![]() |
|
![]() É deserto.
Há um silêncio de marfim erguido diante da torre de ébano. É deserto. O coro das crianças emudeceu. Os anjos perderam as asas. E as nuvens esvairam-se Num céu límpido e tórrido. O sol queima retilíneo. Encrava sombras nas areias finas e ressentidas por pegadas. O astro-rei nos faz súditos sedentos. E a cada passo, o corpo derrete ainda vivo. Procurando sobreviver numa sombra imaginária. É deserto. O camelo cambaleia ritualístico. Altaneiro e compassado. Chegamos ao oásis. Alguma água mas ainda o sal presente nos maltrata ao paladar e a pele já tostada de tanta irradiação. É deserto Mas há tanta vida nos ratos, nos restos nos flancos e nas dores em carne viva e seca. Meus olhos não lacrimejam Não querem adicionar mais sal ao que já há por aqui. É deserto. Ao abrigo do oásis. Lembro do resto da caminhada Até a aldeia perdida no meio do nada. Aqui sobre esse imenso céu estrelado. Somos coriscos a rascunhar a vida. Alguma vida. É deserto. Mas trago tudo comigo. Minhas lembranças. Meus amores e desamores. Meus calores que tão intensos e tépidos Arquitetam rubrores e rudezas. Ainda trago comigo. Minha infância falida. Minhas carências recolhidas nas folhas destacadas de um bloco usado. É deserto. E na profusão de afetos perdidos. Sempre resta uma brisa sauve. A soprar as feridas. A sibilar segredos de despertencimento do caminho. Sou o deserto em meio do abismo a girar frenético num relógio contemporâneo. GiseleLeite
Enviado por GiseleLeite em 20/04/2014
Copyright © 2014. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
|


