Morna... muito morna...
Tia Zilá era sábia e falou: -"água morna em pedra dura, tanto bate até que fura". De fato, precisamos de persistência para vencer as dificuldades e os desafios da vida. Zilá era filha bastarda de meu tio Nathaniel que fora fazendeiro, fanfarrão e mulherengo. Minha tia, uma alma de outra galáxia, quando soube que Zilá era filho de seu marido, não tardou em aceitar Zilá em sua casa e, tratá-la como fosse uma filha adotiva... Os fofoqueiros e moralistas de plantão interrogaram-na até à exaustão, por que aceitou?... E, minha tia Nilda afirmou com ar absorto: - a criança não tem culpa de nada... Ademais, é Nathaniel que não pode ver um rabo de saia. Ademais, vejam as feições da menina é quase uma cópia do Nathaniel. Nilda se afeiçoou a menina. E, a criou com esmero e afeto. E, a chamava de filha. Para revolta dos moralistas intrépidos que recomendavam a vil vingança. Nilda tinha tido três filhas: Adelaide, Áurea e Aurora... e, agora só restou a Zilá... Adelaide casou-se, aos dezessete anos, e foi morar na Austrália, mui raramente, via o resto da família. Ademais, subitamente passou a odiar o Brasil e achar tudo daqui brega, feio e pobre. Áurea foi para Alemanha fazer faculdade, depois fez mestrado e doutorado, casou-se com um alemão dono de uma fábrica de doces e, também nunca mais pôs os pés no Brasil. Era afetuosa e sempre ligava por Skype para a mãe... mas, presencialmente era impossível. Ligava duas vezes por semana: as quartas e sábados... Apresentou os filhos, netos de Nilda pelo Skype... eles só falam alemão e, então a comunicação era complicada. Mas Áurea prometeu colocar os dois filhos para aprender a língua portuguesa... Aurora, a caçula, faleceu aos quinze anos, subitamente por problemas cardíacos graves e que foram descobertos mui tardiamente... Aurora... faleceu torcendo pelo Brasil durante a partida de futebol na Copa do mundo.... Minha tia Nilda daí para adiante passou a detestar futebol... Zilá, todavia, estudou, fez Pedagogia, era professora e, se aposentou... Não quis casar-se... Chegou até noivar, mas o então noivo era alcóolico, e então, ela desistiu do casamento... A desilusão lhe fazia recordar do pai... Zilá cuidava de Nilda com carinho e afeto e, principalmente, atenção... Pois, Nilda era hipertensa e também cardiopata tinha que tomar muitos medicamentos e, ainda, observar uma dieta cuidadosa. Zilá gostava da vida de solteira, era o que diziam ser a solteirona... Segundo ela, assim ela tinha tempo para as coisas que gostava de fazer, escrever e, principalmente, esperar por dias melhores, pois a esperança é a nutrição da alma... Insistência tinha em sobreviver e, em acreditar na educação. Afinal, água morna em pedra dura, tanto bate até que fura...