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![]() A crítica a Machado de Assis por Sílvio RomeroA crítica a Machado de Assis por Sílvio Romero
Resumo: Ao propor a literatura crítica no Brasil, Sílvio Romero estabeleceu novas alternativas para leitura dos pensamentos e da ficção. E, a partir dele, abriu-se a crítica no interior de si mesmo, numa autorreflexão, bem peculiar à modernidade, que faz questionar o papel da literatura na sociedade do século XIX e no atual contemporaneidade. Palavras-chave: Crítica literária. literatura brasileira. Machado de Assis. Sílvio Romero. Ideologia.
A luta por uma identidade nacional em nosso país foi feita com auxílio de ideologias europeias, particularmente de França. Aliás, o início real de nossa colonização deve-se à Napoleão Bonaparte ao decretar o bloqueio continental. Os críticos literários tiveram especial destaque ao se dedicarem à polêmica sobre tais ideias importadas, sem a devida reflexão sobre o que viria ser e, ainda analisar seu papel na sociedade do século XIX. Um dos mais importantes críticos literários foi Sílvio Romero, e nos ataques feitos à Machado de Assis que percebendo o vazio dessas polêmicas, e passou a se dedicar a fazer literatura crítica. Descemos ao abismo numa espiral com ciclos contínuos em torno da mesma temática quando observamos os principais críticos literários e, por vezes, há a total ausência de reflexão sobre o pensamento crítico daquele momento no Brasil, que leva os nossos intelectuais recaírem em polêmicas infindáveis, sem preencherem o vazio produzido justamente pela falta de leitores. O mais famoso caso de Machado de Assis, sejam por conta dos ataques ou na defesa do autor de Dom Casmurro, há um discurso imbuído de ideologias importadas do Velho Continente. Sendo interessante notar que na leitura do Bruxo do Cosme Velho feita por Sílvio Romero dá para visualizar as justificativas de ele ser considerado o "papa da crítica brasileira a Machado de Assis". Apesar de que em 1879, o Bruxo em seu artigo “A Nova Geração”, onde criticou o estilo de Sílvio Romero. In litteris: “Refiro-me ao estilo, condição indispensável do escritor, indispensável à própria ciência – o estilo que ilumina as páginas de Renan e de Spencer, e que Wallace admira como uma das qualidades de Darwin” (MACHADO DE ASSIS, 1944, p. 195). Percebe-se, neste texto de Machado demonstrou a consciência da importância do papel primordial que o estilo representa na retórica da crítica, na arte de convencer o leitor. É pela força do discurso que historiadores, cientistas e homens de ideias em geral difundem o seu pensamento e tentam influenciar os seus leitores. Isto é ainda mais verdadeiro quando se trata do ficcional, pois, segundo o nosso autor, o estilo é condição indispensável. E, ele não o reconhece em Sílvio Romero. Eis o pavio que aceso fez explodir toda fúria de Sílvio Romero que passou a atacar não apenas o romancista, mas todo aquele que ousasse defendê-lo. E, em inúmeros artigos vindo até publicar um livro dedicado à crítica de Machado de Assis, travando-se um duelo de retórica com que se divertida a intelectualidade brasileira, tão herdeiras de teorias francesas, indo até a questão da problemática do racismo determinista . Sílvio Romero chega a chamar Machado de Assis de mau poeta. Na poesia brasileira ele não foi um abridor de caminhos, bem ao contrário, foi um espírito submisso e continuador de trilhas conhecidas (Romero, 1936, prefácio).Chegando a concluir que Machado tem sido elogiado, porém, não tem sido estudado. Um questionamento é providencial é sobre a reflexão sobre a função do crítico, visto tanto naquela época como atualmente, como aquele que guia e dirige, marcando lugares e definindo determinadas funções. Porém, se continuarmos a leitura do texto citado, veremos que ele contém uma definição bastante significativa do que seria ‘estudar’ para Sílvio Romero: ler à luz dos três fatores – meio, raça e momento –, responsáveis pela orientação normal de seu talento, ou seja, uma concepção absolutamente determinista do que seria a criação artística. Nesta linha, Romero adota o chamado ‘critério nacionalístico’ para julgar o nosso romancista pois, segundo ele, (...) Machado de Assis não sai fora da lei comum, não pode sair, e aí dele, se saísse. Não teria valor. Ele é um dos nossos, um