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![]() Commedia Dell’Arte,
Commedia Dell’Arte,
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A Commedia Dell’Arte, nascida na Itália no século XVI, é baseada em personagens-tipo com máscaras fixas (exceto os amantes) e improvisação. Dividem-se entre servos ágeis (Zanni), velhos avarentos/sábios (Vecchi) e amantes (Innamorati), com destaque para Arlequim, Colombina, Pantaleão, Brighella, Doutor e Capitão. Eis os principais personagens da Commedia dell'Arte: Arlequim (Arlecchino): O servo mais famoso, ágil, ingênuo e palhaço, conhecido por seu traje colorido de losangos. Colombina: Criada inteligente, graciosa e astuta, frequentemente namorada de Arlequim e a única mulher sem máscara. Não ocultava a sua origem e pobreza. Pantaleão (Pantalone): Velho veneziano rico, avarento e conservador que muitas vezes atrapalha o amor dos jovens. Brighella: Servo astuto, cínico e trapaceiro, frequentemente em posições superiores a outros Zanni. Il Dottore (O Doutor): Um velho acadêmico pedante e arrogante, que fala muito e age pouco. Il Capitano (O Capitão): Militar fanfarrão, orgulhoso e covarde, finge ser bravo, mas foge ao menor perigo. Pulcinella (Polichinelo): O corcunda de nariz longo, às vezes servo, outras patrão, conhecido por sua natureza sarcástica e, por vezes, violenta. Pedrolino (Pierrot): Servo fiel, honesto e tímido, muitas vezes apaixonado não correspondido por Colombina. Innamorati (Os Amantes): Jovens nobres, vaidosos e passionais (como Isabella, Lelio, Flavio), que não usam máscaras e movem a trama romântica. Essas figuras influenciaram o teatro clássico, com muitos personagens incorporados por Molière. Quando o conceito de Commedia dell’arte surgiu na Itália no começo do século XVI, inicialmente significava não mais que uma delimitação em face do teatro literário culto, a commedia erudita. Os atores dell’arte eram, no sentido original da palavra, artesãos de sua arte, a do teatro. Foram, ao contrário dos grupos amadores acadêmicos, os primeiros atores profissionais. Tiveram por ancestrais os mimos ambulantes, os prestidigitadores e os improvisadores. Seu impulso imediato veio do carnaval, com os cortejos mascarados, a sátira social dos figurinos de seus bufões, as apresentações de números acrobáticos e pantomimas. As companhias de commedia dell’arte mantinham forte tradição familiar e artesanal. Itinerantes, percorriam toda a Europa, apresentando-se em vilas, cidades e lugarejos. A habilidade de improvisação se adequava bem às condições que encontravam no caminho, pois nem sempre havia lugar adequado para as apresentações. Se às vezes se apresentavam em salões de palácios, patrocinados por nobres, noutras mostravam seu trabalho nas ruas e praças, sobre tablados, dispensando cenários e outros elementos de cena. O contraste da linguagem, status, sagacidade ou estupidez de personagens predeterminadas assegurava o efeito cômico. A tipificação levava os intérpretes a especializar-se numa personagem em particular. Os personagens da Commedia dell’arte são divididos em três categorias: os zanni são os personagens de classe social mais baixa. Os servos. Os vecchi que representam os de classe social mais abastada e os innamorati, os amantes que querem se casar. Arlecchino – também conhecido como Harlequin, é um palhaço. Um dos zanni. Acróbata, amoral, glutão. É facilmente reconhecível pela roupa branca e preta com estampa em forma de diamantes. O papel algumas vezes é substituído pelo Truffeldino, seu filho. Sua máscara possui uma testa baixa com uma verruga. Algumas vezes, usa um lenço negro sob o queixo e amarrado no alto da cabeça. Geralmente, Arlecchino é o servo do Pantalone, às vezes do Dottore. Ele ama Colombina, mas ela apenas o faz de idiota. Brighella – Um trapaceiro, de pouca moral e desmerecedor de confiança. É retratado como agressivo, dissimulado e egoísta. Il Capitano – Forte e imponente, mas não necessariamente heroico, geralmente usa uniforme militar, mas de forma exagerada e desnecessariamente pomposa. Conta vantagens como guerreiro e conquistador, mas acaba desmentido. Capa e espada são adereços obrigatórios. Columbina – A contrapartida feminina do Arlecchino. Usualmente retratada como inteligente e habilidosa. É uma das servas, uma zanni. Algumas vezes, utiliza roupas com as mesmas cores do Arlecchino. Dottore – O doutor. Visto como o homem intelectual, mas geralmente essa impressão é falsa. Ele é o mais velho e rico dos vecchi. Geralmente, interpretado como um pedante, avarento e sem o menor sucesso com as mulheres. Usa uma toga preta com gola branca, capuz preto apertado sob um chapéu preto com as abas largas viradas para cima. Os Innamorati são os amantes. O innamorato e a innamorata têm muitos nomes. (Isabella era o nome mais popular usado para a innamorata). Eles são jovens, virtuosos e perdidamente apaixonados um pelo outro. Eles usam os trajes mais belos e de acordo com o período e a moda vigente e nunca usam máscara. Geralmente, cantam, dançam ou recitam poemas. Pantalone – Um dos vecchi. Geralmente, muito rico e muito avarento. O arquétipo do velho pão-duro. Não se preocupa com mais nada além de dinheiro. O cavanhaque branco e o manto negro sobre o casaco vermelho, possui uma filha casadoira ou é ele próprio um cortejador tardio. Pedrolino, – Também conhecido como Pierrot ou Pedro, é o servo fiel. Ele é forte, confiável, honesto e devotado a seu mestre. Ele também é charmoso e carismático e usa roupas brancas folgadas com um lenço no pescoço. Pulcinella – Muitas vezes conhecido como “Punch”. O esquisito, inspirador de pena, vulnerável e geralmente desfigurado. Na maioria das vezes, com uma corcunda. Muitas vezes, não é capaz de falar e, por isso, comunica-se através de sinais e sons estranhos Sua personalidade pode ser a de um tolo, ou de um enganador. Tem a voz estridente e sua máscara tem um nariz grande e curvo, como o bico de um papagaio. Scaramuccia – Também conhecido como Scaramouche, é um pilantra. Usa uma máscara de veludo negro, assim como também são suas roupas e seu chapéu. Um bufão, geralmente retratado como um contador de mentiras covarde. Pantaleão é o patrão por excelência, de origem popular, enriqueceu com o comércio em Veneza, tem duzentos e noventa e cinco anos e é muito avarento. Envelheceu como uma árvore tornando-se ressecado, raquítico. As suas costas são estreitas. A única coisa que o sustenta para cima é a sua corcunda, todo o resto o puxa para baixo. A gravidade exerce sobre ele um efeito exagerado. Os braços se esticaram, os dedos são longos e movem-se como antenas de insetos. As mãos estão sempre prontas a contar o dinheiro ou a esfregar-se uma na outra em vista de um bom negócio. Pantaleão são as cordas esticadas de um violino. As mãos para trás das costas apoiadas ao sacro é a postura mais comum. A barba e a boca (sem dentes) também tendem para baixo. Os pés são abertos, os dedos apontam para fora, os calcanhares se tocam, os joelhos tentam levantá-lo, mas as pernas permanecem abertas devido ao peso que ele carrega no meio. Os passos pequenos e secos partem do calcanhar. Apesar de sua velhice, ele é cheio de energia, veloz e ardil, é capaz de dar um salto mortal por uma moeda ou para apalpar uma bela ninfeta. Quando há uma explosão de energia seus cotovelos se levantam para traz em tensão e as palmas das mãos ficam viradas para frente. O quadril é sempre para baixo. Sem ser capaz de nenhuma atividade sexual se limita a recitar poesias, é o mais poético, sempre empenhado em escrever sonetos para as mulheres da companhia. Arlequim é o servidor mais famoso da Commedia dell'Arte, nasceu no século XVI, e conserva características de animal, de boneco, ou do diabo. O material dele seria a madeira. Quando pisa o chão é duro e resistente, mas é leve e veloz quando salta. Imagina-se as articulações presas por fios, todas elas no ar são macias, mas quando os pés tocam o solo se tornam rígidas. O alternar-se entre relaxamento e tensão, em ritmos diversos é que faz o Arlequim. Ele tem um chifre cortado e a cabeça gesticula como se quisesse chifrar a consciência boa e má. É um grande folgado e faz de tudo para fugir do trabalho. O calcanhar plantado na frente é uma espécie de freio. Os joelhos bem dobrados em forma de losango dão a impressão de força e teimosia, o baricentro é muito