"O conhecimento é o mais potente dos afetos: somente ele é capaz de induzir o ser humano a modificar sua realidade." Friedrich Nietzsche (1844?1900).
 

Professora Gisele Leite

Diálogos jurídicos & poéticos

Textos


Mazelas contemporâneas

As mazelas do mundo contemporâneo englobam uma série de problemas estruturais, sociais, ambientais e psíquicos que caracterizam a sociedade atual, muitas vezes associados à modernidade líquida, ao capitalismo desenfreado e ao avanço tecnológico acelerado.

As principais mazelas, segundo análises contemporâneas são:

 

1. Crise Ambiental e Ecológica

Mudanças Climáticas: A poluição atmosférica, aquecimento global e desmatamento colocam em risco a biodiversidade e a sobrevivência a longo prazo.

Consumo Exacerbado: A lógica de consumo ilimitado é incompatível com os recursos finitos do planeta, gerando destruição de ecossistemas e lixo excessivo.

 

2. Desigualdade e Crises Sociais

Desigualdade Econômica: A disparidade de riqueza continua sendo um dos maiores males, com altas concentrações de pobreza, especialmente em países com alto Coeficiente de Gini.

Fome e Miséria: A persistência da fome em um mundo com capacidade de produção elevada revela uma má distribuição estrutural.

Violência e Preconceito: Formas de violência social e discursos de ódio são desafios contínuos.

 

3. Impactos Psíquicos e Comportamentais

Mal-estar na Civilização: O indivíduo contemporâneo enfrenta ansiedade, insegurança e desorientação, frutos da competitividade e da pressão por adaptação.

Narcisismo e Superficialidade: Nas redes sociais, a busca frenética por impacto e a criação de narrativas falsas geram vidas superficiais, transtornos de personalidade e "uma era do vazio".

Solidão e Desamparo: Apesar da hiperconexão, há um aumento nos sentimentos de isolamento e desamparo.

 

4. Tecnologia e Informação

Fake News e Desinformação: A incapacidade de lidar com a tecnologia digital facilita a disseminação de narrativas falsas.

Velocidade e Excesso: A aceleração do tempo e o excesso de informações geram desregulamentação e dificuldades de foco.

 

5. Crises Políticas e Estruturais

Polarização Política: A dificuldade de diálogo e a polarização intensa impedem soluções coletivas para problemas históricos.

Corrupção e Desemprego: Problemas crônicos que minam a confiança nas instituições.

 

Essas mazelas refletem não apenas falhas sistêmicas (capitalismo, neoliberalismo), mas também escolhas humanas, ganância e inércia.

 

Entre as mazelas históricas há a polarização recente gerando a dificuldade de projetar o Brasil em um lugar com algum futuro digno. Ainda nos idos de 1920, na obra de Freud intitulada "O mal-estar da civilização", o pensador concluiu que o homem não pode ser feliz na civilização. Apesar de todo grandioso progresso tecnológico e científico. E, ao refletir sobre o propósito da vida, Freud diagnosticou que o fito da civilização não é a felicidade, mas é a renúncia à esta. Pois a vida individual trata a incessante busca pela realização da satisfação do prazer, mas é impossível realizar-se num mundo onde os recursos são limitados e onde se exige penosos trabalhos e farto sofrimento para obtê-los. A manutenção da civilização exige que cada um se sacrifique e trabalhe para o bem do todo. Porém, há os que não são amantes do labor e

os argumentos são variados e sem valia, principalmente diante das paixões humanas.

Somente por meio da repressão social que estes são obrigadas a cooperar e a trabalhar.8

Dentro da teoria cultural de Freud a sexualidade é fundamental para a manutenção e reprodução da civilização pois afinal somente assim, pode-se gerar todos os bens materiais e intelectuais necessários ao futuro da sociedade.

 

 

A civilização prossegue obedecendo às leis da necessidade econômica, o que exige grande quantidade de energia psíquica. Aliás, nesse contexto Freud atribuiu as doenças psíquicas de sua era, a repressão que a civilização exercia e, ainda exerce, sobre os impulsos sexuais. Tal insatisfação foi exigida num grau bem superior ao necessário. Enfim, o processo civilizatório é marcado pela renúncia e pela insatisfação que os homens experimental vivendo em sociedade. E, o final resultado é um grande mal-estar na civilização.

 

Em pleno século XXI, a vida tornou-se mais digna do que a da época de Freud, registrou-se majoração da taxa de crescimento da natalidade e ainda, o aumento da expectativa de vida que demonstraram a melhoria. A saúde, o saneamento básico e o analfabetismo já não constituem os mais graves problemas dos países em desenvolvimento, e entre esses, se inclui o Brasil.

A população contemporânea usufrui mais e melhor dos bens materiais e culturais existentes e, vige maior liberdade sexual do que no início do século passado. Porém, o mal-estar não desapareceu completamente.