genuíno representante da sub-raça brasileira cruzada, por mais que pareça estranho tocar neste ponto (ROMERO, 1936, p. 28). Percebe-se nitidamente a tentativa de enquadramento de Machado de Assis a um brasilidade, o que lhe deu o direito de escrever com humor e ironia. A contestação do determinismo biológico reinante no âmbito dos debates sobre o futuro do Brasil até os anos 30 do século XX conforma o núcleo da defesa da mestiçagem feita por Freyre. Esse autor reconstrói, a propósito, o processo de constituição do Brasil desde o período colonial e mostra que a nação brasileira, a despeito da escravidão e da dizimação de povos indígenas, representa o encontro efetivo de três grupos humanos, os quais se encontram numa relação de complementaridade entre si. Assim ter-se-ia constituído uma “brasileiridade” - unidade da diversidade -, no âmbito da qual cada um dos três grupos originais teria deixado uma contribuição relevante para a constituição do caráter nacional. Como mestiço, ele é justamente um dos nossos e só pode escrever como todos os brasileiros. Há a irritação de Romero pelo fato de que o romancista escapou às regras, não se submetendo-se. (...) Machado de Assis que (...) por dez anos seguidos, até 1870, (...) se manifestou tão plácido, tão brando, tão sossegado de índole, de aspirações e de estilo, não poderia de repente se transfigurar em grande filósofo, terrível manejador de ‘humour’, profundo pensador de espírito dissolvente e irritadiço, envolvendo a criação e a humanidade nas malhas de um pessimismo fulgurante (ROMERO, 1936, p. 48). Há o autoritarismo determinista, segundo o qual um escritor brasileiro, mestiço, negro, nascido das camadas desfavorecidas, gago, epiléptico não teria menor chance de escrever, usando os artifícios e técnicas, ou mesmo, os pensamentos mais complexos e elaborados. No caso machadiano, Sílvio Romero depara-se com um autor que se recusa a ser ‘enquadrado’, escapando a todas as regras da trindade taineana. Isto é o que mais desequilibra o nosso crítico, essa capacidade (ou ousadia) de Machado de Assis em desmentir as teorias elaboradas na Europa... É como se ele experimentasse uma perplexidade diante de uma transgressão ao não poderia tão tranquilizador... Por que motivo pode o autor de Várias Histórias desmentir assim tão flagrantemente as leis do meio, da raça, e do momento? (ROMERO, 1936, p. 154). Essa irritação e perplexidade acabam levando-os a afirmações maldosas que são, inclusive, contraditórias com as próprias ideias de isenção, imparcialidade e objetividade do espírito positivista da época. In litteris: “Ele gagueja no estilo, na palavra escrita, como fazem outros na palavra falada, disse-me uma vez não sei que desabusado num momento de expansão, sem reparar talvez que dava destarte uma verdadeira e admirável notação” (ROMERO, 1936, p. 55). Sílvio Romero passa a condenar Machado de Assis exatamente no mesmo ponto em que fora por este último atacado: no estilo. Evidentemente, associando-o a questões biológicas: um estilo gago, como o era o seu autor. Mas, principalmente, um estilo sem força, sem paixão, resultante do tão decantado humour: “Mas o período não lhe sai possante e largo, porque seus pensamentos não são vastos, ou profundos, ou grandiosos; não lhe sai também rápido, intenso, incisivo, porque uma paixão forte não o anima ou move (ROMERO, 1936, p. 65)”. Romero cogitou que humor não poderia ser genuinamente brasileiros, posto que não somos assim, sendo mera macaqueação europeia, imitação barata e grosseira. Esse humour de imitação traça ma caricatura desgastada da prática em literatura. Uma das coisas mais interessantes sobre o humor francês é a sua habilidade de rir de si mesmo. Os franceses não têm medo de fazer piadas sobre suas próprias falhas e limitações. Essa autodepreciação é uma marca registrada do humor francês e é vista em muitas das piadas e esquetes dos comediantes franceses. Outra característica do humor francês é o uso de piadas de primeiro grau e segundo grau. Piadas de primeiro grau são aquelas que são diretas, literais e fáceis de entender. Já as piadas de segundo grau são mais complexas, metafóricas e exigem um pouco mais de conhecimento sobre a cultura e a língua francesas. O humor francês é conhecido por usar muitas piadas de sentido duplo, jogos de palavra e ironia, o