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![]() Novo IluminismoDizer que ideias podem mudar o mundo não é só uma aspiração retórica— é um fato decorrente da constituição física dos cérebros. Os pensadores iluministas suspeitavam que o pensamento podia consistir em padrões na matéria — compararam as ideias a impressões em cera, vibrações em uma corda ou ondas provocadas por um barco. Alguns, como Hobbes, propuseram que “raciocinar é simplesmente calcular”. Contudo, antes de os conceitos de informação e computação terem sido elucidados, era razoável um indivíduo acreditar em um dualismo mente-corpo e atribuir a vida mental a uma alma imaterial (do mesmo modo que, antes de o conceito de evolução ser elucidado, era razoável ser um criacionista e atribuir as complexas obras da natureza a um criador cósmico). Evidentemente, é natural duvidar que o seu celular “sabe” um número favorito, que o GPS “calcula” o melhor trajeto para voltar para casa e que o seu aspirador de pó automático “quer” limpar o assoalho. Porém, à medida que os sistemas de processamento de informação tornam-se mais complexos — à medida que suas representações do mundo tornam-se mais ricas, seus objetivos são organizados em hierarquias de subobjetivos dentro de subobjetivos, e suas ações para atingir os objetivos tornam-se mais diversificadas e menos previsíveis —, começa a parecer chauvinismo hominídeo insistir que eles não se sofisticam.
A inteligência humana continua a ser o referencial para o tipo artificial, e o que faz do Homo Sapiens uma espécie singular é o fato de que nossos ancestrais cultivaram cérebros maiores que coligiam mais informações sobre o mundo, raciocinavam a respeito delas de modos mais refinados e recorriam a uma maior variedade de ações para atingir seus objetivos. Eles se especializaram no nicho cognitivo, também chamado nicho cultural e nicho dos caçadores-coletores. Isso abrangia um conjunto de novas adaptações, entre elas a habilidade de manipular modelos mentais do mundo e prever o que aconteceria quando se tentassem coisas novas; a habilidade de cooperar com outros, que permitia a equipes realizarem o que seria impossível para um indivíduo sozinho; e a linguagem, que lhes permitia coordenar suas ações e contribuir com suas experiências para o reservatório de habilidades e normas que chamamos de cultura. Essas disposições permitiram aos primeiros hominídeos derrotar as defesas de uma grande variedade de plantas e animais e colher a recompensa em forma de energia, a qual, armazenada em seus cérebros cada vez maiores, ampliou seus conhecimentos e seu acesso a ainda mais energia. A energia canalizada pelo conhecimento é o elixir com o qual postergamos a entropia, e avanços na captação de energia são avanços no destino humano. A invenção da agricultura, por volta de 10 mil anos atrás, multiplicou a disponibilidade de calorias obtidas de plantas cultivadas e animais domésticos, liberou parte da população das tarefas de caçar e coletar e, por fim, deu às pessoas o luxo de escrever, pensar e acumular ideias. Como diria Bertold Brecht milênios mais tarde: primeiro a boia, depois a ética. Quando a Revolução Industrial liberou uma profusão de energia utilizável extraída do carvão, petróleo e água, desencadeou a Grande Saída da pobreza, da doença, da fome, do analfabetismo e da morte prematura, primeiro no Ocidente e, cada vez mais, no resto do mundo. O próximo salto no bem-estar humano — o fim da extrema pobreza e a disseminação da abundância, com todos os seus benefícios morais — dependerá de avanços tecnológicos que forneçam energia a um custo econômico e ambiental aceitável para o mundo todo. Entro, evo, info. Esses conceitos definem a narrativa do progresso humano: a tragédia em que nascemos e nossos meios para conseguir arduamente uma existência melhor. A primeira noção sábia que esses conceitos oferecem é: pode ser que ninguém tenha culpa por um infortúnio. Um grande avanço da Revolução Científica — talvez o maior — foi refutar a intuição de que o universo é impregnado de propósito. Na concepção primitiva, mas onipresente, tudo acontece por uma razão; por isso, quando ocorrem coisas ruins — acidentes, doença, fome, pobreza —, algum agente só pode ter desejado que elas acontecessem. Se uma pessoa pode ser considerada culpada pelo infortúnio, pode ser punida ou forçada a ressarcir prejuízos. Quando não é possível atribuir a culpa a nenhum indivíduo, pode-se culpar a minoria étnica ou religiosa mais próxima e linchá-la ou massacrá-la em um pogrom. Se nenhum mortal puder ser acusado de forma plausível, sempre dá para procurar por bruxas e queimá-las ou afogá-las. Se isso falhar, invocam-se deuses sádicos, que não podem ser punidos, mas podem ser aplacados com orações e sacrifícios. E há também forças incorpóreas como o carma, o destino, mensagens espirituais, justiça cósmica e outras garantias da instituição de que “tudo o que acontece tem uma razão”. A cognição humana vem com duas características que lhe dão os meios para transcender suas limitações. A primeira é a abstração. As pessoas podem, por associação, usar seu conceito de um objeto em dado lugar para conceituar uma entidade em uma circunstância —por exemplo, quando aplicamos o padrão de O cavalo foi do