"O conhecimento é o mais potente dos afetos: somente ele é capaz de induzir o ser humano a modificar sua realidade." Friedrich Nietzsche (1844?1900).
 

Professora Gisele Leite

Diálogos jurídicos & poéticos

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Inferno: descrições.

Inferno: descrições.

 

Resumo: O conceito de inferno serve, fundamentalmente, como um mecanismo teológico, social e psicológico para organizar comportamentos, explicar a existência do mal e oferecer uma visão de justiça final. Embora sua representação física de fogo e tormento seja muitas vezes literária (como na obra de Dante Alighieri), o conceito cumpre diversas funções principais: Justiça e Retribuição Final pois o inferno funciona como o destino final para o mal, punindo aqueles que cometeram injustiças e rejeitaram a moralidade divina, garantindo que o mal não triunfe no final; Controle Social e Moral: Historicamente, o medo do castigo eterno tem sido usado como ferramenta para coagir comportamentos e promover a adesão aos ensinamentos religiosos; Separação de Deus (Sentido Espiritual): Mais do que um lugar físico de fogo, muitas teologias modernas descrevem o inferno como a ausência total da presença divina, o que é interpretado como o sofrimento máximo da alma; Definição de Identidade e Crença: Serve para definir o que é "pecado" e, por contraste, valorizar o "céu" ou a "salvação". A ideia de salvação exclusiva frequentemente depende da existência de um local de condenação; Significado Simbólico: Originalmente, termos como Sheol ou Hades (frequentemente traduzidos como inferno) referiam-se apenas à sepultura ou ao local de descanso dos mortos. A ideia de "Geena" (usada por Jesus) referia-se a um local de lixo queimando fora de Jerusalém, simbolizando indignidade e destruição. Em resumo, o conceito serve para estabelecer fronteiras morais, oferecendo um sentido de ordem cósmica onde más ações têm consequências eternas, além de atuar como um aviso sobre a rejeição de Deus. É um conceito presente em diferentes religiões, mitologias e filosofias, representando a morada dos mortos indistintamente, segundo alguns, ou o lugar de condenação e grande sofrimento das pessoas más, segundo outros.

Palavras-chave: Teologia. Direito teológico. Inferno. Religiões. Simbolismo.

 

 

 

A descrição do inferno evoluiu drasticamente ao longo da história, passando de um local de repouso sombrio para os mortos a um lugar de punição eterna com chamas e tortura, servindo muitas vezes como ferramenta de controle social e moral.

Eis uma cronologia dessa evolução:

Antiguidade (Pré-Bíblica): As primeiras civilizações (como a mesopotâmica) e tradições orais imaginavam o pós-vida como um lugar obscuro e subterrâneo onde as almas residiam, nem sempre associado a punição, mas a um estado de "não-vida".

Antiguidade Clássica (Gregos e Romanos): A mitologia grega descrevia o submundo (Hades) governado por Hades e guardado por Cérbero, com áreas distintas para os justos (Campos Elísios) e os injustos (Tártaro), este último um lugar de tormento. Platão também discutia o castigo pós-morte.

Antigo Testamento (Sheol): O conceito hebraico de Sheol era a morada dos mortos, um local de repouso silencioso para todos (justos e ímpios), sem a conotação de tortura de fogo eterna.

Novo Testamento (Ades e Geena): Jesus e as escrituras usaram termos como Ades (submundo grego) e Geena (uma referência ao Vale de Hinom, um lixão ardente fora de Jerusalém) para ilustrar consequências graves, isolamento e a ira divina. Descrições como "fogo que nunca se apaga" e "pranto e ranger de dentes" começam a moldar a visão de tormento.

Idade Média (Dante Alighieri e o Inferno Teológico): Com o tempo, a tradição cristã sistematizou o inferno como um lugar de punição eterna. O Concílio de Latrão (1215) oficializou o medo do inferno.

