![]() |
|
![]() Juntarei os cacos,
as peças, as farpas, os caleidoscópios para concertar-me. Para montar o mosaico. Entender o todo, ainda sendo apenas parte. Entender a parte encaixado no todo, ainda que solitária ainda que transgressiva ainda que triste Por saber da finitude. Saber do tempo pesando nas costas. Atrasando pernas. Apagando caminhos e memórias. E deixando-nos com a contemplação da alma na janela do espírito... Juntarei os cacos selecionados com a pinça, com a paciência, com a esperança... Algumas sobreviverão Alguns pedaços terão definitivamente desaparecidos. Pulverizados Espalhados no infinito e escapado da morte. Juntarei as peças Sob a miopia intrínseca E sem formar todo quebra-cabeça... Manter o pensamento íntegro. Hígido e hirto. Não posso me dobrar sobre as estranhezas humanas Não posso me curvar para todas as majestades Não tenho reino Não tenho feudo Não tenho masmorra. As torturas que sofro são de minha consciência algemada à realidade pungente, sangrenta e cruel. Que saem das manchetes de jornais. Que saem das alcovas malidicentes Tenho ouvido enxovalhos em silêncio, como se sorvesse o veneno das palavras e morresse por seu significado. Juntei todas as peças sobre o tabuleiro improvável a trama me pareceu completa Mas, há o imponderável. Há o hiato entre o signo e significante. Sentimentos fractais refletem de forma múltipla uma parte da estória. Contam a narrativa O vestígio do que houve. A prova do que há. Há poesia estonteante De descobrir-se aos pedaços. Inteiramente. GiseleLeite
Enviado por GiseleLeite em 30/08/2016
Copyright © 2016. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
|


