"O conhecimento é o mais potente dos afetos: somente ele é capaz de induzir o ser humano a modificar sua realidade." Friedrich Nietzsche (1844?1900).
professora Gisele Leite
Diálogos jurídicos & poéticos
CapaCapa
Meu DiárioMeu Diário
TextosTextos
ÁudiosÁudios
E-booksE-books
FotosFotos
PerfilPerfil
Livros à VendaLivros à Venda
PrêmiosPrêmios
Livro de VisitasLivro de Visitas
ContatoContato
LinksLinks
Textos


 
Existem várias versões sobre “A Bela e a Fera” e, tais reportam muito sobre as épocas em que foram escritas e vivenciadas. Enfim, é um tradicional conto de fadas francês escrito por Gabriella-Suzanne Barbot. Que era uma trama de Billeneuve, em 1740, porém, o conto só tornara conhecido mais tarde em 1756, pela autora Jeanne-Marie LePrince de Beaumont (uma francesa que trabalhava como governanta na Inglaterra) que sintetizou e modificou a obra original[1].
 
E, então, fora muitas vezes adaptado, filmado e encenado diversas vezes. Em verdade, as diferentes versões do original procuram promover adaptação para as diferentes culturas e sociedades.
 
Em seu título original La Jeune Ameriquaine et les Contes Marins, a jovem americana e os contos do mar, o conto narra a história da filha caçula de rico mercador, que tinha três filhas, porém, enquanto as filhas mais velhas gostavam de ostentar luxo e riqueza, essa mais nova, a quem todos chamavam de Bela, era humilde, gentil e generosa e gostava mais de leitura e de tratar civilizadamente as pessoas.
 
Certo dia, porém, o mercador perdeu toda sua fortuna, com exceção de pequena casa distante da cidade, E, Bela aceitou resignada a situação, porém suas irmãs mais velhas não se conformavam em perder o luxo e os admiradores, e descontavam suas pesadas frustrações sobre Bela, que tímida e humilde nada reclamava e procurava ajudar seu pai como podia.
 
Em certo dia, recebeu o mercador notícias de bons negócios na cidade e, então resolver partir, e suas irmãs, esperançosas em enriquecer novamente, trataram de encomendar vestidos e futilidades.
 
Mas, Bela pediu ao pai que apenas lhe trouxesse uma rosa[2]. Quando o mercador voltava para casa, fora surpreendido por uma borrasca medonha e, então se abrigou num castelo que estava no caminho.
 
E, o referido castelo era mágico e o mercador pôde alimentar-se e dormir com conforto e segurança, pois tudo que precisava lhe era servido imediatamente e por encanto.
 
Pela manhã, ao partir, avistou um belo jardim de rosas, e, recordando do pedido de Bela, colheu apenas uma delas para levar consigo. Nesse momento, fora surpreendido pelo dono do castelo, uma Fera pavorosa e medonha, que então lhe impôs uma condição para viver, deveria trazer uma de suas filhas para se oferecer em seu lugar.
 
Ao chegar a casa, Bela sabendo da situação, resolveu se oferecer para a Fera, imaginando que seria devorada e morte rapidamente. Porém, ao invés de devorar, a Fera fora se mostrando aos poucos como um ser sensível, afável e até amável, fazendo todas as suas vontades, e tratando-a como uma princesa.
 
Bela, apesar de achá-lo feio e pouco inteligente se apegou ao monstro que, então sensibilizado a pedia constantemente em casamento, e Bela gentilmente recusava[3].
 
Noutro dia, saudosa a Bela pediu a Fera que a deixasse visitar sua família, o que a contragosto concedeu, com a promessa de Bela retornar em uma semana. Então, a Fera combinou com a Fera que para voltar, bastaria colocar seu anel sobre a mesa, que magicamente retornaria ao castelo.
 
Assim, Bela visitou alegremente sua família, mas, suas irmãs, ao vê-la feliz, rica e bem-vestida, ficaram mortas de inveja e, a envolveram para que sua visita fosse se prolongando. Com a clara intenção de deixar a Fera aborrecida com Bela, e então tratar de logo devorá-la. E, Bela foi prorrogando seu volta até ter um sonho em que via que Fera estava morrendo.
 
