerdotes. Por serem membros da aristocracia, os sacerdotes valorizam a superioridade política, mas sua fraqueza os impede de conquistá-la. Em outras palavras, esse exemplo descreve uma situação genérica na qual dois indivíduos ou grupos de indivíduos competem pela posse de um bem cobiçado; um indivíduo ou grupo de indivíduos é demasiado fraco para conquistar o bem, enquanto o outro é forte o suficiente para obtê-lo. O ressentimento que essa situação desperta no grupo mais fraco é normalmente considerado uma espécie de vontade doentiamente vingativa direcionada contra o rival mais forte. Ele parece ser, portanto, nas palavras de um comentador, um "sentimento social": o ressentimento é paradigmaticamente direcionado para outras pessoas ou agentes. No entanto, em virtude de sua fraqueza, o fraco não pode se vingar por meio de ações que sejam diretamente prejudiciais para os interesses dos seus rivais mais poderosos. Consequentemente, recorre a uma estratégia peculiar: "uma radical reavaliação dos valores dos inimigos, isto é, um ato da mais espiritual vingança". Incapazes de recuperar a superioridade política que perderam para os seus rivais, os sacerdotes a desvalorizam radicalmente: a superioridade e o desejo por ela não devem apenas ser tratados com indiferença, mas precisam ser repudiados como "maus". A própria estrutura do exemplo dado por Nietzsche na Genealogia da Moral estimula uma comparação entre ressentimento e inveja. O ressentimento dos sacerdotes apresenta a estrutura triangular típica da inveja: ele envolve um sujeito que tem inveja (o fraco), um outro que é invejado (o forte) e um bem, cuja posse faz com que o outro seja invejado (no exemplo de Nietzsche, a superioridade política). Para diferenciar o ressentimento da simples inveja, alguns filósofos destacam o desejo de prejudicar o outro invejado, por exemplo, privando-o da posse do bem cobiçado, aparentemente por conceberem que esse desejo é uma característica essencial do ressentimento, não da inveja6 De fato, quando o bem cobiçado é único, tal como a superioridade política, o desejo de conquistá-lo é, ipso facto, o desejo de que o outro não o tenha. Mas mesmo no caso dos bens únicos a distinção se mantém: uma pessoa pode desejar que os outros sejam privados do bem cobiçado mesmo que isso não garanta a ela a posse desse bem. Esse também é indiscutivelmente o caso do exemplo de Nietzsche: o fraco deseja ver seus rivais mais fortes destituídos de sua posição superior, ou ao menos incapazes de gozá-la. Por isso defendem o ideal de igualdade, o que os impede igualmente de gozar a superioridade. A atenção a essa característica do ressentimento sugere uma análise alternativa. De acordo com essa análise, o ressentimento é uma reação a um sofrimento em geral. Essa reação consiste em procurar por um culpado pelo sofrimento. No exemplo de Nietzsche, o sofrimento é causado pela frustração da ambição política do fraco, que naturalmente coloca a culpa do insucesso no seu rival mais forte. Na visão de Nietzsche, o ressentimento pode ser experimentado em relação a entidades impessoais não-agenciais, tais como "vida" Em todos esses casos o ressentimento é uma reação a um sofrimento, e quando motiva uma reavaliação, é também uma reação a um sentimento de impotência. O ressentimento dos sacerdotes na Genealogia apresenta essas características. Schopenhauer diferencia o sofrimento [Leiden] da dor [Schmerz]. A dor é essencialmente uma reação à privação, isto é, ela é causada por qualquer desejo que permaneça insatisfeito. Em contraposição, o sofrimento é uma experiência de frustração: "todo sofrimento não é nada mais do que um querer frustrado e não realizado", É crucial notar que Schopenhauer não fala de um desejo insatisfeito, mas de um querer não realizado. Isso indica que embora os desejos insatisfeitos provoquem dor, eles não produzem necessariamente sofrimento. É apenas quando quero satisfazer um desejo que experimento sua insatisfação como sofrimento. Ressentimento [ressentiment] é despertado pela incapacidade de alcançar a superioridade política, um bem que os sacerdotes valorizam. Reações comuns para o fracasso em realizar o objetivo valorizado incluem o remorso, a decepção ou emoções morais específicas que as circunstâncias tornam apropriadas, tais como o resentment ou a indignação. Remorso (ou decepção) é a reação que se volta para o valor de um objetivo não realizado. Na medida em que o ressentimento (ressentiment) é evidentemente diferente do remorso, o sacerdote não pode apenas lamentar pela perda da posse que valoriza. Resentment (ou indignação) é uma reação que se volta para o direito do agente a algum bem. Ressentimento difere do arrependimento e do resentment, de acordo com a minha visão, por se referir à incapacidade do agente para conseguir o que quer. Em outras palavras, o ressentimento do sacerdote não é uma reação à perda do bem nem à violação do direito, mas à perda do poder: é por isso que existe uma conexão com o sentimento de impotência. Consideremos novamente o exemplo de Nietzsche. O ressentimento do fraco é despertado pela sua incapacidade de assegurar a superioridade política cobiçada. Por ser incapaz de retirá-la dos seus rivais mais fortes, seu ressentimento se associa ao sentimento de impotência, o que o motiva a recorrer a um "ato da mais espiritual vingança": ele desvaloriza a superioridade política, julgando-a moralmente má. Nietzsche não deixa nenhuma dúvida sobre o sentido dessa reavaliação: "Isto, ouvido friamente e sem prevenção, não significa nada mais do que: 'nós, fracos, somos realmente fracos; convém que não façamos nada para o qual não somos fortes o bastante [...]" Diferentemente, a busca por poder depende da avaliação que o agente faz de outros fins, porque a determinação do seu conteúdo está subordinada a eles: o que conta como poder (ou proficiência) só pode ser definido em relação a esses fins valorizados. Isso significa que a busca por poder não pode (coerentemente) entrar em conflito com o valor que o agente atribui àqueles outros fins: ele não pode demonstrar a eficácia de sua agência sem afirmar os valores que fornecem a ela um determinado conteúdo. É por isso que a vontade de potência - a preocupação em ser um agente eficiente - é especificamente capaz de desfazer a avaliação dos agentes. Isso é particularmente verdadeiro, como Nietzsche nota, naqueles casos nos quais os danos causados pelos fracassos e frustrações não despertam apenas o ressentimento, mas igualmente o "sentimento de impotência". Por esse motivo, em tais casos o agente não pode mais satisfazer sua vontade de potência sem alterar os seus valores. Milan Kundera, em “A Brincadeira”, coloca-nos diante do personagem que, conseguindo perpetrar sua vingança, pergunta-se o que fará agora de sua vida, como preencherá o espaço que durante anos foi ocupado pelo ressentimento e alimentado por ideais de vingança. Passara anos de sua vida imaginando como fazer o outro sofrer o que havia sofrido, e agora?
GiseleLeite
Enviado por GiseleLeite em 05/08/2026
Copyright © 2026. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
|


