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recordação
saudades do doce de damasco,
do cheiro de abricot, da bananada do trem, do sorvete holandês cor de rosa clarinho. saudades do barulho das xícaras de louça fina a pousarem sobre o pires da nostalgia das estações nítidas e bem distintas: primaver, verão outono e inverno. o entardecer das histórias infantis do bicho papão, do ieti, das sombras enigmáticas das árvores das indecifráveis nuvens que nos perseguiam do pique-esconde, da amarelinha, do queimado, das bonecas de vestir e despir, de suas roupas, sapastos e perucas das sapatilhas de cetim. a recordação me veio hoje como um flash mágico a me arremessar dentro do túnel do tempo da declamação na escola, do piano no concerto da sala Cecília Meireles e, as aulas de sofejos quanto sofrimento para uma soprano contralto saudades dos chinelos de fivela, do topo-gigo, da graça paternal dos afagos dos avós das goiabeiras íngrimes, das ladeiras para os carrinhos de rolimã das bolas de gude, olho-de-gato da singular trigonometria do mata-mata tanta saudade e esse tempo passando teimando em me envelhecer, tempo pensando, transpassando por entre poros e lágrimas por entre rumos e trilhas aonde foi parar aquela poesia que ganhou o concurso? a blusa cujo bordado era o mais bonito? a amiga mais íntima o amigo tão engraçado e gordo ? estarão vivos ou estarão mortos? serão felizes e sobreviventes ou serão infelizes e carentes? terão seguido os estudos, ou as águas correntes ? terão constituído família ou são solitários e recessivos? engordaram mais, emagreceram mais ou manteram um perfil permanente? ou simplesmente ficaram mesmo parecidos com a lembrança que guardo agora e que bordou em meu coração a cicatriz da recordação
GiseleLeite
Enviado por GiseleLeite em 28/10/2007
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