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"O conhecimento é o mais potente dos afetos: somente ele é capaz de induzir o ser humano a modificar sua realidade." Friedrich Nietzsche (1844?1900).
professora Gisele Leite
Diálogos jurídicos & poéticos
Textos

 
A frase original é “O inferno são os outros” é creditada ao filósofo existencialista Jean-Paul Sartre[1] e, apontou que os infortúnios da convivência humana está mesmo intrínseco em nossa mísera essência humana.
 
Paul Valéry[2], outro poeta e filósofo francês afirmou certa vez que: “A pessoa que julga não vai fundo de nenhuma questão”. Pois quando julgamos, interrompemos a capacidade de avaliar, eis porque estabelecemos em nós um tribunal e, no outro (é o acusado ou pelo menos, o réu).

De fato, quando apontamos para alguém como dedo indicador em riste para alguém, permanecem ainda quatro outros dedos direcionados para o próprio acusador.
 
Portanto, há mais culpa no acusador do que propriamente no acusado. Quando julgamos, já não enxergamos mais, pois passou a pertencer ao outro lado.
 
Essa divisão nos impede de sentir e aprofundar qualquer questão. Ademais, existem variações intensas e substanciais do mesmo ser ao longo do tempo, que pode de manhã gozar de plenitude indo até mesmo a decrepitude na noite.

Ressalte-se, no entanto, que não precisamos ser a palmatória do mundo, porém, realmente existem erros que são intoleráveis mesmos.
 
Para dominar a ira ou raiva e as bruscas variações de humor é indispensável uma boa dose de autoconhecimento. No momento de ira, a respiração se tornou mais alta, os músculos do corpo se contraem e, a emoção nos embarga até o tom de voz e a fonética adequada.

A emoção é tão célere quanto um raio de energia, tão veloz quanto a luz e não há sabedoria que resista e os pensamento se arremessam como se fossem flechas.
 
É preciso entender que dar limites aos outros e até mesmo a si mesmo, não significa ofender. Os limites são relevantes e a liberdade mesmo na cultura da paz[3] também significa conhecer os limites e principalmente respeitá-los.
 
É verdade que a lenta erosão dos relacionamentos nos faz perceber que o inferno são os outros, está no outro. Mas, oculta, por sua vez que também o paraíso pode estar no outro.
 
Aqueles que incomodam o outro, não percebem o todo. Estão enclausurados em si mesmos. E, o ego assume proporções incomensuráveis e, só percebe apenas as próprias necessidades. Estão tais pessoas imersas em seus casulos e, não temos como impor que saiam do casulo e enxerguem o todo, o circunspecto contexto.
 
Em filosofia denominamos má-fé quando transferimos para o outro a responsabilidade da nossa liberdade. Mas como informar de modo civilizado ao outro que não é o centro de todo o universo?
 
E, se não tiver a centralidade da atenção pelo tempo que julgar necessário pois vai sentir o ego ferido e se sentir mal atendido. No fundo, estamos carregados de dores e quando alguém nos decepciona, torna-se o alvo preferido de nossa raiva represada.
 
Quanto mais complexa for a sociedade, maior necessidade terá de aparatos de coerção, tais como polícia, multa, punição, advertência e, etc. Para se garantir a cultura da paz, é preciso haver educação tanto a formal como a familiar.
 
Pois quando o consenso existe, seja em menor grau, a coerção se faz cada vez mais imperiosa. E, nesse contexto se insere a concepção iluminista[4] de liberdade que afirma que a liberdade de um termina quando começa a do outro.
Realmente precisamos da coerção porque não somos verdadeiramente éticos. Assim, quando o consenso existe sendo dominante ou absoluto, a coerção naturalmente diminui ou até desaparece.
 
Porém, em alguns momentos essa coerção esbarra na censura, no limite, na interrupção da liberdade de ser do outro.
 
O grande desafio é saber equilibrar coerção e consenso nas questões práticas sobre a existência humana. A cultura da paz, portanto, igualmente pressupõe o limite e imposição de regras e procedimentos.
 
Mas, deve-se entender que a cultura da paz[5] permita a cada um a fazer o que quer, respeitando o outro e, implica obrigatoriamente em responsabilidade.  No sentido de que cada um assuma a sua cota societária dessa cultura.
 
 
 
[1] Sartre foi filósofo e escritor francês, considerado o maior expoente da doutrina existencialista e disse em uma de suas peças intitulada "Entre quatro paredes" que o "inferno são os outros". Lembremos que a existência para Sartre precede a essência, isto é, o ser humano primeiro existe no mundo, e, somente depois, cia a sua essência, ao contrário dos demais seres, tais como animais, plantas, que tem a sua essência antes mesmo de existir pois já nascem previamente programados e instintivos. Em tese, o ser humano tem como evoluir e finalmente expandir sua consciência.
 
[2] Ambroise-Paul-Toussaint-Jules Valéry (1871-1945) foi filósofo, escritor e poeta francês da escola simbolista cujos escritos incluem os interesses em matemática, filosofia e música. Sua obra poética foi influenciada pelo simbolista Stéphane Mallarmé, que consequentemente influenciou outro francês, Jean-Paul Sartre.
 
[3] A proposta da cultura de paz busca alternativas e soluções para estas questões que afligem a humanidade como um todo, não se foca na questão da violência, mas na paz como um estado social de dignidade onde tudo possa ser preservado e respeitado. Estes pontos são um dos grandes desafios da construção de uma cultura de paz.
 
[4] A doutrina de Sartre foi embasada na teoria de Jean-Jacques Rousseau. Este pensador que, no alvorecer do Iluminismo, retirou o aspecto contemplativo e extracorpóreo estabelecido pela crença e filosofia cristã, na figura de um ser superior, alheio aos cosmos e ao homem, mas feito seu semelhante, na figura de Jesus Cristo, e colocou o ser humano como protagonista de sua essência, como o ser por excelência, o seu próprio salvador e libertador. A partir deste entendimento, o ser humano passa então a ser tratado como fim e não mais como meio. Neste entendimento, nós somos responsáveis por tudo a nossa volta e por tudo aquilo que praticamos, seja bom ou ruim, e o nosso destino deixa de ser regido pelo cosmos ou por um ser extraordinário.
 
[5] De acordo com David Adams, a cultura de paz tem como base oito pilares: 1. Educação para uma cultura de paz; 2. Tolerância e solidariedade; 3. Participação democrática 4. Fluxo de informações;5. Desarmamento;6. Direitos humanos;7. Desenvolvimento sustentável; 8. Igualdade de gêneros.
GiseleLeite
Enviado por GiseleLeite em 25/03/2020
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