baixo. O Capitão transmite temor e admiração. Apresenta-se aos outros como o mais temível e belo de todos os soldados. Nas suas fanfarrices ele afirma que destruiu sozinho exércitos inteiros com um só espirro, espantou os diabos do inferno com uma só risada. Mas, no fundo, o Capitão é um covarde, que tem medo de tudo, inclusive da sua própria sombra. A sua verdadeira máscara física é cheia de nós, com as pernas dobradas e tremendo, os joelhos voltados internamente que se tocam e se batem um com o outro. O corpo enrijecido, os braços tortos ou a pêndulo, vibrante de medo, o pescoço enterrado temendo que algo caia do céu. A Serva apresenta uma exuberante e desinibida feminilidade. Não usa a máscara entrando em contradição com a figura mostrada por Duchartre. As mulheres não eram maioria no teatro, ficando para os homens, algumas vezes, o desempenho dos papéis femininos. Quando acontecia de uma mulher de verdade entrar na companhia, eles a usavam para atrair o público. Esse foi o destino da Serva no século XVII, a atriz, ao mesmo tempo em que era rechaçada, era também cobiçada. Ela era embelezada, aparecendo com a cintura apertada, o quadril alargado, os seios suspensos, os cabelos cacheados ou trançados, usando vestidos populares, mas graciosos, com aventais presos na cintura, com saias suspensas lateralmente para que a anágua ficasse à mostra. Ela era especializada em atrair o público, sabia seduzir, mas também fugir na última hora, era o tipo feminino do Arlequim, tinha inclusive o passo duplo dele, somente mais leve. Também tinha o pé apoiado no calcanhar. Sempre alegre e um pouco rebelde. Os braços e as mãos apoiados no quadril com movimentos sinuosos que envolvem os ombros e o busto evidenciando os seios redondos. Para seduzir punha em evidência o seu corpo: ventre, seios e quadril, como quem diz: "pode olhar...,mas não pode tocar". O importante não é a exuberância física dos atores, mas a qualidade do movimento que exponha a região, um seio ou um glúteo por vez. As mãos ajudam a evidenciar a região escolhida. Quanto mais ela promete, mais está pronta a negar O mais baixo da escala social, tem roupas sempre rasgadas e uma fome voraz, empurrando o ventre para frente e contraindo o umbigo. Chegando em Veneza pisa leve, com a ponta dos pés, no chão vítreo ou nos tapetes persas, criando uma espécie de caminhada do Zanni-Ladrão. A boca sempre aberta mostra o seu deslumbramento, surpreende-se com qualquer coisa, com a cabeça nas nuvens, tem o pescoço alongado. Ele faz tudo para agradar o patrão, e quando este o chama parece um cão alegre com o dono. Com passos largos, como uma tesoura, move-se freneticamente, mas não sai do lugar, está sempre pronto, disponível, com inclinações e gestos obsequiosos. Mas, se o patrão faz menção de quem vai bater no Zanni a mesma corrida à tesoura leva-o rapidamente para longe. No Festival de Uma Cia Só, o Zanni foi nossa inspiração principal para a criação do Covielo interpretado por Rogerio Tomás, um servo mais velho que não possui tanta fama e imagens quanto o Zanni. A análise psicanalítica dos personagens da Commedia dell'Arte (séculos XVI-XVIII) revela um rico estudo sobre arquétipos do inconsciente coletivo, desejos reprimidos, mecanismos de defesa e estruturas sociais de poder, operando principalmente através de máscaras que liberam impulsos. Os personagens funcionam em um ciclo de repetição sem desenvolvimento interno, focados no "aqui e agora" e movidos por necessidades básicas: amor/sexo, dinheiro e comida. 1. Os Vecchi (Patrões/Velhos) - O Superego Rígido e Avaro Representam o poder, a autoridade falha e a repressão. Pantalone (O Mercador): Psicanaliticamente, representa a fase anal na sua forma mais patológica: avareza, acúmulo e medo de perder o controle. Sua obsessão pelo dinheiro e desejo sexual por mulheres jovens (ao mesmo tempo que é impotente ou tolo) espelha uma senilidade que tenta reter a vida e a riqueza (o anel, o dinheiro) a todo custo. Il Dottore (O Pedante): Representa a intelectualidade vazia e a negação. Ele sabe tudo, mas não entende nada. Sua verborragia dialetal é uma defesa contra a própria ignorância e impotência sexual/social.
