![]() |
|
![]() Sou daquele livro,
daquela página... daquela poesia... Ela insiste em identificar-me. Nomear com lirismo o acaso. Conduzir a narrativa do olhar. Até as coisas que se pertencem e se perdem constantemente. Sou do mosaico do vento. Sou da esquina E, ainda parcialmente pertenço àquela risada que ecoa meio satânica e meio sensual. Pertenço ao caminho, aos passos, aos tropeços e a todas as hesitações. A dúvida me pertence E eu me entrego religiosa à ela. Pertenço às minhas memórias, aos meus ódios peculiares e a raiva vulgar e inconformada de ver as coisas seguirem um script imutável e previsível. Pertenço à ironia... ao sarcasmo que intrínseco, nas incertezas mais recorrentes. Mas existem horas... que nada temos... nem as palavras, nem as roupas, nem a alma e nem os pensamentos. Tudo nos é subtraído. E então, não mais pertencemos a nada... a ninguém. A subtração da juventude aos poucos veem, ano após ano.. A subtração da verdade, pelos enganos por vezes tao grosseiramente cometidos. A subtração da existência que vem pela morte silente, súbita ou parcimoniosa. Das pernas nos subtraem as corridas. Da alma nos subtraem a pressa. Do corpo nos subtraem a leveza, a firmeza e a gravidade. Quando finalmente caímos. Pertencemos à queda. Ao chão. E lembramos de ter ouvido em algum lugar... do pó viestes e ao pó voltarás... Vir e voltar é o esquema do pertencimento. Por vezes, esquecemos de voltar. Outras vezes, nos esquecemos de vir... E se há a partida sem aceno e sem saudades. Existem as reticências a nos redimir. A deixar para a imaginação a arte de pertencer e despertencer... De se prender e se libertar... De mergulhar e emergir. De sucumbir e vencer. De lutar e morrer. Pertenço a mensagem. Aos símbolos gravados nela. No endosso da voz, da ênfase misericordiosa dos olhos.. do ritual dos gestos... e do ballet esquisito praticado a exaustão pelos libertários... Pertencer e despertencer é viver, conviver, impregnar-se, contaminar-se com tudo e por tudo... Trazemos um pouco de tudo. No pouco que há em nós. GiseleLeite
Enviado por GiseleLeite em 14/01/2015
Alterado em 24/01/2015 Copyright © 2015. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
|