lago ao topo da montanha a O menino foi da euforia à tristeza. Podem usar por associação o conceito de um agente exercendo força física para conceituar outros tipos de causalidade —por exemplo, quando estendemos a imagem em Ela forçou sua passagem na multidão para Ela forçou sua irmã a ir junto ou Ela se forçou a sorrir. Essas fórmulas dão às pessoas um meio de pensar sobre uma variável com um valor e sobre uma causa e seu efeito — exatamente o mecanismo conceitual de que precisamos para estruturar teorias e leis. Podemos fazer isso não apenas com os elementos do pensamento, mas também com associações mais complexas, permitindo pensar com base em metáforas e analogias: o calor é um fluido, uma mensagem é um recipiente, uma sociedade é uma família, obrigações são laços. A segunda escada da cognição é o seu poder combinatório, recursivo. A mente pode contemplar uma variedade explosiva de ideias reunindo conceitos básicos —coisa, lugar, caminho, ator, causa, objetivo —para formar proposições. E pode contemplar não só proposições, mas também proposições sobre proposições, e proposições sobre as proposições sobre as proposições. Corpos contêm humores; a doença é um desequilíbrio nos humores que o corpo contém; não acredito mais na teoria de que a doença é um desequilíbrio nos humores que o corpo contém. Graças à linguagem, ideias não são apenas abstraídas e combinadas na cabeça de um único pensador, mas também podem ser compartilhadas em uma comunidade de pensadores. Thomas Jefferson explicou o poder da linguagem com a ajuda de uma analogia: “Aquele que recebe uma ideia de mim recebe a instrução para si sem diminuir a minha, assim como aquele que acende sua vela na minha recebe a luz sem me deixar na escuridão”. A potência da linguagem como um aplicativo de compartilhamento original foi multiplicada pela invenção da escrita (e novamente, em épocas posteriores, pela prensa tipográfica, pela disseminação da alfabetização e pela mídia eletrônica). As redes de pensadores que se comunicam expandiram-se com o tempo, conforme as populações cresceram, misturaram-se e se concentraram em cidades. E a disponibilidade de energia além do mínimo necessário à sobrevivência deu a mais pessoas o luxo de pensar e conversar. Quando comunidades grandes e conectadas ganham forma, podem conceber modos de organizar seus assuntos que favoreçam o benefício mútuo de seus membros.
Embora todos queiram estar certos, assim que as pessoas começam a expor suas ideias incompatíveis torna-se claro que não é possível todos estarem certos a respeito de tudo. Além disso, o desejo de estar certo colide com um segundo, o de conhecer a verdade, que é supremo na mente de quem observa uma discussão sem interesse pessoal na vitória de nenhum dos lados. Assim, comunidades podem elaborar regras que permitam o surgimento de crenças verdadeiras a partir das turbulências da discussão, por exemplo: você tem de expor razões para suas crenças, tem permissão para apontar falhas nas crenças dos outros, mas não pode calar à força as pessoas que discordam de você. Adicione a regra de que deve ser permitido que o mundo lhe mostre se as suas crenças são verdadeiras ou falsas, e podemos chamar essas regras de ciência. Com as regras certas, uma comunidade de pensadores não totalmente racionais pode cultivar pensamentos racionais. A sabedoria da multidão também pode elevar nossos sentimentos morais. Quando um círculo de pessoas suficientemente grande delibera sobre o melhor modo de tratar umas às outras, a conversa tende a seguir certas direções. Se a minha proposta inicial for “Eu posso roubar, espancar e matar você e a sua família, mas você não pode roubar, espancar, escravizar ou matar a mim ou à minha família”, não há como eu esperar que você concorde com o trato, nem que terceiros o ratifiquem, pois não há como justificar tais privilégios só porque eu sou eu e você não é. Provavelmente, também não concordaremos com o trato “Posso roubar, espancar, escravizar e matar você e sua família, e você pode roubar, espancar, escravizar e matar a mim e à minha família”, apesar da simetria, pois as vantagens que cada um de nós poderia obter prejudicando o outro são em muito superadas pelas desvantagens que sofreríamos por ser prejudicados (mais uma implicação da lei da entropia: prejudicar é mais fácil e pode ter efeitos maiores que beneficiar). Seria mais sábio implementarmos um contrato social que nos deixasse em um jogo de soma positiva: nenhum dos dois pode prejudicar o outro, e somos ambos incentivados a promover a ajuda mútua. Assim, apesar de todas as deficiências na natureza humana, ela contém as sementes de seu próprio aperfeiçoamento, contanto que proponha normas e instituições que canalizem interesses particulares para benefícios universais. Entre essas normas estão a liberdade de expressão, a não violência, a cooperação, o cosmopolitismo, os direitos humanos e o reconhecimento da falibilidade humana; entre as instituições estão a ciência, a educação, os meios de comunicação, o governo democrático, as organizações internacionais e os mercados. Não por coincidência, esses foram os principais frutos do Iluminismo.
GiseleLeite
Enviado por GiseleLeite em 10/04/2026
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