Em 1308, Dante Alighieri, em "A Divina Comédia" , consolidou a imagem popular do inferno com nove círculos concêntricos, onde a tortura é proporcional ao pecado.

Renascimento e Era Moderna: Com o avanço do conhecimento e as mudanças culturais, as representações do inferno na arte deixaram de ser apenas grotescas, passando a incluir elementos do cotidiano, como na obra "O Jardim das Delícias Terrenas" de Hieronymus Bosch.

Era Contemporânea: Hoje, muitas vertentes teológicas interpretam o inferno mais como um "estado mental" de separação de Deus ou um "aniquilacionismo" (fim da existência) em vez de um lugar físico de tortura eterna com fogo.

Enfim, as visões são, em resumo:

Fogo Literal: O tormento eterno.

Separação: A exclusão da presença de Deus.

Aniquilacionismo: A destruição final dos ímpios

A concepção do inferno é uma constante em todas as civilizações, desde os textos mais antigos da humanidade, que estão ligados às primeiras ideias religiosas, até os escritos contemporâneos de pensadores ateus.

Seja como um lugar sombrio no além ou uma condição de angústia existencial experimentada neste mundo, o inferno é um conceito versátil, sujeito a adaptações de acordo com os diferentes tipos de sociedade.

E, é para investigar o percurso do inferno ao longo das civilizações que nasce a História do inferno (Editora Unesp, Trad.: Fernando Santos), do historiador francês Georges Minois, lançamento da Editora Unesp que se soma à série de seus trabalhos publicados no Brasil.

As representações do inferno em “A Divina Comédia”, poema de Dante Alighieri, e no longa-metragem “Blade Runner”, dirigido por Ridley Scott. Também discute a atualização da imagem do inferno ao longo da história, que vai de uma possibilidade ameaçadora após a morte a um lugar relacionado aos desastres da vida cotidiana.

Chamada de arte sacra, as pinturas com temas religiosos eram, em grande parte, encomendadas para decorar e ilustrar passagens bíblicas nos forros e paredes das igrejas.

Nesse sentido, cogitar de arte sacra, é falar de toda a história cristã, já que diversos artistas em épocas diferentes, usaram a bíblia para se inspirar e retratar acontecimentos importantes de sua narrativa.

Foi no ano de 311 d. C que o imperador Constantino reuniu em uma só força Estado e Igreja e, a partir de então, a relação entre arte e religião também se estreitou.

Com a unificação, passou-se a pensar também em como decorar e onde seriam os lugares de culto. Mas seria correto colocar imagens e esculturas dentro dos templos já que profetas, na bíblia, julgavam incorreto adorar a imagens?

A adoração de imagens é um dos principais pontos de divergência entre a igreja católica e a evangélica, ambas cristãs e baseadas na bíblia. Os evangélicos não cultuam imagens, enquanto os católicos defendem que as imagens são, sobretudo, uma representação de um santo, mas não o santo em si, portanto, não seria ela um ídolo.

Essa definição conceitual permitiu que a igreja começasse a decorar seus templos com pinturas e esculturas.

Já no final do século VI, o Papa Gregório Magno, passa a defender a arte como forma de ensinar os fiéis. Ele levava em conta que muitas pessoas não sabiam ler, nesse sentido, as imagens ajudariam a passar a mensagem.

Nas suas palavras: “A pintura pode fazer pelos analfabetos o que a escrita faz pelos que sabem ler”. Foi a partir de então que as passagens relatadas na bíblia, começaram a ser apresentadas em pinturas.

Satã, Demônio, Diabo, Satanás e Anjo Caído são alguns dos nomes usados para identificar o responsável pelo inferno e pelas punições. Na história da igreja, o inferno é um local de sofrimento eterno para aqueles que cometeram em vida algum pecado mortal.

