"O conhecimento é o mais potente dos afetos: somente ele é capaz de induzir o ser humano a modificar sua realidade." Friedrich Nietzsche (1844?1900).
 

Professora Gisele Leite

Diálogos jurídicos & poéticos

Textos


O Diabo no Imaginário Medieval

 

Resumo: Na Idade Média, os monstros e demônios ocuparam um lugar de destaque no imaginário social europeu, representando o diferente, o grotesco e, muitas vezes, o maligno. Muitos testemunhos atestavam a sua existência no plano real, como personagens de carne e osso, relatando características físicas, psíquicas e até morais. Esses testemunhos chegaram até nós por meio de documentos das mais diversas tipologias.

Palavras-chave: História. Sociologia. Filosofia. Idade Média. Psicanalise.

 

A despeito da Idade Média ser denominada de Idade das trevas, correspondeu a um tempo em que as demais formas de reflexão pode traduz o momento em que a sociedade europeia se deparou com diversos problemas cujas soluções não se encontravam facilmente na seara natura, necessitando, assim, de uma explicação metafísica ou sobrenatural para determinados fenômenos.

O cotidiano medieval foi duramente determinado por intempéries tanto advindas por forças naturais, como humanas, há por parte de alguns estudiosos renomados a noção de que pairava um medo coletivo, já que as catástrofes eram progressivamente mais acentuavam e exacerbavam a noção de que a humanidade estava para viver o último século de existência e parecia que o fim do mundo estava bem próximo.

O ponto fulcral dessas questões situa-se no papel da Igreja Católica que por muito tempo atuava por meio de conselheiros espirituais do Ocidente, empregando pedagogia de choque, esforçaram-se em substituir por medos teológicos a pesada angústia coletiva resultante desse estresse acumulado. É o que nos anuncia Delumeau em sua obra “História do medo no Ocidente: 1300-1800 uma cidade sitiada”.

Tem-se, ainda, a Escatologia referente ao fim do mundo e o Milenarismo representando o temor da aproximação do Ano Mil, segundo alguns textos apócrifos, precederia a segunda vinda de Jesus Cristo, dando início ao Juízo Final, arrebatando almas justas para viverem no Paraíso e, condenando os não eleitos à danação eterna no inferno.

O diabo foi considerado por muitos estudiosos como emissário de desgraça e destruição, sendo obrigação individual e coletiva dos cristão desmascarar o Satã e seus agentes e lutar contra o pecado, para diminuir a dose de infortúnios de que são a verdadeira causa.

Ao longo da história, o Diabo foi um dos que melhor impulsionou a sociedade medieval a fim de encontrar certas respostas a alguns questionamentos considerados sem solução, como, por exemplo, a origem de algumas catástrofes ou o porquê de se aproximar do amor de Deus. A alma do homem medieval situa-se num campo de batalha entre o Bem e o Mal .

A palavra ‘diabo’ é uma derivação do grego diábolos, que significa caluniador. Quando analisado o conceito cristão do diabo, fica evidente que foi “[...] influenciado por elementos folclóricos , algumas das culturas mais velhas, mediterrâneas e outras das religiões célticas, teutônicas e eslavas do norte”.

Uma mescla de ideias pagãs que penetraram no véu do Cristianismo enquanto parte do pensamento cristão foi transposta para os cultos pagãos.

Há também a atribuição desse termo aos deuses tanto vencidos, quanto vizinhos à uma determinada região que tinha seus próprios deuses. Em outras palavras, havia um sentimento de pertencimento e o de Outsiders , em que o “outro” é o Diabo.

A palavra ‘demônio’ é derivada do grego daimon, e pode também ser relacionada aos nomes dos deuses gregos em alguns dos seus aspectos particulares. É importante ressaltar que não foi desde o seu surgimento que a palavra ‘demônio’ angariou uma conotação pejorativa, haja vista que era conhecida na Grécia antiga.

