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![]() Em sua definição, a pós-verdade corresponde a uma informação ou asserção que distorce deliberadamente a verdade, ou seja, o que é real e concreto, sendo caracterizada pelo forte apelo à emoção humana e, com base em crenças difundidas, em detrimento de fatos reais apurados, tende a ser aceita como verdadeira, influenciando a opinião pública, comportamentos sociais e, ideologias políticas. Noutros termos, a verdade perdeu o valor e, não mais nos guiamos pelos fatos, mas sim, pelo que escolhemos ou queremos acreditar que é a verdade. E, na internet encontrou-se um terreno fértil para propagação de mentiras sempre comprometidas na trincheira dos haters. Apesar de termos levado tanto tempo e esforço para aperfeiçoar uma visão científica dos fatos e da realidade, para construir a isenção do jornalista, a independência editorial e, de repente, ao presenciarmos o debate político testemunhamos a exposição de versões que deseja prevalecer à socos e pontapés, em detrimento de qualquer cientificidade. O fenômeno das fake news pode ser encarado como a disseminação, por qualquer meio de comunicação, de notícias, de falsidades noticiosas com a intenção de atrair a atenção e para desinformar ou ainda obter vantagem política ou econômica. E, assim, pode-se considerar que por parte daqueles que veiculam as notícias falsas, há uma vontade de desinformar e manipular o seu interlocutor e ainda encaminhá-lo a dissuasão referente à disposição de espírito anterior acerca de qualquer assunto. Já Christian Dunker acentua que alguns consideram que o discurso da pós-verdade corresponde a uma suspensão completa de referência aos fatos e verificações objetivas, substituídas por opiniões verosímeis apenas à base de repetições, sem a devida confirmação ou mesmo menção das fontes. A pós-verdade é fenômeno complexo pois envolve uma combinação estratégica de observações corretas, interpretações plausíveis e fontes confiáveis e, uma mistura que é, no seu conjunto, é absolutamente falsa e interesseira. (Dunker, 2017 apud SEIXAS). Evidencia-se que nesses discursos, ou seja, nesses enunciados comprovadamente verdadeiros, em relação aos fatos efetivamente comprovados e interpretações verossímeis e induções razoáveis o que confere ao fenômeno traços que vão além da vetusta mentira política. O que é mais acentuado na era da pós-verdade é a indisponibilidade ao diálogo, entre as distintas opiniões, pela consideração subjetiva e valorativa, com a vocação de se conhecer a única verdade possível sobre certa questão. Em isso se dá devido à existência de um conjunto de vieses cognitivos, dentro dos quais, o da confirmação, a saber, a tendência em tratar preferencialmente as informações que confirmem nossas crenças em detrimento das que as invalidam (BRONNER, 2013 apud SEIXAS). No fundo, a pós-verdade apenas evoca um autoritarismo de interpretação e que impele os sujeitos e já predisporem de determinada leitura cativa dos fatos, rejeitando o que distingue, compartilhando o que assemelha, sem maiores reflexões acerca do que ali resta informado como sendo verdade. Há, portanto, algo de bastante retórico, não meramente pela questão da (im)persuasão possível de ser observada nesse fenômeno, mas, sobretudo, pelo caráter retórico desde a percepção da realidade, pelo movimento cognitivo e argumentativo de seleção do que se divulga e do que se rejeita.” “De acordo com Katia Maia, diretora-executiva da organização [Oxfam Brasil], ‘o governo atual se especializou em disseminar o pós-verdade para eximir-se da responsabilidade pelos graves problemas que o país enfrenta, e isso em nada contribui para que tenhamos as soluções necessárias’. O semanário The Economist deu a capa de sua última edição para uma interessante reportagem sobre a política ‘pós-verdade’. Ilustra o conceito com Donald Trump afirmando que Barack Obama é o criador do Estado Islâmico e a campanha do Brexit dizendo que a permanência do Reino Unido na União Europeia custa US$ 470 milhões por semana aos cofres britânicos. Não é preciso mais do que alguns neurônios e um computador para descobrir que ambas as afirmações são falsas, mas, ainda assim, elas prosperaram.” Em 2016, a pós-verdade foi eleita pelo Dicionário Oxford como a palavra do ano trata-se de um adjetivo que significa