![]() |
|
![]()
sede
Tenho sede
Sede de vida De água De arte Sede infinita Pois a vida em mim Morre todos os dias Renasce a trégua Numa guerra contínua A rua bordejada de calçadas Perto de onde corre o tráfego Intenso de sons, corpos e carros Odores, silêncios e flashes Instantâneos, solúveis e voláteis A esparrar-se pelos lados, pelas arestas pela dúvidas. pelas crueldades incestuosas. Tenho sede De pecado De almas pulsando vivas Dentro do contexto cego e obtuso Tenho sede De reticências líricas De poemas inacabados Do verso em anverso Rimando pelo avesso Tenho sede infinita De horizontes sem sóis De chuvas entardecentes A cimentar o cume das montanhas, O fundo do abismo, E o topo da ilusão A pairar solitária ao lado Da única nuvem que vejo. Tenho sede Sede de vida De água De mar De calma Sede infinita Pois a vida em mim Morre todos os dias com calma e candura E, renasce estranho o silêncio dentro duma guerra surda e contínua. Não há heróis e nem vítimas. A rua bordejada de calçadas e repleta de pedintes, meninos sujos e meninas vendendo sexo Perto de onde corre as correntes sanguíneas repletas de dna, histórias e medos, de primaveras privadas de flores e cores, de amores instantâneos, solúveis e voláteis A esparrar-se pelos lados, por todas as arestas,pelas arenas, transbordando o que ainda é sede nesse imenso deserto que há dentro de nós. Tenho sede de pecado de luxúria de vaidades que não tive. Tenho sede dos versos escritos em latim dos missais ritualísticos comiserados pelos poetas excluídos e esquecidos Tenho sede infinita De noites sem luar De chuvas abrasivas A desaguar o mar que há no fundo do abismo E a ceifar a esperança que paira solitária bem ao lado única árvore que vejo. Quando acabar minha sede, acabou-se a vida. acabou-se as primaveras e os icebergs acabou-se a necessidade de ser e de estar. De beber o momento sorvendo os segundos, com olhos, ouvidos, boca e pele.
GiseleLeite
Enviado por GiseleLeite em 28/04/2009
Copyright © 2009. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
|