O nome ‘Satanás’ consubstancia o significado de adversário, podendo ser percebido no Livro de Jó (1-2) quando aparece como um espírito responsável para pô-lo à prova. Mesmo agindo dessa maneira, Satã é um súdito originário da corte Celestial, não só cumprindo as ordens de Deus, como também sendo um dos Seus filhos.

A sua função principal é o de fazer os filhos de Deus buscarem uma aproximação com Ele, restringindo suas tentações aos que estiverem propensos a seguirem o Mal.

O conceito vai se alterando de um funcionário da corte celestial para aquele que é o opositor de Deus, porque, expulso do Paraíso, “(...) Satanás vaga pelo mundo, e até o fim dos tempos, Deus lhe permitiu nos tentar e enganar. Ele é nosso inimigo implacável”.

O nome ‘Lúcifer’ , que não está presente no Novo Testamento , está relacionado com a queda dos anjos, por ele incitada.

No Livro de Isaías Deus protege Seus filhos destruindo seu inimigo: “Então! Caíste dos céus, astro brilhante, filho da aurora! Então! Foste abatido por terra, tu que prostravas as nações! Tu dizias: Escalarei os céus e erigirei meu trono acima das estrelas. Assentar-me-ei no monte da assembleia no extremo norte.”

O marco inicial para um conhecimento não só de uma “hierarquia demoníaca”, mas também acerca do Diabo tal qual é apresentado no Ocidente europeu, remete ao momento após o Cativeiro da Babilônia em meados do século VI a.C.

O ponto principal evidencia-se nas sagradas escrituras do povo judeu que, após o exílio, entrou em contado com o masdeísmo persa, cuja influência foi determinante para a corporificação de uma demonologia futura.

A doutrina de Zoroastro baseava-se num permanente conflito dos princípios gêmeos do Bem e do Mal, Spenta Mainyu (o Espírito Benfazejo), identificado com o criador Ahura Mazda, e Angra Mainyu (o Espírito Destruidor).

Outro ponto referente às escrituras judaicas “[...] cuja terminologia e imagens sofreram influência das civilizações mais antigas que os circundavam” , está em Isaías (27, 1), o qual Tiamat, o Dragão do Caos no mito babilônico é percebido pela serpente Leviatã no Velho Testamento.

Entretanto este acontecimento não demarca exclusivamente o início de um conflito cósmico entre o Bem e o Mal, porque descobriu-se que muitos dos mitos, que pertencem não apenas às grandes religiões, mas também aos povos primitivos e às primitivas sociedades dos dias atuais, incluem uma história sobre um ser muito perverso que teria entrado nesse mundo para destruir o trabalho do ser bondoso que o havia criado.

Os pontos iniciais dos conflitos entre a Luz e as Trevas, o personagem Diabo, principal representante de caracteres maligno e perigoso, não pode possuir equidade com as demais entidades espirituais de algumas religiões antigas e consideradas, à época, pagãs, justamente pelo seu poder aglutinador de uma “[...] ação de causar mal [sendo ela] a maldade ativa [onde] habita Satã”. Assim, essa personificação do

Mal exercerá na conjuntura medieval uma atuação e manifestação que são percebidas pelas diversas atribuições que foram elaboradas no imaginário medieval.

O Diabo desempenhou uma presença bastante enfática na sociedade medieval, tendo sido mais sintomática principalmente nos momentos de grandes instabilidades, seja no campo político-econômico, quanto, especialmente, no campo espiritual.

O Diabo é também associado a cores – em especial três – e a lugares. Tais simbolismos buscaram corroborar de forma bastante específica tanto os meios para se evitar o contato com o Mal, servindo como mecanismos que facilitem a sua identificação quanto para facilitar a sua identificação.

Em outras palavras, essas cores são meios eficazes de promover uma estigmatização. No que diz respeito às cores, a cor do Diabo é normalmente preta, em conformidade com a tradição cristã e o simbolismo quase mundial.