Mas o momento anterior ao inferno, enriquece ainda mais o enredo, que é o dia do juízo final, na qual Deus, na posição de um juiz implacável, define quem vai para o céu ou para o inferno levando em consideração a forma como cada um agiu na terra.

É possível notar a importância desse momento em obras como “O Juízo Final” de Fra Angélico, no detalhe dos afrescos de Giotto di Bondone na Capela Scrovegni, ou “No Último Julgamento” de Michelangelo Buonarroti na Capela Sistina.

Deus no centro do tribunal, os humanos na parte inferior esquerda, os santos na parte superior ao lado de Deus, e o inferno, no canto inferior direito. Nas três imagens, o julgamento já começou e os condenados estão a caminho do sofrimento eterno.

A arte contemporânea também bebe desta fonte inesgotável de símbolos e significados tão ricos e importantes para a história da humanidade. Um exemplo disso, foi a exposição com o tema “A Divina Comédia – Céu, Inferno, purgatório”, que aconteceu em 2014 no MMK Frankfurt, em que artistas de diversos países da África debateram, a partir de suas obras, a questão da vida após a morte.

O inferno é um lugar ou estado de sofrimento eterno e separação de Deus, reservado para aqueles que rejeitam a salvação, segundo várias tradições religiosas.

Na Bíblia, ele é descrito como um destino de punição para os que vivem em pecado, e Jesus se refere a ele como o "fogo eterno" destinado aos que recusam o arrependimento.

A palavra “inferno” vem do latim infernum, que significa "o que está abaixo", e remonta à ideia de um mundo subterrâneo onde as almas residem.

Vejamos os diferentes conceitos de infernos pelas religiões:

Conceito de inferno para o catolicismo

O inferno, segundo a visão católica, representa a separação definitiva de Deus, onde a pessoa opta, por livre escolha, por rejeitar a presença divina e o amor que Ele oferece.

No ensinamento católico, o inferno não é uma simples punição física ou um lugar de tormentos; é, antes de tudo, um estado de privação de Deus. Isso se alinha com a ideia de que o inferno é consequência da liberdade humana em relação ao amor divino, e não uma imposição punitiva.

O catecismo da Igreja Católica explica que o inferno é reservado para aqueles que, até o final de suas vidas, permanecem em rejeição voluntária e definitiva de Deus.

Esse estado final de afastamento é compreendido como resultado do pecado mortal, quando a pessoa, conscientemente, escolhe contra os ensinamentos divinos e rejeita a comunhão com Deus.

Essa separação é descrita como uma ausência de felicidade eterna, e o ser humano perde a chance de encontrar a plena realização junto ao Criador.

O Papa Francisco também reitera a compreensão do inferno não como um lugar punitivo no sentido literal, mas como um estado de isolamento voluntário de Deus. Ele afirmava que a doutrina do inferno deve ser compreendida à luz da misericórdia divina, sendo uma realidade que surge da própria liberdade humana.

Segundo o Papa, a doutrina católica sobre o inferno reflete o respeito de Deus pela liberdade humana e pela escolha de cada pessoa em aceitar ou rejeitar Sua presença.

A teologia católica, representada por teólogos como o Padre Athos Turchi, aborda o inferno como um mistério associado à justiça e à misericórdia de Deus.

Ele explicava que Deus, sendo infinitamente justo e misericordioso, oferece continuamente oportunidades de arrependimento e conversão. O inferno, portanto, é o resultado de uma decisão definitiva, sem a qual a liberdade humana seria anulada.

Conceito de inferno para o protestantismo

A visão cristã protestante do inferno é amplamente caracterizada como um estado eterno de separação de Deus, destinado aos ímpios, ou seja, aqueles que rejeitam a salvação por meio de Jesus Cristo.

Para os protestantes, o inferno não é uma mera condição de sofrimento físico, mas uma existência onde se experimenta a completa ausência da presença de Deus e de qualquer possibilidade de bem-aventurança.