que faz com que a audiência precise estar atenta e participar ativamente do processo de compreensão da piada. Outra curiosidade sobre o humor francês é a sua habilidade de abordar temas controversos de uma forma engraçada. Os comediantes franceses muitas vezes usam o humor para falar sobre questões políticas e sociais, sem medo de ofender ou provocar. Essa abordagem pode ser vista como uma forma de criticar a sociedade e seus problemas, sem ser demasiado sério ou agressivo. O humorista é porque não pode deixar de sê-lo. . Dickens , Carlyle, Swift, Sterne , Heine, foram humoristas fatalmente, necessariamente; não poderia ser por outra forma. A índole, a psicologia, a raça, o meio tinha de fazê-los como foram (ROMERO, 1936, p. 78). De acordo com Sílvio Romero, os povos latinos são incapazes de humour. Portanto, a Machado foi negado de realizá-lo. O que representa mais uma regra transgredida pela grande indignação do crítica, cuja irritação chega ao clímax quando abordou o lendário pessimismo machadiano. Considerando também que os brasileiros não podem ser pessimistas. In litteris: Somos faladores, maldizentes, desrespeitadores das conveniências, assaz irrequietos, até onde nos deixa ir nossa ingênita apatia de meridionais, mas não somos pessimistas, nem nos agrada o terrível desencanto de tudo sob as formas desesperadoras dos nirvanistas a Budha ou a Schopenhauer (ROMERO, 1936, p. 105) O pessimismo machadiano contraria as leis e previsões estabelecidas para a sua condição de negro, brasileiro e epiléptico. a análise que Sílvio Romero faz de Machado de Assis, cheia de expressões como não poderia, consiste em um jogo de interdição/transgressão, em que o Bruxo do Cosme Velho se recusa a obedecer aos limites que lhe são impostos pelos herdeiros do determinismo. Sílvio Romero escreve todo um livro, assim como inúmeros ensaios e capítulos para atacá-lo. Mas nunca será rebatido por Machado de Assis , que se recusou a entrar na briga, revelando o que em um dos seus personagens, o Conselheiro Aires, é tão explícito: o tédio à controvérsia (MACHADO DE ASSIS, 1971, v. 1, p. 965). Mais adiante retomaremos essa recusa do romancista em responder aos ataques do crítico, continuando a encontrá-lo na livraria Garnier, cumprimentá-lo e fingir não se dar conta do tumulto que ele criava em torno do seu nome. Ainda a respeito de Romero, que ele estaria na difícil posição do intelectual brasileiro que, em uma sociedade dominada pelo cientificismo positivista, questiona a sua própria identidade, fruto, segundo essas ideias cientificistas e deterministas, de um povo mestiço, marcado pela inferioridade racial, na qual ele, Sílvio Romero, acredita piamente. Crença que resulta da mistura das teorias de Gobineau com as de Darwin, fornecendo-lhe material de importância vital na sua obra, e que o levará até a afirmar a inferioridade do negro e do índio: Todas as nações americanas em que o elemento europeu não predomina, como o México, Peru, Equador e Bolívia, são as menos progressivas do continente Ainda sugeriu que, no Brasil, será feita espécie de "eugenia" natural, o tipo branco irá tomando a preponderância até mostrar-se talvez deputado e belo tal como no Velho Mundo. Será quando já estiver mais bem aclimatado no continente. As inspirações em Gobineau , Darwin e Spencer nutriram as ideias de Sílvio Romero e, mesmo a teoria de Taine , com os seus três fatores, a saber: raça, meio e momento. Romero se pergunta qual dos três teria contribuído em maior escala para a formação e diferenciação do caráter brasileiro, optando pela raça: A unidade nacional é garantida, a meu ver, pelos agentes morais e pela energia étnica (ROMERO, 1902-1903, v. III, p. 243). Assim, o crítico estabelece uma hierarquia em que a prioridade cabe à etnia e (...) o clima fica em segundo plano (...) já que ele também (...) foi um agente valentíssimo na formação das raças e das civilizações autóctones (ROMERO, 1902- 1903, v. III, p. 243). Isto é, Sílvio Romero acrescenta as ideias de Montesquieu às de Gobineau, Darwin e Taine, misturando a teoria da raça, meio e momento com a dos climas. Idéias europeias, em sua maioria francesas, guiando, paradoxal e contraditoriamente, o crítico que luta pela libertação da importação do pensamento, para perplexidade do estudioso da crítica daquele momento... E, priorizando