![]() |
|
![]() Estou aqui e ninguém deve me ver. Ninguém deve falar comigo. Interagir... perceber-me. Sou paisagem ou contexto. Não sou sujeito e nem objeto. Não sofro vivências e nem de vidências. Sou a evidência daquilo que não pode existir. Não existe. Não existo. E se insiste em existir é torpe, é vil e inútil. Mas, para que serve ser clandestino? Viajar em silêncio. Deslocar-se entre sombras e respirar esse oxigênio furtado. Comer escondido. Beber com medo de ser envenenado pelo próprio medo ou morrer pela sede infinita. Atravessar desertos semânticos sem uma palavra sequer. Estou aqui. Geograficamente aqui. Corporalmente aqui. Sou a substância subtraída de um momento, de um flash... que paira sobre a fotografia. Que se amarra no obelisco público dos paradoxos. Se expõe nu e às cegas. Estou aqui. Sou clandestino. Nessa nau insólita. Nessa astronave imaginária. Blindada por pensamentos suicidas. E ilhada por um abismo cíclico e mordaz. Oceanicamente em névoas. Clandestino não pode tossir. Não pode engasgar-se. Não pode engajar-se. Não pode existir. Mas, existe. Na infelicidade fugidia de tempos corridos. De vidas encobertas e discretas. Clandestino não é poeta. Não é pateta. Não é esteta e nem diale. Nao é santo. É um monge em voto de castidade e silêncio. Vive de pobrezas explícitas e de restos jogados nos descaminhos da viagem. Chegamos ao porto. O clandestino se liberta. Tal qual o rato, percorre graciosamente a corda, até as amarras... Então se liberta na terra firme de ninguém. Um ninguém que de repente se liberta e cai no cadafalso da estória. GiseleLeite
Enviado por GiseleLeite em 02/06/2014
Copyright © 2014. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
|


