Senha
Errei a senha
Pensei no número
E digitei outro...
Autosabotagem.
Guardei a camiseta...
tão bem arquivada
que não sei onde está...
E, a cabeça martelando.
Chamando-me de idiota,
senil e, ainda, néscia.
Como é possível esquecer
coisas triviais
na prateleira dos dias...
As manhãs com raios ofuscantes
As tardes com tons escaldantes
E a noite escura e morna como leite...
As estrelas alucinam e iludem.
Enxergamos tão pouco do mundo.
Somos míopes, cegos e estúpidos.
E, ainda há os vaidosos de plantão...
A agitar o ego diante da metafísica.
Ou que sabe, da força da gravidade...
Errei a senha.
Só se pode errar três vezes.
Já estou na segunda...
Vou desistir...
Arre...
Meu amigo Cosme
depois de vinte anos
de convivência
Partiu...
sofria de câncer e de dores...
Estou arrasada.
As lágrimas queimam minha face
a agonia líquida escorre
e percorrendo a metafísica
pinga no chão...
A iniquidade é nossa sina.
A morte é a única certeza
o ponto final.
o ponto fulcral.
O fim... ou será o começo?
Meu kharma é longo e ruim.
Ser diferente.
Sofrer por ser diferente.
E, sobre a diferença erguer
um precipício...
o abismo sem Minotauro.
o voar sem Ícaro
o trair sem Cleópatra.
E, o pior, sofrer como Othelo
De sua pseudotraição.
De sua alma encharcada de culpa
e medo.
Não errar a senha.
Não decifrar enigmas.
Viver com parte da realidade
E, acreditar que é inteira.