![]() |
|
![]()
Fragmentos
Não são os afetos que nos negaram
que doem O que dói é não ser percebido O que dói é ser paisagem e não sujeito. É ser objeto, abjeto e discreto. Por detrás da moita escura da indiferença. Não são os afetos que damos E que se perderam... Afeto não é bumerangue Que bate no sujeito e volta... Não há a lógica de Newton Causa e efeito. Ação e reação. Esquema pequeno e corroído. Binário e vulgar. Não são os afetos escorrendo no ralo do medo. E nem as palavras malditas no momento ruim. É a indiferença. É a ignorância. É o desumano agir sobre tudo. Sobre a poesia. Sobre a chuva. Sobre a dor. Sobre a vida. Sobre a morte. É esse véu nebuloso. E misterioso a nos distribuir em pares Que não se complementam... Que não se encaixam São díspares, São mosaicos inacabados... Recolhendo fragmentos de tempo e verdade. E registrando na parede da consciência angústia e solidão. O que dói foi a mão que não afaguei É o filho que perdi. O amor que virou ódio e depois esquecimento. E, no fim da vida. Contempla-se da sacada com binóculos E, ainda assim, não se encontra mais... Há a mágica da inexistência. O que dói não são os afetos pedidos E renitentemente ausentes. Nem a dormência emocional do olhar partido. É se sentir prostrado diante da realidade e se sentir impotente. Fragmentadamente impotente. Das moléculas até os músculos. O orvalho é impotente para saciar a seca ou matar a sede Ainda assim é poético e se ressente dessa manhã promissora das ilusões. O que dói É não se aceito e nem resgatado. É não ter seu jeito notado ou reconhecido. Sua cor, sua aura ou sua fala. O que dói e que nos deixa doente É não tomar diariamente a dose de coragem para prosseguir. Preciso desse fragmento de destino para continuar o caminho.
GiseleLeite
Enviado por GiseleLeite em 26/12/2012
Copyright © 2012. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
|