Arrependida, colocou o anel sobre a mesa e então imediatamente voltou e encontrou a Fera no jardim de rosas morrendo, pois de tanta tristeza não se alimentava mais, e sofria copiosamente, pois temia que a Bela jamais retornasse.
 
Bela então compreendeu finalmente que amava a Fera e que não poderia mais viver sem sua presença, mas confessou ao monstro sua resolução de aceitar finalmente[4] o seu pedido de casamento.
 
E, logo que foram pronunciadas essas palavras, a Fera subitamente se transformara num lindo príncipe, pois seu amor colocara fim num encanto que o condenava a viver sob a forma de uma fera medonha até que uma donzela de puro coração aceitasse se casar com ele. O Príncipe e a Bela se casaram e foram felizes para todo sempre.
 
A versão original incluía alguns elementos que foram omitidos por Beaumont. Nessa versão, a Fera fora um Príncipe que ainda jovem perdeu pai e, sua mãe teria partido para uma guerra em defesa do reino. A rainha, na ocasião, o deixou sob os cuidados de uma malévola fada que tentou seduzi-lo, enquanto ele crescia. Mas, como recusou aos encantos da dita fada, ela o transformou em fera.
 
A história[5] revela igualmente que a Bela não é realmente uma filha do mercador, mas sim, uma descendente de um rei. A mesma fada malévola que tentou em vão seduzir o Príncipe, igualmente tentou matar Bela para casar-se com seu pai, e Bela veio a tomar o lugar da filha morta do mercador para se proteger.

 
A segunda versão diminuiu o número de personagens e ainda simplificou a trama. Na URSS, o filme intitulado “A Flor Vermelha” foi feito em 1952, baseado numa versão adaptada por Sergei Aksakov.
 
Em 1962, uma versão de Joyce Taylor e Mark Damon mostrava uma Fera como um Príncipe transformado em lobisomem. EM 1987, uma produção The Cannon Group e Golan-Globus realizou uma versão musical, sob a direção de Eugene Marner, estrelando John Savage e Rebecca de Mornay, com trilha musical de Lori McKelvey.
 
Em 1991, Walt Disney produziu um musical de animação, dirigido por Kirk Wise & Gary Trousdale, com adaptação de Linda Woolverteon. Nessa versão, a Bela não tem irmãs e o castelo da Fera fora encantado por uma fada disfarçada de mendiga, que no passado oferecera uma rosa a um Príncipe soberbo, que a recusou, fora como punição transformado em fera.
 
E os criados do Príncipe foram transformados em objetos domésticos e ele tem um prazo para se casar com uma donzela que aceite seu amor, até que a última pétala da rosa caísse.
 
Em 2011, o filme Beastly trouxe uma versão moderna do conto. E, nesta Kyle é um jovem com um rosto desfigurado graças a uma antiga colega de escola que no passado fora humilhada por ele.
 
E, em 2014 foi lançado um longa-metragem francês baseado no conto e estrelado por Léa Saydoux como Bela e Vicent Cassel como a Fera. Nesta versão, a maldição fora lançada por um deus da floresta, condenando-o a viver como mostro até que encontrasse alguém que o amasse, por este um dia ter caçado a corsa dourada, que na verdade era a ninfa do bosque, filha do deus da floresta.
 
Emma Watson que interpretou Hermione Granger na saga Harry Porter, protagonizou a Bela no cinema. E, o filme live-action da Disney reestreou em 17.03.2017.
 
Uma variação da história foi feita para a série Once Upon a Time, onde Belle é interpretada por Emilie de Ravin e a Fera que na série, que é uma versão de Rumpelstiltskin, é interpretada por Robert Carlyle.
 
Nesta versão, a "fera" não aceitou o amor de Belle inicialmente, apesar de ter se apaixonado por ela, já que caso ele perdesse sua aparência monstruosa por amor verdadeiro, também deixaria de ser a criatura mais poderosa da Terra dos Contos de Fada. Mas, apesar de tudo, os dois ficam juntos na segunda temporada da série e se casam na terceira temporada.
 
Em verdade, o conto integra uma vasta coleção de histórias sobre relacionamentos entre pessoas e animais que eram bastante populares na Idade Média, antes mesmo da exploração promovida pelos Irmãos Grimm. Basta lembrar-se da lenda de Cupido & Psiquê[6] que parece ter inspirado esse tipo de narrativa.
 