a raça, o crítico Romero afirmou não perceber que as diferenças tenha o meio produzido no caboclo, no negro e mesmo no português. A olhos nus, é o mestiço que moveria toda a história brasileira, tão marcado pela questão étnica e pelo contato de várias culturas. A mestiçagem mais relevante é justamente a afro-lusitana. O negro, espalhado pela África e América, é uma raça que oferece interessantíssimos problemas (ROMERO, 1978, p. 49). Podemos afirmar que Sílvio Romero foi um dos primeiros a destacar a importância do elemento africano, quando este era praticamente ignorado pela intelectualidade nacional. O que quer que notardes de diverso entre o brasileiro e o europeu, atribui-o em sua máxima parte ao preto (ROMERO, 1978, p. 3). Para medir essa importância bastaria, segundo o nosso autor, que se levasse em conta uma mestiçagem muito mais interessante do que a étnica: a mestiçagem moral, consequência da educação dos filhos dos senhores de engenho, que cresciam brincando com os moleques da senzala e ouvindo das ‘mães pretas’ as histórias do Saci Pererê, do Zumbi, e muitos outros personagens e elementos da cultura africana. Isto fazia com que, mais tarde, se tornassem inteiramente diferentes dos seus pais portugueses: eram mestiços moralmente O racismo científico no Brasil funcionaria como (...) um instrumento conservador e autoritário de definição da identidade social da classe senhorial e dos grupos dirigentes, perante uma população considerada étnica e culturalmente inferior (VENTURA, 1991, p. 60). Seria, muito provavelmente, o resultado de um olhar ‘de fora’ lançado ao Brasil, que teria como consequência a imagem negativa da sociedade e da cultura local. Sílvio Romero, abraçando a ideia da nação como unidade cultural resultante do cruzamento das três raças, procura dar conta da sua gênese, inserindo-se na tradição do Iluminismo, que mistura a busca das raízes com a crença no progresso. A nação se constrói, portanto, no movimento ambíguo entre a identidade e a diferença, entre a reprodução da experiência europeia e a sua relativa diferenciação nos trópicos. Poderíamos afirmar que Romero se propõe a eliminar a contradição entre a realidade étnica brasileira, o racismo científico e o liberalismo progressista, através da opção pela mestiçagem, a que já nos referimos. Ou seja, pela extinção das raças não brancas através da fusão, da assimilação racial dos grupos inferiores. É nesta linha que Sílvio Romero propõe o ‘branqueamento’ como solução para reabilitar as raças ditas ‘inferiores’, o que seria uma solução para o dilema social sem contestar os fundamentos do racismo . A rigor não há a perda daquelas duas raças; há a transformação delas (ROMERO, 1980, v. II, p. 179), com uma inevitável vitória do branco. Enfim, uma mistura dos princípios arianistas com as leis darwinistas, evolucionistas e sociais, numa busca de coerência onde esta é praticamente impossível. Na verdade, o que já podemos ir percebendo é que, apesar da aparência em contrário, há uma luta incessante do crítico pela lógica, pelo rigor científico, a ponto de tentar adaptar à realidade às suas ideias. O que, evidentemente, vai propiciar a descoberta de várias contradições na sua obra, por mais que ele busque exatamente o contrário. Tentando descobrir um encadeamento lógico para o seu raciocínio, ele acaba misturando princípios diferentes. Mas será que poderíamos realmente chamá-lo de contraditório? Ou ele teria sido simplesmente uma vítima do acúmulo de ideias europeias mal digeridas que aqui se instalam no século XIX? No caso Machado de Assis, Romero se irrita porque o escritor não se comporta como deveria se comportar (ou escrever) um mestiço, destruindo, portanto, toda a sua teoria... Ora, como teria reagido o romancista diante de tão duros ataques? Já vimos que, aparentemente, ele não reagia, manifestando, através do seu personagem Conselheiro Aires, o famoso tédio à controvérsia. E chega a aconselhar a seus leitores a nunca se meterem nesse tipo de disputa: Não te envolvas com polêmicas de nenhum gênero, nem poéticas, nem literárias, nem quaisquer outras(...) o pugilato das ideias é muito pior do que o das ruas (apud PUJOL, 1934, p. 237). Machado acrescenta, a respeito do mesmo tema: Realmente, criticados que se esforçam de críticas literárias com impropérios dão logo ideia de