Essa concepção está fundamentada no princípio de que o ser humano é dotado de liberdade para escolher seu destino eterno e, ao rejeitar Cristo e viver em pecado, faz uma escolha consciente que leva à condenação.

Diferente do catolicismo, que prevê a existência de um purgatório onde as almas podem ser purificadas antes de alcançar a salvação, a doutrina protestante não admite uma segunda chance após a morte; o destino eterno, seja o céu ou o inferno, é imediatamente determinado.

Essa compreensão remonta aos primórdios da Reforma Protestante, quando figuras como Martinho Lutero e João Calvino rejeitaram práticas e doutrinas católicas, incluindo o purgatório, que, segundo eles, não encontravam respaldo bíblico.

Para Calvino, em particular, a ideia do inferno era um aspecto central da justiça divina: os ímpios que não aceitassem o sacrifício de Cristo estariam destinados ao “fogo eterno” e à “morte eterna com o diabo”, sem qualquer possibilidade de salvação após o juízo final.

Ele defendia que, no juízo, os justos seriam glorificados e reunidos com Deus, enquanto os ímpios estariam irrevogavelmente condenados às trevas eternas.

Essa perspectiva demonstra a visão calvinista da predestinação e da soberania divina, na qual Deus já determinou o destino final de cada indivíduo, ainda que esse destino seja inevitavelmente revelado apenas após a morte.

Na tradição batista, por exemplo, que se inspirou na doutrina da predestinação calvinista, o inferno é visto como uma consequência da escolha individual e de uma vida vivida em pecado.

A Primeira Confissão de Fé Batista de 1646 reforça essa ideia ao declarar que “Deus preordenou alguns homens para a vida eterna através de Jesus Cristo, para louvor e glória de sua graça, deixando os restantes em seus pecados, para julgamento”.

Essa afirmação aponta para a ideia de que o inferno é uma punição definitiva, reservada para aqueles que, mesmo diante do sacrifício de Cristo, escolheram o pecado.

Outros grupos protestantes, como os seguidores de Jacob Armínio, enfatizaram o livre-arbítrio humano, defendendo que cada pessoa pode escolher entre a salvação e a perdição.

No entanto, ainda assim, o inferno é visto como uma consequência do pecado e um estado sem retorno, onde não há intercessão pelos mortos nem possibilidade de redenção após a morte.

Conceito de inferno para o anglicanismo

A visão anglicana também seguiu a tendência de rejeitar o purgatório e outros ritos católicos de intercessão. “O Livro de Oração Comum”, publicado pela Igreja da Inglaterra em 1552, refletiu essa nova perspectiva ao condenar missas e orações pelos falecidos, prática que foi omitida e considerada inapropriada na liturgia anglicana.

Para os anglicanos, o inferno era considerado o destino eterno dos que morressem sem aceitar a fé, em consonância com a visão escatológica protestante de que o juízo final será o momento em que todos terão seu destino eterno.

 

 

Conceito de inferno para o islamismo

No islamismo, o inferno é chamado "Jahannam" e é descrito no Alcorão como um lugar de fogo ardente e sofrimento, reservado para aqueles que negaram a verdade e desobedeceram a Alá.

Jahannam é dividido em diferentes níveis, e cada um deles abriga pecadores específicos de acordo com a gravidade de suas faltas.

No entanto, o islã oferece a possibilidade de misericórdia divina, sugerindo que algumas almas podem eventualmente ser liberadas do inferno.

Para os muçulmanos, o inferno não é apenas uma punição; ele também serve como um lembrete da justiça e da soberania de Deus, enfatizando a importância de uma vida reta e da obediência aos preceitos islâmicos.

 

Conceito de inferno para judaísmo

No judaísmo , o conceito de inferno é menos explícito e mais diversificado. Embora a tradição judaica reconheça um lugar chamado "Gehena", ele não é necessariamente um local de punição eterna.

Para os judeus, Gehena é visto como um estágio intermediário, onde as almas passam por um período de purificação antes de alcançar o mundo vindouro.

