"O conhecimento é o mais potente dos afetos: somente ele é capaz de induzir o ser humano a modificar sua realidade." Friedrich Nietzsche (1844?1900).

professora Gisele Leite

Diálogos jurídicos & poéticos

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Nunca fui exatamente crédula em assuntos sobrenaturais. Não obstante na família haver muitos espiritualistas, seguidores de Alan Kardec, que curiosamente fez mais sucesso no Brasil, do que propriamente em França, sua terra natal. Mas, estava aflita com a falta de notícias. Afinal, o ente querido estava fora do país, num lugar distante e gelado, e eu só tinha parcas notícias. O que deveria ser alvissareiro, pois diz o ditado que a má notícia corre sempre rápido.

Os primeiros baralhos divinatórios foram conhecidos nos idos do século XIV, depois advieram outras formas de advinhação. Mas, eu tinha tantas dúvidas e suspeitas que resolvi apelar para adivinhantes pois o racional não conseguia lidar bem com tanta falta de premissas.

A palavra "tarô "ou como em outros idiomas como tarot, tarock, tarok, tarocco ou tarocchi não possui uma tradução específica e, sua etimologia é desconhecida. Acredita-se, no entanto, que venha da palavra árabe turuq que significa literalmente quatro caminhos, ou talvez, da palavra tarach, que significa rejeito.

Eu iria consultar a cartomante portadora de 78 cartas para fins divinatórios, e cada arcano revelaria-me mistérios e segredos que tanto me abordam. Adentrei a uma casa comum, pintada de amarelo ovo, e fui recebida por uma senhora de aparência cigana e acessórios tilintantes... fiquei a pensar nos guizos dos gatos, e o quão são irritantes...

O nome dela era Giordanna parecia ter ascendência italiana, mas era brasileira mesmo. Havia um cheiro de incenso de alfazema no ar, era leve e agradável... e segundo a cartomante atraía os bons espíritos...

Fiquei a lembrar de Hamlet que dizia que "há mais coisas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia". Tomei cautela ao adentrar na casa da cartomante, pois pude observar que havia muita coisa de porcelana e de vidro, altamente quebráveis para uma criatura tão desajeitada como eu..

Sentei-me a mesa que ela indicara, e tinha uma enorme bola de cristal e, uma vela num castiçal antigo... e minha cabeça começou a imaginar, quantas pessoas e coisas já foram iluminadas por aquele artefato.

Depois, pediu-me com delicadeza, que descruzasse os braços e pernas... E, mencionou que eu era portadora de alta mediunidade que não me preocupasse muito, que tudo iria ficar bem... Sempre fui cética, mas achei que poderia ouvir presságios e mensagens oportunas. Pediu-me para abrir o baralho em três montes, exatamente com mão direita.  E, eu fiquei a pensar nas canhotas do mundo.

Após o corte do baralho, começou então, desfiar metáforas e um monte de coisas que são absolutamente viáveis para todo mundo. Ela vaticinara que o amor estava bem próximo de mim, que cuidava de meus passos Fiquei preocupada, vai que tem algum esquizofrênico me perseguindo, e eu nem notei.

Afinal, como seu deveras distraída... Depois, disse que precisava cuidar de minha saúde... e, evitar comidas apimentadas (ela não sabe que sou alérgica a qualquer tipo de pimenta)... Acenei com a cabeça resignada. E, então, foi chegada hora das perguntas...questionei se o ente querido estava bem... se era feliz num lugar tão frio e distante de suas origens...

A cartomante suspirou, e novamente, divagou poeticamente: a felicidade e algo que trazemos dentro da gente e não no lado de fora.. não é o lugar... não é com quem... afinal, tudo estava bem e, ela estava amadurecendo. Resignei-me, afinal, muitas dúvidas se acalmaram diante do inexorável destino.

Todos amadurecem, evoluem e, um dia, simplesmente, morrem... e deixam vestígios numerados em cartas de tarô.
GiseleLeite
Enviado por GiseleLeite em 17/06/2020
Alterado em 18/06/2020
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