uma imensa mediocridade – ou de uma fatuidade sem freio – ou de ambas as coisas; e para lances tais é que o talento, quando verdadeiro e modesto, deve reservar o silêncio do desdém (MACHADO DE ASSIS, 1944, p. 237). Seria somente por questões de temperamento, como o querem muitos dos seus biógrafos? Ou seria por duvidar da eficácia de tais polêmicas, que tanto incendiavam a nossa república das letras? É curioso observar que só uma vez Machado aceitou discutir um assunto de crítica literária. E foi exatamente a respeito do naturalismo, a partir do romance “O Primo Basílio”, de Eça de Queiroz, no qual insiste em afirmar que, embora muito admire o romancista português, recusa a escola naturalista a que ele pertenceu. E, recusa-a, principalmente, porque ela leva a sério a ilusão do real: “Porque a nova poética é isto e só chegará à perfeição no dia em que nos disser o número exato dos fios de que se compõe um lenço de cambraia ou um esfregão de cozinha (MACHADO DE ASSIS, 1944, p. 163)”. A obra causou bastante polêmica quando publicada. Em 09 de março de 1878, no Jornal do Comércio, o crítico Bastos alegou que “O Primo Basílio” “era uma bela obra de arte, mas um péssimo livro”. A sua crítica, influenciada pelo despreparo da sociedade da época, reprovava a forma como as instituições eram desrespeitadas. A crítica de “O Primo Basílio” é contra toda a sociedade lisboeta, marcada pela ociosidade burguesa, a futilidade, a devassidão, a imoralidade, a hipocrisia social, a superficialidade nos relacionamentos, a falsidade e a arrogância que o dinheiro parece criar em certos indivíduos. A crítica de Machado de Assis ao romance de adultério de Eça de Queiroz poderá causar a impressão de ser um texto escrito através das tintas da moralidade, por um homem que tripudiava a traição feminina em enredos literários. Tal impressão não procede. Pois a representação machadiana da adúltera deu-se em Dom Casmurro, com suposta infidelidade de Capitu que é tema de maior relevância na obra. Não admitindo que a imitatio seja suficiente e hábil para a criação artística, buscando um outro conceito literário, Machado de Assis até aceitou uma inicial polêmica no caso Eça de Queiroz. Porém, ocorreram muitos protestos em defesa do autor de Primo Basílio , aos quais o Bruxo do Cosme Velho respondeu apenas timidamente. Mas, se retraiu, fazendo doravante cada vez menos crítica literária. Esse retraimento se deu, pois Machado chegara mesmo ser conhecido no exercício da crítica. A tal ponto, que, em 1868, José de Alencar lhe pediu para promover o poeta Castro Alves, então recém-chegado ao Rio de Janeiro, que precisava de uma indicação para ser bem aceito nos meios literários. Machado de Assis já havia sido consagrado na carreira de crítico, considerado o primeiro crítico brasileiro, como dissera José de Alencar. Entretanto, após a polêmica sobre Eça de Queiroz , provavelmente esgotado pela que envolvera de maneira tão dolorosa o seu nome, ele deixa praticamente de fazer crítica. Ou, na interpretação de Pujol: “Retraiu-se a sua sensibilidade magoada; e, de então por diante, só raramente, em algum período fugitivo de crônica e num ou noutro esboço, atreveu-se a fazer crítica literária (PUJOL, 1934, p. 271)”. Importa-nos, aqui, questionar a razão pela qual teria deixado o nosso escritor uma carreira tão bem iniciada, que já lhe valera do maior romancista da época o título de maior crítico brasileiro. Seria, realmente, por não ser capaz de enfrentar a polêmica em torno do seu nome? Por simples tédio à controvérsia, para responder com o silêncio do desdém? Progressivamente, a partir da referida polêmica que envolveu quase toda a intelectualidade brasileira do momento, Machado de Assis passou a fazer cada vez menos crítica literária. E, teve verdadeiro horror às controvérsias que tanto preenchiam o vazio do pensamento na sua época. Carlos de Laet conta que, certa vez, para implicar com ele, disse ao romancista que ainda ia obrigá-lo a ter com ele uma polêmica. Machado teria retrucado, imediatamente: “Não faça tal, respondeu-me a gaguejar ligeiramente, que os partidos não seriam iguais; isso para você seria uma festa, uma missa cantada na sua capela; e para mim uma aflição...” (apud PUJOL, 1934, p. 271). Seria mesmo por simples questões de temperamento que nosso escritor teria abandonado a