Esse processo de purificação não é eterno; geralmente, acredita-se que dure até doze meses, após os quais a alma é considerada purificada e capaz de se unir a Deus. A visão judaica do inferno destaca a importância do arrependimento e da correção moral, permitindo que até mesmo os pecadores encontrem redenção.

 

Conceito de inferno para o espiritismo

No espiritismo, o inferno não é um lugar físico de tormento eterno, mas sim um estado espiritual de sofrimento resultante das ações do próprio indivíduo.

De acordo com os ensinamentos de Allan Kardec, as almas sofrem de acordo com a sua condição moral e espiritual, experimentando os tormentos derivados de sua própria consciência e da ausência de evolução espiritual. Esse sofrimento, no entanto, não é permanente.

O espiritismo acredita na reencarnação, o que permite que a alma busque melhorias e purificação ao longo de várias vidas. Dessa forma, o inferno no espiritismo é uma condição transitória que reflete o processo de aprendizado e progresso espiritual.

 

Conceito de inferno para o budismo

O budismo, apesar de não ter um conceito de inferno eterno, possui uma ideia de reinos de sofrimento, onde as almas impuras experienciam consequências negativas de suas ações.

Esses reinos são temporários, e a duração do sofrimento depende do carma acumulado pela pessoa.

No budismo, a reencarnação é um ciclo contínuo, e os seres têm a oportunidade de purificar seu carma ao longo de várias existências.

Assim, o inferno budista é um estágio de aprendizado e reflexão, não uma punição permanente. Esse ciclo de renascimentos e carma busca, em última instância, a iluminação e a libertação do sofrimento.

Fé Bahá'í: O inferno não é um lugar físico, mas sim um estado de distância espiritual de Deus, representando a privação da graça divina.

Mitologia Maia (Xibalbá): Considerado um submundo de provações, geralmente acessado através de cenotes (poços de água).

A concepção de "inferno", como um local de punição eterna com fogo e sofrimento para pecadores (típica do cristianismo), não existia na maioria das cosmologias dos povos indígenas brasileiros antes da colonização europeia.

A visão de pós-morte indígena era mais complexa e diversa, focada na passagem para outros planos espirituais, e a noção de um "inferno" foi introduzida pelos jesuítas para demonizar práticas nativas.

Eis os pontos principais sobre o tema:

A Invenção do "Inferno" na América: Jesuítas e missionários europeus, ao chegarem, frequentemente interpretavam práticas culturais indígenas — como a antropofagia (canibalismo ritual) — como servidão ao diabo.

Eles projetavam a figura cristã do diabo sobre entidades espirituais indígenas que causavam danos, transformando crenças locais em uma "América diabólica".

Encantarias e Passagem: Para muitos povos, a morte é vista como uma passagem para o "reino sagrado" ou "encantarias", onde os espíritos dos ancestrais residem, e não um lugar de tortura.

Diferença Cultural: Enquanto a visão cristã tradicional foca no céu ou inferno baseados em mérito, muitas tradições nativas compreendem a morte como um plano de existência onde o morto continua a proteger a floresta ou a comunidade, sendo muitas vezes um lugar de descanso, não de punição.

Inferno na Terra (A Colonização): Muitos relatos atuais interpretam que o verdadeiro "inferno" vivenciado pelos povos indígenas foi a própria colonização, marcada pela tortura, violência, escravidão e perseguição, como ocorreu com os povos Krenak e Maxakali. A destruição de seu modo de vida, a proibição de línguas nativas e a perda de território são descritas como um verdadeiro inferno imposto pelos invasores (o "mundo dos brancos").

Em resumo, o conceito de inferno foi uma ferramenta de dominação cultural e religiosa trazida pelos colonizadores, que não correspondia à visão de mundo nativa sobre a vida após a morte.

