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Não-amanhecer
Tem dias que amanhecer
é abortar o infinito com que sonhávamos. Não queremos acordar. Não queremos a realidade. O som, a fala ou os seres borbulhando vida a nossa volta. Num metabolismo louco e voraz. As cores nauseadas do cotidiano. Manchando a visão, Borrando o horizonte de matizes estranhas. Transformando formas e conteúdos. Tem dias que o sol nascendo É lembrete que estamos morrendo. Um pouco a cada dia. A cada minuto. Sem explicações. Apenas cumprindo um ciclo da vida. Ou de morte. Atávicos e inexoráveis seguidores sem escolha. A dança lúgubre do tempo Vai depauperando rostos, corpos e tiranias. Também os tiranos morrem e perecem. Todos os mortais são finitos e banais. Os poderosos e perdedores. Os enigmáticos e os óbvios. Os sábios e ignorantes. Os lindos e os feios. Os dorminhocos e insones. Os mortais e os espiritualistas. A noite com seu véu de penumbra. Embala a magia de não ver e apenas imaginar. Todos nós finitos aguardamos ansiosos pelo merecido esquecimento. Em fazer parte da paisagem. Enfincar-se nas entranhas da terra. Comungar com o chão os pecados. Ajoelhados ou em ritos da morte. Solenes ou comuns. Então nascerão de novo. Ou morreremos definitivamente. Nascerão novamente outros seres. Repetir-se-ão nossos erros, pecados e fúrias. Scripts inteiros serão repaginados. Mas serão cumpridos na íntegra. Como se fossem eternos. As mágicas palavras silenciaram os culpados e purgaram os pesadelos. Nascerão com o amanhecer Seja pálido ou dourado. Nascerão com as noites e, ainda nas trevas. E a luz refletirá a fé ou o ciclo. Secreto, óbvio e fugaz. Tem dias que é preciso urgentemente não amanhecer. E, deixar brotar a poesia natural impregnada e contaminada por nós.
GiseleLeite
Enviado por GiseleLeite em 11/10/2013
Alterado em 12/03/2018 Copyright © 2013. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
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