O que o senso comum nos informa é que não se deve ater-se apenas às aparências[7], afinal, o que importa é a beleza interior. Porém sabemos que ao longo dos séculos, a maioria das histórias infantis sempre teve a intenção de transmitir valores[8] da época e, assim, é natural que as narrativas se adaptem, aos valores vigentes.
 
De acordo com o psicanalista, e também especialista em contos de fadas, Bruno Bettelheim, a síndrome de Estocolmo[9] é na verdade um problema sutil frente ao que realmente se objetivava com essa narrativa: acalmar as moças virgens diante da ideia do sexo no casamento, ainda mais quando estas eram obrigadas a se casar com aristocratas muito mais velhos que elas.

Referências:
AYRES, Nicole. As versões de A Bela e a Fera. Disponível em: https://homoliteratus.com/as-versoes-de-a-bela-e-a-fera/ Acesso em 10.11.2019.
BEAUMONT, Madame de; VILLENEUVE, Madame de; tradução André Telles; apresentação Rodrigo Lacerda; [ilustração  Walter Crane e outros]. Rio de Janeiro: Zahar, 2016.
MOURÃO, Hellen Reis. A Bela e a Fera simboliza amor humano: erótico e imperfeito. Disponível em: https://www.personare.com.br/a-bela-e-a-fera-simboliza-amor-humano-erotico-e-imperfeito-2-m7631  Acesso em 10.11.2019.
Instituto Junguiano do Rio de Janeiro. O Conto "A Bela e a Fera": da simbologia alquímica ao processo de individuação. Disponível em: http://institutojunguianorj.org.br/o-conto-a-bela-e-a-fera-da-simbologia-alquimica-ao-processo-de-individuacao/ Acesso em 10.11.2019.
 

[1] A Bela e a Fera não é simplesmente uma história de cortejo e casamento e sobre o poder transformador do amor, mas também sobre nossa relação com a alteridade e monstruosidade. Uma narrativa sobre animais e feras, natureza e cultura, nós e os outros, crueldade e compaixão.
 
[2] O simbolismo da rosa é extremamente rico, visto que a rosa esta associada aos mistérios de Isis, como também ao culto da deusa Afrodite (ou Vênus). Além, disso a rosa, como as demais flores, por terem formato circular, representam a totalidade, o Self e a busca pela perfeição através do processo de individuação.
Segundo Jung, a rosa, em geral, dispostas em quatro raios, o que indica a quadratura de um círculo, representando assim a união dos opostos, simboliza a totalidade. Sobre os símbolos da totalidade, Jung estudou as mandalas das religiões orientais. “Mandala”, em sânscrito, significa círculo e designa os desenhos circulares utilizados em rituais de contemplação.

 
[3] Devemos entender a história e suas adaptações em seus diferentes contextos. No século XVIII, os casamentos por conveniência eram comuns. É possível entender que Bela não se apaixona verdadeiramente pela Fera, mas aprende a admirá-lo por seu bom caráter e aceita ficar com ela por isso.