Inferno na mitologia grega

Na mitologia grega, o Hades, como mencionado, era o reino dos mortos. Governado pelo deus Hades, esse lugar abrigava não apenas os mortais comuns, mas também aqueles que haviam cometido crimes graves e que, por isso, recebiam punições eternas.

Algumas figuras, como Tântalo e Sísifo , foram condenadas a tormentos perpétuos devido aos seus pecados.

O rio Estige, uma das fronteiras de Hades, era um símbolo de separação entre o mundo dos vivos e o dos mortos. A mitologia grega, assim, introduz a ideia de uma punição eterna, embora limitada a certos indivíduos, e destaca a crença na retribuição divina como uma lição moral.

Inferno na mitologia chinesa

Na mitologia chinesa, o conceito de inferno é chamado "Diyu" e é um reino governado por Yama, o rei dos mortos. Diyu é descrito como um lugar de sofrimento, dividido em várias cortes ou camadas, onde as almas dos pecadores são julgadas e punidas de acordo com seus atos em vida.

Cada corte tem um tipo específico de punição e reflete os princípios de justiça e retribuição moral da cultura chinesa.

Diferente das ideias ocidentais, o inferno chinês é visto como um estágio temporário de punição e purificação, após o qual a alma pode renascer ou alcançar um estágio de paz. Essa visão enfatiza a importância do equilíbrio e da retidão, além da crença no ciclo de renascimento e redenção.

Inferno na mitologia egípcia

Na mitologia egípcia, o conceito de inferno está associado ao submundo governado por Osíris, o deus dos mortos. Para os egípcios, a alma passava por um julgamento no "Salão de Maat", onde seu coração era pesado contra uma pluma, representando a justiça e a verdade.

Se o coração fosse mais leve que a pluma, a alma seria admitida no paraíso. Caso contrário, seria condenada a um destino sombrio, onde sofreria por suas más ações.

Essa visão reflete a importância do julgamento moral e do equilíbrio espiritual. O inferno egípcio, portanto, era uma consequência da vida em desarmonia com os valores de verdade e justiça.

A palavra "inferno" tem sua origem no latim infernum ou inferus, que significam "o que está abaixo" ou "o mundo inferior". Essas palavras remetem a uma noção de profundidade ou de local subterrâneo, associando o inferno a uma região distante da superfície, onde se encontram os vivos.

Na mitologia e na religião, esse lugar é geralmente compreendido como a morada dos mortos ou dos espíritos, especialmente daqueles que não foram destinados a um destino de bem-aventurança.

Nas culturas antigas, como a grega e a romana, essa ideia do mundo subterrâneo ou inferior estava presente na crença de um reino dos mortos, como o Hades na Grécia e o Orco em Roma.

Essas regiões eram imaginadas como lugares onde as almas passavam uma eternidade sombria, e o inferno foi, aos poucos, sendo associado a essa visão de um local de sofrimento e retribuição.

Com a difusão do cristianismo, o conceito de inferno ganhou novos significados. Tornou-se o local de punição eterna para os pecadores, onde aqueles que rejeitam a fé cristã e cometem pecados graves são enviados após o julgamento final.

O inferno, assim, deixou de ser apenas uma simples morada dos mortos e passou a representar o lugar de condenação e afastamento total da presença de Deus, sendo descrito como um ambiente de sofrimento e tormento eterno.

Afinal, quem criou o inferno?

De acordo com a visão bíblica, o inferno foi criado por Deus. A Bíblia menciona que o inferno, ou o lago de fogo, foi preparado para o diabo e seus anjos. Essa ideia é encontrada em Mateus 25:41, onde Jesus diz: "Então dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos."

A criação do inferno é entendida como parte do plano de Deus para lidar com o pecado e a rebelião. O inferno serve como um lugar de punição para aqueles que rejeitam a Deus e escolhem viver em desobediência a Seus mandamentos.