relacionado a ou que indica circunstâncias em que os fatos objetivos são menos influentes na formação da opinião pública do que os apelos à emoção e à crença individual. Supõe-se que a palavra "pós-verdade" tenha sido empregada pela primeira vez neste sentido em um ensaio de 1992 do falecido dramaturgo sérvio-americano Steve Tesich na revista The Nation. Refletindo sobre o escândalo Irã-Contras e a Guerra do Golfo Pérsico, Tesich lamentou que “nós, como um povo livre, decidimos livremente que queremos viver em um mundo pós-verdade”. Há evidências de que o vocábulo "pós-verdade" tenha sido usado antes do artigo de Tesich, mas aparentemente com o significado de ‘depois que a verdade foi conhecida’, e não com o novo sentido de que a própria verdade se tornou irrelevante. Ainda em 2004, uma obra intitulada "The Post-Truth Era", de autoria de Ralph Keyes, e no ano seguinte, o comediante norte-american Stephen Cobert popularizou a palavra informal relacionada ao mesmo conceito: truthiness, definida pelo Dicionário Oxford como a qualidade de parecer ou ser percebido como verdade, mesmo que não o seja necessariamente. De qualquer forma a expressão "pós-verdade" resta incluída no vocabulário cotidiano e contemporâneo está presente na mídia, nas escolas, no ambiente de trabalho e, até mesmo, nas conversas em família. Tornou-se importante quando relacionado a dois fatos extremamente importantes da política mundial, a saber: a eleição de Donald Trump para a Presidência dos EUA e a vitória do plano que prevê a saíde do Reino Unido da União Europeia, mais conhecida pela sigla brexit (abreviatura de Britain exit). Outras vezes, a palavra é tomada como sinônimo de informações falsas ou fake news. Porém, frise-se que não se equivalem. O termo "pós-verdade" já utilizado por Steve Tesich em 1992, em sua análise sobre a Guerra do Golfo e, estava presente no título de uma obra de Keyes que foi publicada em 2004. Em realidade, o que se conhece hoje como pós-verdade tem haver com uma conjunção de diversos fatos ou fenômenos que já vinham aconteccendo há décadas ou que sempre acompanharam a humanidade, em alguns casos, mas que se relacionaram ou interagiram de uma determinada maneira somente nos derradeiros anos. E, os grupos empresarias das indústrias de tabaco criaram, então, o Tobacco Industry Research Commitee, com o fito de financiar cientistas que demonstrasse o contrária, que não havia evidências conclusivas dos males causados pelo fumo. O segundo fator é chamado de viés cognitivo ou viés de confirmação, ou ainda, a dissonância cognitiva humana. Revela-se em ser uma tendência do ser humano em tornar suas crenças e visões de mundo sem calcar-se na razão e nas evidências, ou seja, nos concretos fatos, em um esforço para evitar o descontentamento psíquico. Nos estudos clássicos da psicologia social conduzidos nos EUA, nas décadas de 1950 e 1960, que bem demonstraram essa questão. O primeiro estudo refere-se a teoria da dissonância cognitiva de Ferstinger, segundo a qual buscamos harmonia entre nossas crenças e ações. O segundo estudo é a teoria da conformidade social de Asch que postula que termos tendência a ceder à pressão social por nosso desejo estar em harmonia com os outros. E, o derradeiro estudo é do viés de confirmação de Watson que identificou nossa tendência a dar maior peso às informações que confirmam as nossas crenças pré-existentes. O conceito de dissonância cognitiva remete à necessidade, do indivíduo, de procurar coerência entre suas cognições (conhecimento, opiniões ou crenças). A dissonância ocorre quando existe uma incoerência entre as atitudes ou comportamentos que acredita serem certos e o que realmente é praticado. Em outras palavras, quando uma pessoa possui uma opinião ou um comportamento que não condiz com o que pensa de si, das suas opiniões ou comportamentos, ocorre uma dissonância. Quando os elementos dissonantes são de igual relevância ou importantes para o indivíduo, o número de cognições inconsistentes determinará o tamanho da dissonância. No estudo, os autores defendem que a dissonância cognitiva inclui tanto elementos cognitivos como elementos emocionais: “Como Festinger descreve, é um estado psicologicamente desconfortável, mas gerado por cognições inconsistentes”. Em síntese, a dissonância cognitiva é um construto cognitivo e emocional, que