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![]() Queria contar de mim
Meus umbrais. Minhas chaves e lágrimas que ficaram guardadas. na gaveta do sentimento. Queria contar de meu corpo. Como cresceu, como floresceu e um dia cessou. Como a veia que estanca. Como o sangue que escurece. Como a vista que conheceu a treva antes do apogeu. Queria. Mas as palavras emudeceram-se. Ficaram riscadas dentro de mim. Uma a uma. Riscadas de vermelho. Riscadas de luto. Inutilizáveis. Os signos e a semântica trairam a magia do olhar. Pecaram contra a cumplicidade. Fizeram um pacto de silêncio. No monastério da dor. Dor profunda. Pungente. Aguda e silente. Que corrói os ossos. Que se infiltra nos flancos. Indefesos de fêmea ferida e sem crias. Queria contar. As palavras calaram-se num ritual ininteligível. Num balé de agonia e sadismo. Cortar os pulsos. Tomar todos os soníferos. Esquecer da vida e bater a porta. Abrir o gás. Nada disso, adianta. A vontade era um conto. A verdade mesmo está sozinha sentada num canto. A sugar a luz de lamparina. A pedir com pires a piedade alheia. Porque a autopiedade já lhe alimenta mais... Queria contar um pouco de mim. Talvez gostasse. Talvez aceitasse. Tudo e a todos. Não ao mesmo tempo. Mas, em fragmentos diários, sucessivos e eficazes. Até que um dia... Sem haver mais mistérios. A luz brilhasse tanto, mais tanto que a cegueira viraria poesia. GiseleLeite
Enviado por GiseleLeite em 03/04/2014
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