Além disso, a Bíblia ensina que Deus é justo e que o inferno é uma expressão de Sua justiça, onde o mal e a iniquidade são finalmente julgados.

Portanto, embora o inferno seja um lugar de punição, sua criação está ligada à natureza justa de Deus e à necessidade de lidar com o pecado de maneira adequada.

Quem vai para o inferno?

De acordo com a Bíblia, várias categorias de pessoas são mencionadas como destinadas ao inferno, ou ao lago de fogo, como resultado de suas escolhas e ações.

Eis algumas das principais referências:

Os ímpios: aqueles que vivem em desobediência a Deus e não se arrependem de seus pecados. Em Mateus 25:41, Jesus menciona que os "malditos" serão enviados para o fogo eterno.

Os que rejeitam a salvação: aqueles que não aceitam a oferta de salvação através de Jesus Cristo. Em João 3:18, é dito que "quem não crê já está condenado".

Os que praticam a iniquidade: em Mateus 7:23, Jesus diz: "Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade." Isso se refere a pessoas que, apesar de suas aparências religiosas, não têm um relacionamento verdadeiro com Deus.

Os que não se arrependem: em Apocalipse 21:8, é mencionado que os tímidos, incrédulos, abomináveis, homicidas, fornicadores, feiticeiros, idólatras e mentirosos terão sua parte no lago que arde com fogo e enxofre.

Os que seguem o diabo e seus ensinamentos: em Apocalipse 20:10, o diabo, que engana as pessoas, é lançado no lago de fogo, e aqueles que o seguem também compartilham desse destino.

Os que não têm seus nomes escritos no Livro da Vida: em Apocalipse 20:15, é dito que "se alguém não foi achado escrito no Livro da Vida, esse foi lançado no lago de fogo."

Hades e o inferno

Na tradição greco-romana, o Hades era o reino dos mortos, uma morada subterrânea aonde as almas eram enviadas após a morte, independentemente de suas virtudes ou pecados.

Governado pelo deus Hades, esse local era uma extensão da vida terrena, apesar de sua natureza sombria e isolada.

Embora o Hades não fosse visto inicialmente como um local de punição eterna, sua interpretação influenciou o conceito de inferno nas tradições cristãs posteriores.

O conceito de "inferno contemporâneo" evoluiu de uma representação teológica de um lugar físico de tortura eterna para uma interpretação psicológica, existencial e social, frequentemente situada na vida terrena.

Enquanto a visão tradicional de fogo e enxofre é vista como uma construção histórica para controle social, o inferno na atualidade é descrito como a vivência humana da ausência de sentido, a opressão social e o sofrimento psíquico.

Principais aspectos do inferno contemporâneo:

Inferno Existencial e Psicológico: É caracterizado por angústias, depressão, solidão, falta de esperança e a sensação de "ausência de Deus" ou de sentido na vida.

"O Inferno são os Outros" (Sartre) : Esta perspectiva filosófica destaca que o inferno não é um local físico, mas a prisão que se vive através do julgamento alheio e da vulnerabilidade nas relações distorcidas.

Inferno Social e Terreno: Muitos pensadores contemporâneos associam o conceito de inferno às injustiças concretas da Terra, como a fome, a opressão, a violência, a burocracia desumanizante e o abandono.

Desconstrução do Mito: A teologia moderna e a história criticam a ideia de um inferno de tortura eterna como uma invenção greco-romana e medieval (Dante), preferindo interpretar termos como Geena e Sheol como símbolos de destruição ou sepultura, não de tormento consciente eterno.

Em resumo, o inferno contemporâneo é uma condição vivida de angústia interna ou injustiça externa, focada no presente, e não uma punição pós-morte.

A História do Inferno é dividida e apresentada em partes: os infernos das civilizações orais, das grandes religiões orientais antigas, do paganismo clássico (grego) e do Antigo e do Novo Testamento.