A pele é preta, ou ele é um animal preto, ou sua roupa é preta. Às vezes é um cavaleiro negro em um cavalo preto. A segunda cor mais comum do Diabo é a vermelha, a cor do sangue e do fogo; [...] Ocasionalmente, ele é verde, devido à sua associação com a caça [...] [formando] a imagem do Diabo como um caçador de almas.

Independentemente de ser uma entidade que encarna uma autoridade que se confunde como uma autonomia ao poder de Deus, ou sendo um objeto da própria psique do homem medieval, o Diabo exerceu “[...] uma realeza sobre o mundo do homem e sobre o próprio homem através de uma quantidade de poderes como a magia, a alquimia, a feitiçaria e [principalmente] a possessão [...]”.

Ao analisar o conceito do Mal e suas manifestações na Idade Média é um trabalho que recorre à elementos de vasta abstração, tendo em vista que o foco de análise é concernente à questão da existência de uma entidade detentora de caracteres que vão de encontro a um bom deus.

Em um universo onde o imaginário encontrava-se em constante mudança – advinda dos embates político-religiosos e sociais, como, por exemplo, o Grande Cisma e a Peste Negra – a atuação desse personagem tão multifacetado remete à diversas interpretações, ou como defende Russell que “[...] a questão maior é até que ponto o mal, simbolizado por Lúcifer, faz, no final das contas, parte do plano de Deus”.

O significado do diabo evoluiu drasticamente da Idade Média para a Idade Contemporânea, passando de uma entidade física e onipresente, central na teologia e no cotidiano, para um símbolo mais subjetivo, psicológico ou até mesmo pop na cultura moderna.

Na Idade Média, o diabo não era uma metáfora; ele era uma realidade concreta, tangível e temida.

Entidade Física e Grotesca: Representado em iluminuras e esculturas como um monstro híbrido (chifres, rabo, pés de bode, corpo animalesco), o diabo era visualizado como um inimigo externo que tentava fisicamente as pessoas.

Onipresença no Cotidiano: Acreditava-se que demônios agiam no dia a dia, causando doenças, colheitas ruins, desastres naturais e tentações pecaminosas.

O "Pacto" e a Inquisição: O diabo era central nas narrativas de feitiçaria e bruxaria. O "pacto com o diabo" era visto como uma ameaça real à alma e à ordem social, levando à perseguição de supostos bruxos.

A figura do diabo e a Santa Inquisição estão intrinsecamente ligadas na história medieval e moderna, onde a demonologia serviu de base teológica para a repressão de heresias e, posteriormente, a caça às bruxas. A Inquisição, criada no século XIII, utilizou o medo do demônio para defender os dogmas da Igreja Católica Romana.

A Inquisição e o Sabá, a partir do século XIV e intensificando na modernidade, a Inquisição associou práticas de feitiçaria ao culto ao diabo (sabá), transformando "mulheres sábias" em agentes do mal.

Demonologia: O estudo do diabo serviu para justificar a perseguição a bruxas, magos e mulheres que exerciam curas, acusando-os de pactos demoníacos.

Representação: O diabo era visto como onipresente, agindo através de heréticos e bruxas para desafiar a ordem de Deus e da Igreja.

Mitos versus Realidade: Historiadores apontam que a maioria das condenações à morte ocorreu no início da modernidade, muitas vezes por tribunais civis, não apenas pela Inquisição católica, e que houve exageros na contagem de vítimas.

Oposição: Figuras como o Padre Antônio Vieira no Brasil colonial foram notáveis opositores dos métodos da Inquisição.

Luta Dualista: A visão de mundo era fortemente maniqueísta: Deus/Bem versus Diabo/Mal. Maria e os santos eram vistos como protetores ativos contra o inimigo

Já o Diabo na Idade Contemporânea (Séc. XVIII - Presente), sua figura foi recontextualizada pela razão, ciência e secularização, tornando-se mais abstrata.