crítica? Não estaríamos nós caindo no mesmo caso dos que o explicam pelos dados da sua vida, ou dos seus condicionamentos biológicos? Na verdade, se atentarmos para a data do artigo “A Nova Geração”, 1879, veremos que ele antecede de um ano as Memórias Póstumas de Brás Cubas, livro que se abre para uma série de problemas que, se antes germinavam na ficção machadiana, agora despontam com força total. Poderíamos mesmo pensar que, diante da polêmica envolvendo o seu nome e atraindo tantos intelectuais da época, Machado de Assis, por timidez, por tédio à controvérsia, ou por não acreditar na eficácia de tais querelas, recusa-se a participar delas, tentando descobrir uma outra maneira de provocar, fazer apelo, dar piparotes no seu leitor. E encontra, na ficção, um meio de responder mais eficaz, talvez mesmo a solução para a questão da crítica... Observamos que Memórias Póstumas de Brás Cubas questiona a própria literatura, tal como era praticada até então, desde a sua dedicatória: “Ao verme Que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas”. MEMÓRIAS PÓSTUMAS (MACHADO DE ASSIS, 1971, v.I, p. 511) Trata-se de um apelo ao leitor, forçando-o a refletir sobre as técnicas da narrativa tradicional, linear, imitadora da escrita da História. Assim, quem escreve o romance é um defunto autor, para quem a campa foi outro berço (MACHADO DE ASSIS, 1971, v. I, p. 513), ou seja, a morte do personagem suscita a vida do autor, para grande perplexidade do leitor. O que significaria essa morte que engendra a vida? O que seria preciso morrer para fazer viver? Teria essa metáfora alguma coisa a ver com a questão da crítica no momento, que morria simplesmente porque caíra no vazio estéril da polêmica, da retórica, da pura importação de ideias, sem reflexão adequada? Seria preciso matar essa crítica, eliminá-la pela sua ineficácia (como morrera Brás Cubas), para que ela ressurgisse na ficção, questionando a própria literatura, bem como o sistema ideológico em que esta se desenvolvia? Aceitando essas suposições, a explicação fornecida pelo defunto autor ao seu possível leitor pode nos fornecer mais algumas pistas para descobrirmos a resposta que Machado dava a seus contemporâneos: Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne, ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Pode ser. Obra de finado. Escrevi-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, e não é difícil antever o que poderá sair desse conúbio (MACHADO DE ASSIS, 1971, v. I, p. 513). Os estudos sobre as influências inglesas no humour machadiano, essa mistura de negro ceticismo com o riso, associação que o próprio autor define tão bem na metáfora da pena da galhofa e a tinta da melancolia. Isso nos leva a crer que esse conúbio continha a pista para explicar o seu comportamento durante toda a polêmica com o seu nome. Tédio à controvérsia, é lógico, sobretudo porque a controvérsia se dá a partir de temas inteiramente vazios. Machado nos deixa entrever nessa advertência é que é preciso manter o silêncio do desdém quando se trata de polêmicas literárias. Silêncio que significa ceticismo, descrença total na possibilidade de atuação com tais armas. Ceticismo que, por sua vez, engendra o riso irônico, produzindo o humour. Em que molde, a não ser o humorístico, havia Machado de Assis de vazar a virtude criadora que o impeliu para a Arte? (MAYA, 1912, p. 51), pergunta Alcides Maya no seu interessante trabalho. Teriam, realmente, a timidez e o tédio à controvérsia impedido o nosso autor de entrar por esse caminho? Ou foi a certeza do vazio, da ineficácia dessas polêmicas que o levaram a praticamente abandonar a crítica literária, passando a fazer, desde então, literatura crítica? Nas próprias “Memórias Póstumas” temos um exemplo bem expressivo dessa retórica vazia que Machado recusou. Narrando o seu próprio enterro, o defunto autor relata o discurso que um amigo proferira à beira do seu túmulo: “Vós, que o conhecestes, meus senhores, vós podeis dizer comigo que a natureza parece estar chorando a perda irreparável de um dos mais belos caracteres que têm honrado a humanidade”. Este ar sombrio, estas gotas do céu, aquelas nuvens escuras que cobrem o azul como um crepe funéreo, tudo isso é a dor crua e má que lhe rói à natureza as mais íntimas entranhas, tudo isso é um sublime louvor ao nosso