Por fim, o autor elabora discussões a respeito das instrumentalizações e alterações na concepção de inferno cristão da Idade Média , sem afirmar que tal visão (ou visões) permaneceu intacta durante todo o período, até a era contemporânea.

Minois deixa claro que é problemático datar, com precisão, o nascimento da ideia de inferno, de um reduto dos excluídos, subversivos e dos perversos. Todavia, o autor afirma, também, que não se pode assegurar que tal ideia não tenha perseguido a humanidade desde suas origens mais remotas.

O ponto de síntese abordado por Minois consolida-se a partir do inferno filosófico (existencial) e poético (político) dos povos pagãos clássicos, passando pelas formulações infernais de Homero, Lucrécio e Platão, até Virgílio.

Para o autor, os gregos foram fundamentais para estabelecer um contato diferente dos homens com as visões e experiências infernais. Este ainda aponta que as premonições gregas sobre o fim dos tempos e sobre o pensamento a respeito do inferno divergem de pensador para outro.

Porém, o mesmo afirma que: poetas ou filosóficos, os infernos gregos são, em última análise, muito pouco religiosos; [...] eles (infernos gregos) consideram todas as possibilidades e estão na origem de todos os conceitos de inferno posteriores, inclusive os mais modernos, como o inferno existencial (2023).

Ou seja, o inferno existencial grego, presente nas diferentes abordagens estudadas, que propõe a possibilidade de o inferno, a ideia deste, estar relacionado à condição angustiosa da existência humana em contato com o inferno hebraico, individualizado, tardio e instrumentalizado, faria surgir a imagem de inferno cristão, dogmático, composto pelo antagonismo entre os eleitos, que serão salvos, e pelo sofrimento eterno daqueles que transgrediram as leis sagradas.

É no nível popular, primeiramente, que a concepção cristã de inferno se desenvolve e a reflexão oficial só apareceria em um segundo momento, com os Pais da Igreja, considerando os intensos debates articulados sobre a diferença de opiniões a respeito do tema.

Afinal, quando se lê o Novo Testamento, a raridade do tema inferno é evidente, aparecendo, primeiramente, nas epístolas de Paulo, entre os anos 50 e 63 d.C. De todo modo, Minois aponta que o inferno não ocupava muito espaço no início da propagação do cristianismo, sendo somente um vago pressentimento, uma ameaça hipotética.

O texto mostra a possibilidade de identificar rupturas e continuidades sobre as ideias religiosas e morais sob a égide de uma ótica distinta, a ideia de inferno .

Entretanto, a impressão final é que tal alternativa ainda possui fraquezas, como a hegemonia do pensamento ocidental, por exemplo. Todavia, e assim como no exemplo deixado pelo texto, a pergunta inicial e final para que tais fraquezas talvez sejam superadas possa ser a mais simples: “por quê?”.

Enquanto religiões abraâmicas (Cristianismo/Islã) tendem a focar na eternidade ou longa duração da punição, religiões orientais (Budismo) e visões espiritualistas encaram o submundo como um local transitório e corretivo.

Embora presente na tradição cristã como local de punição para pecadores, o conceito de um submundo de mortos é anterior ao cristianismo e permeia diversas culturas, focando-se inicialmente em uma morada escura, e não necessariamente em um lugar de tortura com fogo.

 

 

Referências

FERREIRA, Franklin; MYATT, Alan. Teologia sistemática. São Paulo: Edições Vida Nova, 2008.

GRUDEM, Wayne. Teologia sistemática ao alcance de todos. Tradução de Maurício Bezerra Santos Silva. São Paulo: Thomas Nelson Brasil, 2019.

HORTON, Stanley. Teologia sistemática. Rio de Janeiro: CPAD, 1997.

MINOIS, Georges. História do Inferno. Tradução de Fernando Santos. 1ª ed. São Paulo: Editora Unesp, 2023.

 

 

GiseleLeite
Enviado por GiseleLeite em 29/05/2026
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