Somente veio adquirir novas formas e continua associado às condições sociais, culturais e econômicas experimentadas no mundo, numa sociedade pós-industrial que sofre com desemprego, subemprego, fome, miséria, pandemias, guerras e governos autoritários. Sem olvidar da grave instabilidade econômica e social. Todos esses fatores geram muita insegurança social e, consequentemente, produzem doenças psíquicas de nossa era digital. A potencial mecanização de todas as esferas da vida social é uma possibilidade histórica e, abala o narcisismo humano. Então, a pessoa se enxerga sem ocupação e sem perspectiva, perde sua identidade e, perde sua ocupação. Se torna um ser à margem, mais um na imensa massa humana, e a insegurança e medo começam avançar.

 

Recordemos que na época de Freud, o puritanismo, os tabus e grave rigidez contra os impulsos sexuais davam razões para se afirmar esse mal-estar diante tantas restrições à vida sexual. Mesmo assim, em era de liberdade sexual, o feminicídio se apresenta com altíssimas estatísticas e, o culto ao estupro fazem que alunos do secundário realizem lista de meninas estupráveis.

 

Apesar de grande desenvolvimento técnico e científico, o uso das pulsões sexuais na construção de bens culturais perdeu sua relevância. E, o homem não mais precisa sacrificar-se e seus impulsos primários em prol da civilização.

A racionalidade vigente atingiu todas as esferas da vida social e humana e, mesmo o prestigiado progresso técnico não é mais necessário para desviar ou conter as pulsões sexuais para o trabalho competitivo.

Já se prevê que futuramente nem mais será preciso o uso das forças humanas para a produção, reprodução de bens materiais e culturais. Então, as pulsões livres da repressão imposta pelo trabalho, não traduz um mal-estar advindo da insatisfação libidinal, mais não há mais tensão física que causa ansiedade, mas sim, a tensão psíquica causada pela preocupação incutida pelo medo, insegurança e, fomentada pelas dinâmicas condições econômicas e sociais.

 

Atualmente, as doenças que antes era raras, na época de Freud, tornaram-se prodigiosas e afligem psicólogos e psiquiatras, são traumas, síndrome de pânico, compulsões, síndrome de perseguição, misantropia e a depressão. E, todas essas patologias acompanhadas de fartas crises de ansiedade. Portanto, são doenças típicas desse mal-estar da civilização.

 

Se antes havia uma sociedade rigidamente patriarcal e dotada de valores identificáveis, nossa época é relativista e fragmentária. Tudo pode ser... infinitamente. As pessoas se encontram pressionadas e desorientadas pelas exigências do cotidiano. A família que antes era a principal formadora da individualidade se fragmentou. E, os laços familiares fragilizaram-se por causa das exigências do mundo exterior.

 

. A família não constitui mais um núcleo fixo de produção da individualidade. Todos os indivíduos devem trabalhar para poderem sobreviver. A criança não tem mais o convívio do pai. O pai deixou de ser um parâmetro ou modelo a ser seguido. Não há mais parâmetros ou padrões definidos. A tv, as redes sociais, a escola e as instituições sociais ensinam os modelos, as formas de ser, de pensar, de agir e de valorizar. O indivíduo contemporâneo está desamparado e desorientado. Seu modelo é o patrão, o playboy rico, o traficante do bairro ou o artista de novela. O distanciamento da autoridade paterna causou ao indivíduo o desnorteamento e a insegurança frente ao mundo exterior.

 

Hoje, o mal-estar na civilização é a condição existencial do homem contemporâneo, é o destino que todos temos de compartilhar. O simples fato de o indivíduo viver no mundo contemporâneo já é o requisito para se viver ansioso. A competitividade, o consumo desenfreado, a fome, a miséria, o desemprego, a violência, a dinâmica das transformações sociais e dos valores, a adaptação do indivíduo as exigências da vida são os principais fatores que produzem o mal-estar civilizacional.

 

Outra coisa perturbadora é a prodigalidade de diagnósticos de autismo entre as crianças e adolescentes... O espectro doravante é tão ampla, que se bobear a gente cai dentro...

 

Enfim, tal mal-estar traduz um vazio, numa intensa competitividade, consumo desenfreado, fome, miséria, indiferença e a farta dinâmica de transformações sociais e de valores, cuja a exigência para haver a adaptação

é avassaladora.

 

Referências

 

FREUD, S. O mal-estar na civilização. Rio de Janeiro, Imago, Edições Standard, Tomo XXI ,1969.

 

MEZAN, Renato . O Mal-Estar na Modernidade. Revista Veja, São Paulo, p. 68 – 70, 26 dez. 2000.

GiseleLeite
Enviado por GiseleLeite em 08/04/2026
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