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![]() Ser o outro
Despertencer-se Abandonar as vestes e as convicções Tirar os anéis. Um por um. Livrar-se do peso do metal. Do status do anel de grau. Ser o outro. Uma mão na taça se vinho e outra mão no sangue tinto. A manchar a consciência impregnada de autopiedade. Ser o outro. Batizar-se de nomes e alcunhas estranhas. Conceber-se em entranhas estranhas. Alienígenas. Nascer e morrer no inesperado lugar e no imprevisível momento. Talvez tivesse outra estória. Talvez escrevesse outra poesia sem rimas e nem lirismo. Talvez atravessasse as ruas do abismo. E encontrasse outro caminho. Ou a inércia da filosofia. Rastros de quem já passou. Legados esquecidos. Inclinações abandonadas e empacotadas ao acaso. Ser o outro. Conhecer novos e outros afetos. Ou os mesmos afetos recondicionados. Ou transcrever a mesma fórmula apesar de obter resultados semelhantemente diferentes. A circunferência perderia o arco. A reta perderia o vetor. As palavras órfãs perderiam a semântica. E, na cartilha inédita editaria novo vocabulário. Novos signos. Novas moedas. Novas trocas. Enfim, relações inusitadamente frescas numa realidade requentada. Fumaça de giz. Microondas de calor invisível. O outono talvez pudesse me trazer novas folhas, novas quedas e frutos. Num germinar estranho e colorido. Talves trouxesse novos absurdos. Ser o outro E não ser o eu apenas refletido. Ser o reflexo do reflexo, côncavo e convexo. A se encontrar turvo nos olhos sem retina. Ser o outro. Ameaçar-se. Curvar-se diante de reis e rainhas. E conhecer a nobreza incidental, as cortesãs e as lendas. Ser o outro. No emaranhado intenso de correlações de Ser e Ter. Ter o dom de ser apenas de vez em quando. Ou ser enquanto... Para enganar a eternidade com a magia do teatro e da antropofagia. Ser o outro e finalmente, esvaziar-se ter a plenitude do céu da boca derramando-se numa constelação embutida desenhada apenas por astros cadentes e solitários. GiseleLeite
Enviado por GiseleLeite em 05/04/2014
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