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![]() Eu aqui cheia de dores
Diante de uma tatuagem enigmática. Uma letra japonesa. O ruído em minha volta parecia a trilha sonora do inferno. Chego ouvir o barqueiro a remar para me levar para o mundo de Hades. Não trouxe as moedas. Lateja-me a alma. Não quer mais o corpo. Não quer o planeta. Não quer o jogo. Não quer. O desejo morreu. Sobrou uma lucidez ácida. Corrosiva. Que queima retinas. Que incendeia cidades. E faz pouco de humanidades; Eu aqui ruminando poesias caóticas. Sem rimas, sem nexo, e sem lógica. A soma aponta-me para subtração. A multiplicação me dá dormência E, a raiz quadrada achata minha autoestima. Tudo se resolve numa inequação. Na mão, a senha esquizofrênica. Que devo perseguir. Olho o painel. Ouço vozes a chamá-la. A enfermeira me olha. O médico me olha. Faz perguntas. Faz suposições. Mas, minhas dores são concretas. Sólidas. Monumentos da sobrevivência. Pernas tremem. Olhos embaçam. O homem da tatuagem japonesa Também está doente. Pálido e meio pardocente. Não resisto, e lhe pergunto o que significa a letra asiática. Lépido, ele me informa que significa saúde e virtude. Internamente rio. Seria ironia ou fatídico dia? Inscrições mentirosas sobre pele humana e mortal. O cardiologista fala de minha pressão alta. Seu tom é grave e monocórdio. Olho para o alto, como se pudesse contê-la. E, a tontura aparece. Firme e oscilante. Taquicardia. Rimas superpostas que não sabem se combinar. São mosaicos que brincam de caleidoscópio. A enfermeira busca a medicação Que vem dentro de uma seringa. Uma picada. Uma cura rápida. Um segundo. E tudo desaparece. Odeio injeções. Odeio o branco profundo de hospitais. Durmo ou desfaleço. Nem sei. Durmo quase tão profundamente que esqueço da dor. Esqueço da tatuagem e o braço que me aparece é gentil. Não posso recusar gentilezas quando doente. Tudo que queria era sair correndo, suando e segredando tudo. Para no fim, chegar a um paraíso mental. De não pensar em mais em nada. Uma pílula. Uma pomada. Uma injeção. E, a morte afinal é adiada. Para um futuro indefinido. Poesia é um remédio. Adiamos para sempre a sensação do fim. Ainda que nos aproximemos cada vez mais intimamente dos paradoxos todos. GiseleLeite
Enviado por GiseleLeite em 20/08/2017
Alterado em 12/03/2018 Copyright © 2017. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
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