O "Demônio Interno": O diabo frequentemente simboliza os aspectos sombrios da própria natureza humana, representando a psicologia do mal, a tentação interna, o egoísmo ou desvios de comportamento.

Relativização e Simbolismo: Em uma sociedade pluralista, o diabo torna-se um símbolo de rebelião, liberdade, paixão ou áreas morais cinzentas, perdendo parte de seu caráter de "mal absoluto".

Cultura Pop e Mídia: O diabo é frequentemente retratado em filmes, séries e livros, às vezes de forma satírica, humanizada ou até heroica (como um rebelde contra um Deus opressor).

Persistência em Grupos Específicos: Apesar da secularização, crenças literais no diabo persistem em interpretações fundamentalistas de certas religiões, onde ele continua sendo o agente causador de doenças, desastres e problemas.

No final do período medieval, observa-se a formação de uma “contra sociedade” satânica, pois de acordo com Eduardo Leote Lima o caminho construído pelo Diabo estava seduzindo muitos fieis, “sendo capitaneada pelo próprio Satã e tendo nos hereges e bruxas seus principais agentes, a percepção da existência de uma contra-sociedade aprofundou a lógica do inimigo interno [...]” .

Os leprosos e judeus foram acusados de atentarem contra a cristandade antes dos próprios hereges e bruxas, ainda sim, a partir de 1348, o ano que a Peste Bubônica voltou a atacar violentamente a Europa Ocidental, as narrativas de fim dos tempos narradas em textos apocalípticos impactaram fortemente o imaginário da época.

De fato, desde que “o mundo é mundo” observamos que as culturas ocidentais e orientais elaboram formas de explicar as mazelas que nos afligem. Nesse esforço, a construção de uma figura maligna acaba assumindo os valores morais e comportamentos de menor prestígio em nossa cultura.

Nas religiões cristã, judaica e islâmica, o mal encarna a figura de um indivíduo que se opõe a Deus e busca atormentar a vida de todos os seguidores de tais religiões.

 

 

 

 

 

 

 

 

Referências

BASCHET, J. Diabo. In.: LE GOFF, J.; SCHIMITT, J.-C. Dicionário Temático do Ocidente Medieval. Bauru: EDUSC; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado, 2002.

DELUMEAU, Jean. História do medo no ocidente: 1300-1800, uma cidade sitiada. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

ELIAS, Norbert; SCOTSON, John L. Os estabelecidos e os outsiders: sociologia das relações de poder a partir de uma pequena comunidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000.

KOCHAKOWICZ, Leszek. Diabo. In. Enciclopédia Einaudi. Portugal: Imprensa Nacional Casa da Moeda, c.1987. v.12. p. 243-265.

MOREIRA, Maria Gabriela; TONELLI, Augusto Agostini. Quem foi que pariu o diabo? Uma narrativa sobre a construção do Mal cristão. Disponível em: https://share.google/wmCqiWmQnmBtNg Acesso em 15.2.2026.

 

NOGUEIRA, Carlos Roberto. O Diabo no imaginário cristão. São Paulo: EDUSC, 2000.

O’GRADY, Joan. Satã: o príncipe das trevas. São Paulo: Mercuryo, 1991.

RICHARDS, Jeffrey. Sexo, desvio e danação: as minorias na Idade Média. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993.

RUSSELL Jeffrey Burton. Lúcifer: o Diabo na Idade Média. São Paulo: Madras, 2003.

SCHMITT, Jean-Claude. Os vivos e os mortos na sociedade medieval. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

SILVA, Alex Rogério. As Representações do Diabo e do Monstruoso nas Cantigas de Santa Maria de D. Afonso X, o sábio. Disponível em: https://periodicos2.uesb.br/politeia/article/view/8227/6106 Acesso em 15.2.2026.

 

GiseleLeite
Enviado por GiseleLeite em 20/02/2026
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