2. Os Zanni (Criados) - O Id e a Liberação dos Impulsos Representam o inconsciente, a astúcia e a sobrevivência. Arlecchino (Arlequim): É a figura do "Id" puro. Ignorante, mas astuto, age por impulso (fome, desejo) sem moralidade, vivendo no momento. Sua agilidade física contrasta com sua lentidão mental. Psicanaliticamente, é uma forma de "trickster" ou diabo medieval[1], representando o caos que desestabiliza a ordem dos Vecchi. Brighella: O lado negro e astuto do Zanni. Diferente de Arlequim, é calculista, ganancioso e manipulador (a "mente" cínica). Representa o egoísmo narcisista. Colombina: É a criada esperta, frequentemente a mais inteligente em cena. Ela representa o contraponto feminino ao caos masculino, utilizando a inteligência e a sensualidade para manipular o poder (Patrões) e os impulsos (Criados). Pulcinella: O tolo/cruel. Frequentemente melancólico e físico (corcunda), representa o desejo reprimido que se expressa através de violência súbita ou comportamento sexual bizarro, com frequência ligado a uma disfunção/deformidade. 3. Os Innamorati (Enamorados) - O Narcisismo e a Perda de Realidade Isabella/Flavio: Eles não usam máscara, simbolizando que são movidos por um ego inflado e imaturo. Vivem em um estado de "amor narcísico", apaixonados mais pela imagem do amor e por si mesmos do que pelo outro. São infantis, frágeis e dependentes da validação externa (geralmente dos pais ricos ou de dinheiro). Pulcinella: O tolo/cruel. Frequentemente melancólico e físico (corcunda), representa o desejo reprimido que se expressa através de violência súbita ou comportamento sexual bizarro, com frequência ligado a uma disfunção/deformidade. Em resumo, a Commedia dell'Arte é uma encenação dos conflitos psíquicos onde o Id (Zanni) constantemente subverte o Superego (Vecchi), enquanto o Amor/Narcisismo (Innamorati) tenta sobreviver no meio da confusão.
[1] O conceito de diabo na Idade Média evoluiu de um adversário passivo (início) para uma força ativa e maligna, personificando o mal absoluto e a tentação. Visto como um anjo caído e inimigo de Deus, Satanás foi moldado imageticamente com chifres, pés fendidos e características monstruosas, simbolizando o caos e a rebelião. Eis os pontos principais sobre o conceito de diabo medieval: Evolução da Figura: No início da Idade Média, o diabo era visto mais como um tentador ou o "acusador" (sentido original de diabolos), semelhante ao Antigo Testamento. Com o tempo, especialmente na Baixa Idade Média, tornou-se o inimigo agressivo e o senhor dos demônios que atormenta a humanidade. Aparência: Representado na arte e literatura com traços híbridos e bestiais — chifres, cauda, asas de morcego e pés fendidos —, o diabo medieval incorpora o medo do irracional e do caos, muitas vezes agindo como uma figura monstro. Atuação: O diabo era visto como o autor de tentações, pecados, doenças e possessões demoníacas. No entanto, sua atuação era limitada, pois acreditava-se que ele só podia agir com a permissão divina. Representações Literárias: A Divina Comédia de Dante (século XIV) retrata Lúcifer não como um rei ígneo, mas sim congelado no centro do Inferno, destacando-o como o maior dos traidores derrotados. Construção do Mal: O conceito servia para explicar as desgraças (pestes, fome, guerras) e manter o controle moral através do medo do inferno e da danação eterna. GiseleLeite
Enviado por GiseleLeite em 15/02/2026
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