"O conhecimento é o mais potente dos afetos: somente ele é capaz de induzir o ser humano a modificar sua realidade." Friedrich Nietzsche (1844?1900).
 

Professora Gisele Leite

Diálogos jurídicos & poéticos

Textos

Carta aflita

Carta aflita

 

 

Essa é carta mais difícil que precisei escrever. Você é pai e não aceita, de modo algum, o filho que fora recentemente diagnosticado como autista. Em razão do diagnóstico, veja decidiu-se pelo divórcio. De fato, paga pensão para o filho e para ex-esposa. Juntou laudo médico que lhe diagnosticou com neurose, com CID-10 no grupo F40. Na audiência você chorou e afirmou que sofre muito por conta do transtorno do filho e, que arcará financeiramente com todos os custos e gastos, mas em razão de sua doença não consegue nem sequer visitar o filho. Esse seu abandono ao filho constitui abandono afetivo e moral e pode acarretar compensação por danos morais. A pobre criança nada entende, pergunta pelo pai, ela sente sua falta. Negou-se ter a guarda compartilhada de forma que guarda é unilateral do filho. E, já se explicou judicialmente a ausência de visitação por conta de sua neurose. É manifesta a vergonha que você tem da criança. Ele é um ser humano, tem direito à dignidade e ao convívio com o pai. E você, portanto, sua neurose não consegue entender isso.

Sinceramente, senhor, deveria procurar terapia. Não existe apenas um autista no mundo. E, afora isso, há outros transtornos, doenças e deficiências e, devemos aprender a entender e respeitar essas pessoas. Pais de autistas têm direitos importantes garantidos por lei, incluindo acesso a tratamentos pelo SUS (fonoaudiologia, psicologia), BPC/LOAS (se a renda permitir), isenções fiscais (IPI, IPVA, IR), matrícula obrigatória em escolas regulares com acompanhante, jornada de trabalho reduzida (CLT/servidor público) e atendimento prioritário, visando a inclusão e o suporte para a família, sendo essencial buscar apoio jurídico para garantir esses benefícios. Até a lei acolhe e protege os autistas e seus pais.

Gostaria de lhe pedir, humildemente, que procurasse terapia seja via psicanálise pois é uma abordagem profunda, desenvolvida por Freud, focada em investigar conteúdos do inconsciente, sonhos e traumas passados, utilizando a associação livre (fala livre de julgamentos) para promover autoconhecimento e mudanças estruturais.

Por favor, compreenda que seu filho não escolheu deliberadamente ser autista, nem a mãe dele, nem ninguém. Não o culpe por conta do TEA, não o discrimine por isso também. Rogo que compreenda a essência humana da criança autista. E, ainda, rogo que tenha a humildade para fazer terapia e vencer, finalmente, a enorme muralha para você, para que possa ao menos, visitar seu filho. Coloco-me à sua disposição, no que eu puder lhe ajudar.

Agradeço sua atenção, atenciosamente.

 

 

GiseleLeite
Enviado por GiseleLeite em 10/04/2026
Copyright © 2026. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.


Comentários



Site do Escritor criado por Recanto das Letras
 
iDcionário Aulete

iDcionário Aulete