resulta em um estado de desconforto, angústia e/ou ansiedade causada quando há inconsistência entre as cognições. A magnitude da dissonância varia conforme a importância e discrepância entre as cognições. Uma vez que a dissonância cognitiva é disparada, o indivíduo irá acionar mecanismos psicológicos diversos para reduzir ou eliminar a dissonância. E, com o surgimento e expansão da mídia partidária, sobretudo de extrema-direita, menos preocupada com os fatos e, mais enfática no engajamento ideológico dos públicos por meio do emocional. E, em terceiro lugar, com a obsessão, por parte de alguns veículos da mídia, com um ideal de objetividade que lveou a promover a falsa equivalência, sugerir que dois pontos de vista têm igual valor, quando obviamente O quarto fator é auge das redes sociais que formaram ambiente privilegiado onde as pessoas recebem notícias e informações do mundo. E, são construídas a partir de algoritmos que selecionam o que provavelmente as pessoas querem ou o que concorda com o ponto de vista delas, em um fenômeno denominado de "efeito bolha". Há outra questão que é a existência de redes sociais em que as mensagens são disparadas em massa diretamente para os dispositivos das pessoas, sem que se possa monitorar ou se contrapor a estas, em uma lógica subterrânea de disseminação da informação. O quinto valor refere-se a relativização da verdade promovida pelo pós-modernismo que se desenvolveu ao longo do século XX como um movimento artístico, cultural e filosófico. E, entre suas características está o questionamento da ideia de existência de uma verdade absoluta e única, isto é, não existiria uma resposta absolutamente correta sobre i que cada elemento da realidade significa. A pós-verdade é estruturada em dois processos. O primeiro é a formação de bolhas ou câmaras de eco nos quais os usuários ficam isolados, fechados as novas ideias, assuntos e informações importantes, sobretudo, na política e, acabam se expondo, quase somente as visões unilaterais dentro do espectro político mais amplo. E, o segundo processo segundo Santaella é a disseminação de notícias falsas. Embora isso não seja novidade na história da humanidade. O fato inédito e novo é a ausência de regulações como aquelas que incidem sobre as instituições jornalísticas, em uma lógica em que toda informação teria o mesmo peso ou valor, independentemente de sua qualidade, de sua checagem e do compromisso institucional por detrás de sua produção. A pós-verdade se relaciona intimamente com a gigantesca disseminação de informações falsas que estão atuando para moldar a tomada de decisão de pessoas em diferentes esferas (seja na política, economia, educação, saúde, cultura e religião) em velocidade e quantidade nunca vistas. Diferentemente de outros períodos da história, quando era difícil ou até impossível checar a veracidade de informação, por exemplo, sobre o modo de vida de um país distante era verdadeira ou falsa, atualmente, de casa e em poucos segundo, se pode checar. Porém, as pessoas não fazem isso. E, aceitam como real e repassam e compartilham e se apropriam de informações sem antes de preocupar sua verificação ou veracidade. É esse desdém pela verdade que é o fato novo que a expressão "pós-verdade" pretende abarcar.
Referências ABL Academia Brasileira de Leras. pos-verdade Disponivel em: https://www.academia.org.br/nossa-lingua/nova-palavra/pos-verdade Acesso em 29.6.2023. Carretero, Alberto. DUNKER, Christian. Subjetividade em tempos de pós-verdade. In: DUNKER, Christian Elster, Jon. Sour Grapes: Studies in the Subversion of Rationality. Cambridge 1983. FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979. KEYNES, Ralph. The Post-Truth Era. Disponível em: https://hadinur1969.files.wordpress.com/2018/10/ralph-keyes-the-post-truth-era_-dishonesty-and-deception-in-contemporary-life-st-martin_s-press-2004.pdf Acesso em 29.6.2023. Negacionismo. Disponivel em: https://mundoeducacao.uol.com.br/curiosidades/negacionismo.htm SEIXAS, Rodrigo. A retórica da pós-verdade: o problema das convicções. EID&A – SWEENEY, J.C.; HAUSKNECHT, D.; SOUTAR, G.N. Cognitive Dissonance after GiseleLeite
Enviado por GiseleLeite em 29/06/2023
Alterado em 29/06/2023 Copyright © 2023. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
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