Então, o casamento de conveniência, como foi o de Pedro González com Catarina, pode funcionar, contanto que haja respeito e confiança. O amor seria desenvolvido com o tempo. A versão de Villeneuve, porém, é mais romântica: Bela de fato se apaixona pelo Desconhecido, sem saber sua identidade, e nutre um sincero afeto pela Fera.
Nos filmes, Bela se apaixona pela Fera, gradativamente, e o amor humaniza a Fera, cujo temperamento egoísta e impulsivo foi responsável por sua maldição. Nos contos, o príncipe não era mimado; ele foi condenado injustamente. Os filmes, portanto, são mais moralistas nesse sentido: a maldição tem o intuito de ensinar uma lição ao príncipe.
No longa metragem francês, o príncipe teria sido indiretamente responsável pela morte de sua antiga esposa, por conta da  obsessão com a caça de uma gazela. De qualquer forma, todas as versões de A Bela e a Fera são muito bonitas e têm algo a nos ensinar. O que importa, afinal, para o amor, não é a beleza nem a inteligência, mas a bondade. E os virtuosos conquistarão, ainda que a duras penas, sua felicidade.
[4] Grande parte dos contos de fada tem um final feliz, simbolizado pelo casamento, que segundo Estés representa a procura de um novo status, o desdobramento de uma nova camada da psiquê. Na alquimia a união entre opostos é comumente representada pelo casamento entre figuras masculinas e femininas, o que é denominado de coniunctio. A coniunctio alquímica simboliza uma união transformadora de substancias dessemelhantes. A partir dos símbolos alquímicos, Jung vislumbra alegorias do processo de individuação.
[5] Ao viajar de navio para a Holanda, onde o imperador reuniria sua corte, o menino é capturado por corsários franceses, que o mandam como animal de estimação a Henrique II, monarca da França. Este deseja realizar a experiência de “humanizar” a “criatura”, vestindo-o com roupas nobres e providenciando-lhe a mais refinada educação. Pedro vive, então, na corte do rei francês, onde presta serviços diplomáticos e surpreende a todos com suas habilidades, sendo considerado pela ciência como um caso de evolução da “besta humana”.
[6] O Cupido era o antigo deus do amor na mitologia romana — ele corresponde a Eros na grega — e, de acordo com o mito, era filho de Vênus, a deusa do amor, e Mercúrio, o mensageiro dos deuses.  
Normalmente, esse personagem é retratado como um garotinho alado empunhando arco e flechas com as quais atinge suas vítimas (mortais e imortais) e as enche de sentimentos de amor e paixão.
Entretanto, também existem representações nas quais o Cupido parece um pouco mais velho, já como um rapaz, vestindo uma armadura semelhante à do deus romano da guerra Marte, possivelmente com o objetivo de simbolizar o caráter invencível do amor ou, ainda, com o propósito de criar um paralelo entre o romance e a guerra.
De qualquer forma, era comum que o Cupido fosse retratado com um personagem relativamente descuidado — e inclusive inclinado a cometer travessuras — na hora de apontar suas flechas e acertar seus alvos.
Aliás, quando a missão de criar casais apaixonados era encomendada pela mãe dessa divindade marota, Vênus, quase sempre a intenção era a de causar alguma confusão amorosa, e foi assim que a história de amor entre Cupido e Psiquê aconteceu.
A história de Cupido e Psiquê foi relatada por Lucio Apuleio na obra “Metamorfoses” também conhecida como “O Asno de Ouro” no século II e consiste no único romance latino que sobreviveu  à passagem dos séculos e se manteve preservado de maneira integral. Segundo o mito, Psiquê era a mais jovem das três filhas de um casal de reis de uma terra distante, só que ela era tão, tão bela, que os homens, distraídos, começaram a se esquecer de fazer suas oferendas a Vênus para ficar contemplando a jovem.
Embora fosse a mais belas das três irmãs, Psiquê era a única que ainda não havia se casado, e os pais da jovem começam a desconfiar que a beleza da filha podia ter enfurecido os deuses. 
Assim, eles decidem consultar o oráculo de Apolo e recebem a notícia de que a moça não se casaria com um humano, mas sim com uma espécie de dragão terrível que vivia no alto de uma montanha, aterrorizava o mundo com fogo e ferro e era temido inclusive pelos habitantes do submundo — e até por Júpiter, o deus romano do dia.

 
[7] Bela está identificada e em simbiose com a figura paterna. O pai representa os valores patriarcais externos que regem a sociedade hoje: ser bem-sucedido e eficiente e ter uma carreira.
[8] Valores morais podem ser apresentados em contos de fadas e estes podem ter como propósito a boa formação de nossos jovens, só que uma personalidade depende de muitos outros fatores para se formar.
Contos de fadas também podem servir de críticas às instituições e à sociedade, mesmo assim, uma rebelião é formada por muitos outros componentes além de palavras em um livro, ou seja, se os livros citados são realmente contos de fadas ou simples artifícios de rebelião contra as instituições, o fato é que sua contribuição para a formação da personalidade de jovens é indiscutível, ainda mais se considerarmos um país como o nosso, onde a maior formadora de opinião ainda é a novela.
[9] Síndrome de Estocolmo ou síndroma de Estocolomo (Stockholmssyndromet em sueco) é o nome normalmente dado a um estado psicológico particular em que uma pessoa, submetida a um tempo prolongado de intimidação, passa a ter simpatia e até mesmo amor ou amizade perante o seu agressor.
GiseleLeite
Enviado por GiseleLeite em 10/11/2019
Alterado em 13/11/2019
Copyright © 2019. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.


Comentários