ilustre finado (MACHADO DE ASSIS, 1971, v. I, p. 514). Ironia, principalmente quando nos lembramos que o leitor machadiano pertence ao mesmo meio que o amigo de Brás Cubas, ou seja, é, muito provavelmente, capaz de fazer ou de aprovar esse tipo de discurso, pois está afeito a esse uso da retórica, tão arraigado no nosso país. Ou, com Luiz Costa Lima: (...) em Machado a crítica da retórica assume desde logo a função de mostrar seu papel no Novo Mundo: o papel de encobrir o vazio, de dar-se ares de importância... a alusão irônica ao leitor assume seu verdadeiro peso ao notarmos que este pertencia ao mesmo meio dos usuários da retórica (1981, p. 64). Isto fica ainda mais explícito no famoso conto publicado em 1882, em “Papéis Avulsos”, a “Teoria do Medalhão” , em que um pai aconselha ao filho, que completa vinte e um anos, a abraçar a carreira de medalhão, como garantia de sucesso na sociedade. Diz o personagem: Uma vez entrado na carreira, deves pôr todo o cuidado nas ideias que houveres de nutrir para uso alheio e próprio. O melhor será não as ter absolutamente (MACHADO DE ASSIS, 191, v. II, p. 290). E, para alcançar esse resultado de ausência total de ideias, (...) há um meio, é lançar mão de um regímen debilitante, ler compêndios de retórica, ouvir certos discursos, etc. (MACHADO DE ASSIS, 1971, v. II, p. 290). Assim, a retórica serve para preencher o vazio que a falta de reflexão provocara na sociedade. Leitor e assimilador das ideias europeias, mas não conseguindo adaptá-las conveniente e adequadamente aos trópicos, ao intelectual só resta a disputa estéril, o discurso sem conteúdo, com que a crítica disfarçava o impasse em que caíra. E que era garantia total de sucesso na sociedade. Em Papéis avulsos, o mesmo livro em que publica a Teoria do Medalhão, encontramos o conto “O Alienista ”, no qual o tratamento dessas questões é ainda mais sutil, e mais contundente. O conto nos fornece farto material para investigarmos a visão machadiana das ideias cientificistas e deterministas importadas. No início do texto ficamos sabendo que Simão Bacamarte, médico que havia estudado em Coimbra e Pádua, havia escolhido Dona Evarista para esposa porque ela (...) reunia condições fisiológicas e anatômicas de primeira ordem, digeria com facilidade, dormia regularmente, tinha bom pulso, e excelente vista; estava assim apta para dar-lhe filhos robustos, sãos e inteligentes (MACHADO DE ASSIS, 1971, v. I, p. 254). As razões da sua escolha são ditadas pelas ideias que ele aprendera na Europa. Mas Dona Evarista continua estéril, o que provaria a ineficácia da ciência. Recusando a se conscientizar desta verdade, Simão continua a acreditar nos métodos científicos: ela não engravida porque não aceita a dieta imposta por ele, médico renomado. Bacamarte encarnaria, assim, a própria figura do cientista forjado pelo século XIX , que vai de teoria em teoria em busca da verdade, sem nunca a encontrar. Assim, vai pouco a pouco internando toda a cidade de Itaguaí no manicômio, pois cada habitante lhe parece corresponder a uma das hipóteses que ele está pesquisando. E note-se que ele é inteiramente honesto, não aceita nem mesmo remuneração, o que o move é realmente a paixão pela ciência. Tão honesto que, no fim, acaba se conscientizando da sua própria loucura e vai ele mesmo para a “Casa Verde” . Estaria Machado metaforizando o suicídio da razão, perdida entre teorias que se contrapõem, vagando de experiência em experiência até chegar ao seu único termo possível: a loucura? Seria isto mais uma pista para o seu leitor, fazendo-o rir da busca infrutífera de Simão? Poderíamos considerar que Machado quer ‘corroer’ o sistema de pensamento vigente através da única arma de que dispõe: a escrita? Machado ironizou também a aplicação da ciência à filosofia, apresentando um dos loucos como evolucionista: Deus engendrou um ovo, o ovo engendrou a espada, a espada engendrou Davi, Davi engendrou a púrpura, a púrpura engendrou o duque, o duque engendrou o marquês, o marquês engendrou o conde, que sou eu (MACHADO DE ASSIS, 1971, v. II, p. 257). Trata-se, evidentemente, da associação da ciência à ambição do poder, já que este louco se crê marquês e, o que é mais, descendente de Deus. Loucura da razão que se perde em meio a tantas teorias, sim, mas que busca sempre uma ordenação lógica. Como