"O conhecimento é o mais potente dos afetos: somente ele é capaz de induzir o ser humano a modificar sua realidade." Friedrich Nietzsche (1844?1900).
 

Professora Gisele Leite

Diálogos jurídicos & poéticos

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O capital chamado sexo.

 

O capital chamado sexo.

 

Resumo: O capital erótico ou capital sexual é o poder social que uma pessoa tem por ser considerada atraente, sedutora e charmosa. Foi conceito criado pela socióloga Catherine Hakim. E, suas características são: combinação de atributos físicos, sociais e emocionais; incluir a beleza física sex appeal, dinamismo, talento, charme e habilidades sociais bem como competência sexual. É tão importante tanto quanto outras formas de capital, tais como educação, erudição ou experiência. O capital social certamente poderá ser significativo por representar um sucesso pessoal e profissional. E, pode ser ferramenta eficaz para firmar seu lugar no mercado de trabalho.

 

Palavras-chave: Capital. Troca. Relações Sociais. Relações Sexuais. Habilidade social.

 

 

Derivado de valor social como a beleza, atratividade e capacidade sexual, nas derradeiras décadas tem sido alvo de fervorosos debates quanto à sua legitimidade, sendo usado como estratégia de ascensão social e até como diminuição de desigualdade de gênero no mercado laboral.

 

Em verdade, o também alcunhado de capital erótico surgiu com múltiplas configurações, desde uma propriedade embutida até uma moeda fácil em determinadas relações. Devemos entender que a crença sobre os papéis de gênero foi instituída e naturalizada e conta com uma longa história de formação e consolidação popular.

 

E, está vinculada há muitas expressões que procuram definir as mulheres que fazem uso do sexo e de atratividade para obter francos benefícios sociais, visto como forma de subverter as regras sociais e, aproximando-as de uma função tipicamente marginalizada que é prostituição.

 

Ao comentar sobre o erotismo nos deparamos com imensa complexidade estrutural e não se pode avançar em sua definição nem tão pouco demarcar os históricos momentos quando de seu surgimento na esfera privada. Aliás, Michel Foucault nos permitiu a perceber a vasta história da sexualidade humana, porém, nos deu poucas pistas a respeito da scientia sexualis ou mesmo da ars erotica que se cruzam e delimitar tais categorias a cada realidade histórica.

 

Ademais, o erótico na modernidade apresenta o desejo no erotismo que até triunfa sobre o tabu. Nossas preocupações sobre erotismo e sexualidade fora aos poucos sendo desconstruída e o amor se traduz numa troca de capitais, a saber: o erótico pelo erótico, o erótico por social, o erótico por econômico, entre tantas outras formas.

 

Adentrando a sexualidade ocidental nascida no século XIX Foucault rejeitou ativamente a forma indicativa e pouco empírica. E, o fato de se conceber o sexo ainda que respeita apenas aos indivíduos num relação romântica, dificulta em muito o discurso sobre a sexualidade. E, muitas interrogações nos ocorrerem principalmente sobre a normatividade sexual de matriz judaico-cristã, tendo criado certa pluralidade de visões contrastantes sobre a legitimidade do capital sexual e erótico enquanto sendo acumulável, manipulável e embutido nos indivíduos e nas estruturas e passível de trocas por outros tipos de capitais.

 

O mito de Cleópatra serve para mostrar que a concepção e visão da sexualidade na sociedade está relacionada a uma situação sociopolítica e, ainda, como conceber a mulher e o mundo de forma distinta e conhecida por todos principalmente, com a industrialização.

 

Cada identidade social carrega um guia sexual relativamente homogêneo. O capital erótico se revela mais claramente com as interações sociais mediadas pela sexualidade e, instruídas por esses mesmos guias, que não são lineares, sendo presentes em todas as relações entre dois indivíduos.

 

E, no campo de interações intrapsíquicas há a construção de um tipo ideal de indivíduo sexual bem alicerçado na sociedade moderna sendo externalizado num habitus e numa cultura erótica dominante. Segundo Hakim, o capital erótico é uma quarta competência individual, situada ao lado do capital social, cultural e econômica, conforme apontou Pierre Bourdieu.

 

O capital erótico está ligado ao capital cultural ou social sendo componente diferente em face de sua expressão ocorrer em múltiplos campos, ligado a performance, ressaltando seu caráter relacional. Deve-se conceber uma forma de capital erótico ou sexual que atenda e responda a um conjunto de questões sobre a sua individualização, apropriação e utilização por parte dos indivíduos, inseridos num contexto estrutural de campo. Noutros termos, não somente o campo sexual mas a imposição cultural sofrida.

 

O modelo de distribuição do capital erótico atende aos aspectos cultural, econômico e simbólico. Segundo Green (2008, 2011), a sistematização e o modo como esta distribuição se alicerça no campo está dependente de seis processos internacionais básicos:

(1) o reconhecimento do campo e das relações de competição associadas;

(2) a percepção de um ‘tipo ideal’ do campo, constituído por valoração de atratividade sexual;

(3) a formulação da posição de um indivíduo no campo sexual;

(4) a valoração dos outros nesse mesmo campo;

(5) o conhecimento dos procedimentos de construção do self, e estratégias de negociação;

(6) e a habilidade de “preservação da reputação”. Objetivando, o indivíduo procura identificar-se a si e aos outros no campo, de forma a formular a melhor estratégia de abordagem.

 

Afinal, qualquer relação de desejo desta natureza terá pouco interesse na construção histórica da sua natureza – mas consideramos fulcral para poder conceptualizar a presença do capital erótico na vida social denotar, igualmente, o modo como este se relaciona com múltiplas outras formas de dominação e submissão socialmente distribuídas, de modo a poder, em momento posterior, desenhar estratégias de ação e mobilização ou empoderamento que tomem por referente estes fatos.

 

 

 

Referências

 

 

Almeida, Rodrigo Nicolau; Massa, Vitor. Sobre o Capital Erótico. Disponível em: https://isociologia.up.pt/sites/default/files/working-papers/wp29_160808032449.pdf

Foucault, Michel. (1978). A History of Sexuality: Volume 1 - An Introduction. New York: Pantheon Books.

Foucault, Michel. (2002). The Archaeology of Knowledge. London and New York: Routledge.

Freud, Sigmund. (1905). Three Essays on the Theory of Sexuality. s.l.: s.n.

Habermas, Jürgen. (1984). Theory of Communicative Action. Boston: Mass: Beacon Press.

Hakim, Catherine. (1980). Census Report as documentary evidence: the Census commentaries 1801-1951. Sociological Review, 28 (3): 551-80

Green, Adam Isaiah. (2008). The Social Organization of Desire: The Sexual Fields Approach. Sociological Theory, Volume 26, pp. 25-50.

Green, Adam Isaiah. (2011). Playing the Sexual Field. Social Psychology Quarterly, Volume 74, pp. 244-266.

 

 

GiseleLeite
Enviado por GiseleLeite em 17/02/2025
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