![]() |
|
![]() O mimetismo discreto da pele e dos olhos a fingir a cor que não tem. A dimensão que não possui. Pois tudo é reto e convexo. A fingir os sentimentos nebulosos repletos de estrelas e de luz. Mas hoje eu arfava. O peito de pombo estava mesmo inflado e procurando oxigênio. Ou uma tábua de salvação. Pois tudo procurava sobreviver enquanto aguarda pela morte.
Estou tão triste hoje. O azul do céu me entristece e a chuva sub-reptícia parece informar sobre lágrimas reprimidas e não exauridas. Quando lembro das pessoas que amei, dos entes queridos que já partiram e foram definitivamente para o infinito, onde não mais os alcanço. As rimas perfeitas de fonemas redondos e concretos a ensaiar um lirismo tímido e envergonhado. Olhei para rua e vejo mil pessoas parecidas com você. Mas você era único. Era vulgar e despreparado e nem mesmo se aceitava como era. Era um estranho parido e sem ninho. Uma ave de arribação que desafiava a primavera com as asas. Todos tão parecidos. Fisionomias ícones, olhares oblíquos, roupas ciganas e passos de gueixa. A vertigem me informa o quão somos iguais e díspares. O quão somos convexos e côncavos. O quanto estamos misturados num inconsciente traído pela razão. O quão riscamos passos num destino trágico onde o inconsciente nos conduz ao abismo. A tez pálida, a insônia, a tosse insistente imersa numa noite calma e mansa. O que foi feito daquele tempo? O que foi feito da memória? Que esquadrinha tortura e torpeza. Vem novamente outra primavera e minha cabeça padece no inverno, nas baixas temperaturas, debaixo de colchas e de uma solidão ígnea. O mimetismo de seu olhar dissipou-se. O cerro se abriu e, pronunciastes um mantra cotidiano: Bom dia! GiseleLeite
Enviado por GiseleLeite em 20/09/2019
Copyright © 2019. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
|