afirma Luiz Costa Lima, (...) é neste ambiente positivista e catalogador que a loucura é encarada como doença e privação (COSTA LIMA, 1991, p. 264). Uma crítica veemente de um sistema vazio de ideias, em que o que conta é a frase bonita, a retórica brilhante a esconder a nulidade do pensamento. E tudo isso sob a aparência de um embasamento científico, numa união entre retórica e ciência, em que a segunda serve de apoio à primeira. Ou, nas palavras de Barreto Filho: “O Alienista” pode se alimentar em certas fontes gerais do humorismo , mas é uma sátira muito precisa de defeitos nossos, especialmente de nossa imaturidade política, que nos tornava candidatos à tirania. É uma instalação em miniatura de uma ditadura científica, na vila de Itaguaí, pelo doutor Simão Bacamarte (BARRETO FILHO, 1980, p. 112) Machado descobre a única maneira possível de pensar criticamente a sociedade do seu tempo e, ao mesmo tempo, ser aplaudido por essa mesma sociedade. Sua crítica, muito mais vigorosa do que a dos seus pares, pois vai atacar inclusive as ideias que teriam gerado a própria crítica literária brasileira, tem possibilidades de atingir um público mais amplo do que os simples textos teóricos, lidos somente pela intelectualidade do momento. E, ironicamente, por causa da sua escrita em palimpsesto, ele vai justamente ser aplaudido e elogiado pelo mesmo sistema que está querendo questionar. Paradoxal é o drama do intelectual burguês, que pensa o mundo sem conseguir modificá-lo, que critica a sociedade e a sua classe social, embora continue pertencendo a ela, sua única salvação possível é a ficção, única saída para passar adiante uma visão lúcida do mundo. Poucos são os que o entendem, tanto na sua época como nos dias de hoje. Mas isto já estava previsto, como podemos perceber ainda nas primeiras páginas das “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. Consciente de que a sua ficção crítica não será entendida pelo leitor, Machado se contenta com os poucos que o puderem compreender. Assim fazendo, ele estaria lançando a semente para a liberdade da literatura brasileira com que sonhava, embora tenha que usar estratégias para lançá-la. E, como semente, ela seria em pequena quantidade, poucos leitores a compreendê-lo, mas que pudessem, a partir da sua obra, refletir criticamente sobre as questões que ele apresenta. Machado, que volta a ser redescoberto atualmente, continua a ser enaltecido pelo que, no nosso entendimento, ele não é, principalmente: pelo estilo, pelos seus personagens, ou, na melhor das hipóteses, pela técnica narrativa. No centenário do óbito de Machado de Assis, em 2008, fora marcado por inúmeras homenagens a quem é considerado o maior escritor brasileiro. E, sua obra continua a impressionar até hoje, pois parece ficar mais atual à medida que o tempo passa. Os textos de Machado abordam, com visão aguda e de forma elaborada, vários aspectos da vida humana. Ocupa um lugar único na literatura brasileira, pois foi algumas vezes criticado porque se dizia que não abordava as grandes questões sociais e nacionais. Posteriormente, novos estudos fizeram uma reavaliação de sua obra, que é vista agora como extremamente crítica e expressiva de transformações profundas na sociedade brasileira a partir do fim do século XIX. Sua genialidade resultou de ser u dos autores mais compreendido pelo leitor contemporâneo. O crítico sofisticado da sociedade do seu tempo, das ideologias dominantes na sua época, da importação de ideas sem um pensamento local que as adapte adequadamente, continua restrito aos cinco leitores que ele espera encontrar para as “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. Ou seja, aos poucos que perceberam a sua escrita em palimpsesto pela qual, na sua obra da chamada segunda fase, há um texto, aparentemente inofensivo, capaz de agradar ao público da época pelo casticismo da linguagem e pela intriga, mas que esconde, sob ele, um texto primeiro muito mais perigoso. A traição intrínseca das relações humanas e dos diálogos silenciosos. Referências ALENCASTRO, Luís Felipe de. (Org.) 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GiseleLeite
Enviado por GiseleLeite em 23/02/2026
Alterado em 23/02/2026 Copyright © 2026. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
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