"O conhecimento é o mais potente dos afetos: somente ele é capaz de induzir o ser humano a modificar sua realidade." Friedrich Nietzsche (1844?1900).
 

Professora Gisele Leite

Diálogos jurídicos & poéticos

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A maternidade segundo a Psicanálise.

A maternidade segundo a Psicanálise.

 

 

 

A psicanálise entende a maternidade não como um instinto natural, mas como uma construção psíquica, social e histórica complexa, marcada por ambivalências, desejos e fantasias. Ela envolve a reorganização do psiquismo da mulher (puerpério), a constituição do sujeito da criança e a função de amparo, com destaque para conceitos como "preocupação materna primária" de Winnicott.

 

Por muito tempo a maternidade foi considerada um fato puramente biológico, fixado literal e simbolicamente nos limites do domínio privado e emocional. Os discursos religiosos, médicos e psicológicos que descreviam e sobretudo prescreviam esses papéis foram bastante danosos.

 

Hoje, debatemos a função e status da maternidade no espaço público, e sua complexidade aumenta à medida que o sentido de maternidade se diversifica, uma vez que à mãe tradicional vem juntar-se a mãe adotiva, a mãe lésbica, o homossexual que materna, a mãe de aluguel, a mãe adolescente, a mãe solteira, a mãe prisioneira, a mãe pobre, negra, a mãe genética etc.

 

Embora consciente da diversidade de circunstâncias materiais e culturais

que remetem à análise de significados construídos no plano individual e local, acreditamos que existem algumas preocupações em comum, apesar das diferenças.

 

Além disto, a problemática do corpo, a qual ainda é uma questão central dos estudos feministas, está inevitavelmente ligada à figura da mulher enquanto mãe. A maternidade torna difícil a simples rejeição da questão biológica; isto nos força a pensar sobre a importância do corpo e os riscos das definições essencialistas formuladas não só pelo homem, mas também por algumas teóricas do feminismo.

 

Estudos feministas mais antigos colocavam a problemática do corpo em conflito potencial com os interesses da mulher. Desde os anos 1970, vários estudos foram desenvolvidos a partir de uma perspectiva feminista, com o objetivo de historicizar a problemática da reprodução e da biologia feminina, e hoje, pode-se afirmar com segurança que a reprodução não é um fato biológico atemporal – a biologia já não pretende existir fora da história; ao contrário, observa-se um uso ideológico da biologia. Em nossa cultura ocidental, as fronteiras entre natureza e cultura são fortemente marcadas, o que tem estreita relação com a dominação e exploração da mulher/mãe.

 

Em seu livro "Mother without children. Contemporary fiction and the crisis of motherhood" (1997), Elaine Tuttle identifica três fases no posicionamento das feministas com relação à problemática da maternidade: a primeira, com o feminismo pós-guerra (com a seminal – ou ‘ovular’ – influência de Simone De Beauvoir e Betty Friedan, principalmente), que negligenciou a importância da maternidade até final dos anos 1960.

 

O desconforto do movimento feminista com a vulnerabilidade e falta de controle que são atribuídos à – e com certeza são elementos da – maternidade fez com que as feministas eliminassem essa identificação com a biologia, uma reação compreensível à associação patriarcal mulher corpo.

 

Na segunda fase, iniciada a partir dos anos 1970, busca-se não apenas conscientizar a mulher sobre as cruéis distorções das formulações patriarcais sobre a maternidade, mas também despertá-la para o enorme potencial positivo dessa condição. São riquíssimas as produções teóricas nesta fase, com estudos nas áreas de psicanálise, sociologia, história, religião, antropologia, além do resgate de relatos de experiências individuais incorporados nessa nova textualidade sobre tão complexa temática.

 

Destacamos nesse período as contribuições de Adrienne Rich, Nancy Chorodow, Dorothy Dinnerstein e das teóricas francesas Helene Cixous, Luce Irigaray e Julia Kristeva; essas três últimas, trabalhando sobretudo no sentido de resgatar, reinterpretar e revalorizar a diferença – com a vitalidade que eu caracterizaria como típica de um processo de “retorno do reprimido”. Entretanto, concordamos com a análise de várias feministas que essas teóricas (defensoras do chamado “feminismo da diferença”), ao buscarem cultivar conexões e arqueologias ginocêntricas, negligenciaram o perigo de satisfazer a imperativos essencialistas conservadores.

 

O que é ser mãe? O que significa “maternal”? Não podemos imaginar que há respostas definitivas para essa complexa indagação, formulada a partir de variadas perspectivas. Acredito que o feminismo começa a escutar as histórias que as mães têm para contar; acredito também na importância da ressignificação da mãe/do maternal, para que possamos nos livrar de sacralizações e fantasias que nós mulheres naturalizamos por tanto tempo.

 

Enfim, estudamos alguns discursos filosóficos, mitológicos e antropológicos sobre a maternidade. Observamos que as narrativas mitológicas genesíacas usurparam da mulher o poder da criação; essas narrativas foram consolidadas pela racionalidade do discurso filosófico, do qual Aristóteles é um brilhante representante, com seu conceito de fêmea como “macho mutilado” que fornece apenas a matéria, cabendo ao homem fornecer o princípio da alma na formação da vida.

 

A partir dos anos 1970, estudos feministas têm analisado a maternidade na literatura; pesquisando na British Library sob este tema, identificamos, em 2003, quinhentos e treze entradas. A produção ficcional tem articulado a temática da gestação, parto e maternação, a partir da perspectiva da mulher – algumas vezes de forma idealizada, ou sob formas que perpetuam a equação mulher/mãe, mas apresentando também outras construções discursivas que apontam para novas imagens da mãe.

 

Em "The Mother Knot" (1987), Jane Lazarre nos relata sua experiência pessoal de maternidade, seus contraditórios sentimentos de prazer e dor, amor e raiva, excitação e tédio; segundo ela, essas ambivalências ameaçaram sua sanidade mental, pois ela sentia que sua experiência de maternidade estava enormemente distanciada das definições que ela havia naturalizado como mulher. Essas obras evidenciam um processo de busca de identidade com nossas mães que, mesmo ocorrendo na ordem Simbólica, fálica, pode trazer elementos para subverter essa ordem.

 

Sigmund Freud teve uma visão complexa sobre a maternidade, que envolveu tanto aspectos biológicos quanto psicológicos. Ele acreditava que a maternidade não era apenas um ato físico, mas também uma experiência que molda a identidade da mulher. Freud descreveu a individuação, um processo pelo qual a criança se separa da mãe para construir sua própria identidade, e a maternidade é vista como uma parte essencial desse processo.

 

Ele também enfatizou a importância da figura paterna na formação da identidade, sugerindo que a ausência ou a inconsistência do pai pode levar a dificuldades emocionais na vida adulta. Além disso, Freud discutiu a relação entre a sexualidade feminina e a maternidade, destacando a complexidade do desejo feminino pela maternidade e a necessidade de autonomia na vida da mãe.

GiseleLeite
Enviado por GiseleLeite em 10/05/2026
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